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Falta de planejamento urbano no Grande Recife "resultou em ambientes mais quentes", diz urbanista

Em entrevista ao Diario de Pernambuco, a representante do CAU-PE, Julianna Santos, falou sobre calor e desafios de arborizar as comunidades do Grande Recife; taxa de arborização da capital pernambucana é de 26,76%

Marília Parente

Publicado: 12/01/2026 às 15:54

Segundo IBGE, Recife é apenas a 20ª capital mais arborizada do país/Crysli Viana/DP foto

Segundo IBGE, Recife é apenas a 20ª capital mais arborizada do país (Crysli Viana/DP foto)

Em entrevista ao Diario de Pernambuco, a arquiteta e urbanista Julianna Santos, representante do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE), afirmou que a falta de planejamento do poder público tem resultado em “ambientes mais quentes” nas cidades. Para a especialista, o Recife ainda prescinde de um planejamento urbano que trate a arborização como uma infraestrutura verde estratégica.

De acordo com a pesquisa “Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios”, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade é apenas a 20ª capital mais arborizada do país, com taxa de arborização de 26,76%. Palmas, no Tocantins, lidera o ranking com 88,90%, enquanto o último lugar é ocupado por Florianópolis (14,99%), em Santa Catarina.

Na semana passada, o Diario visitou as comunidades de Pantanal I, em Paulista, e Vila Gilberto Viegas, no Recife. O estudo apontou que elas são, respectivamente, as mais e menos arborizadas da Região Metropolitana.

Segundo o IBGE, o estudo leva em consideração apenas o entorno dos domicílios, isto é, as faces das quadras. Desta forma, a área das comunidades é desconsiderada. Também não são levadas em conta árvores com menos de 1,70 metros ou que estejam localizadas fora do espaço público.

 

Confira a entrevista com Juliana Santos na íntegra:

DP: Quais os principais desafios para arborização de favelas e comunidades? Eles estão relacionados à falta de planejamento urbano?

JS: Com certeza. Como arquiteta e urbanista, e falando em nome do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, afirmo que a dificuldade de arborizar nossas comunidades mais vulneráveis é um sintoma direto da falta de planejamento urbano histórico. Esses territórios se desenvolveram à margem das políticas públicas e isso se reflete na paisagem.

O principal desafio é o adensamento excessivo. As construções são muito próximas, suprimindo espaços vitais como calçadas, praças e quintais, que seriam essenciais para o plantio. Além disso, o solo é quase todo impermeabilizado e abriga uma rede complexa de fiações e tubulações em baixa profundidade, o que inviabiliza o desenvolvimento saudável das raízes e copas das árvores.

Essa carência de áreas verdes não é um acaso, mas o reflexo de uma profunda desigualdade socioambiental. A ausência do Estado no planejamento desses espaços resultou em ambientes mais quentes, com pior qualidade do ar e menor bem-estar para os moradores. Portanto, a solução não é apenas plantar árvores, mas repensar a cidade, promovendo projetos de urbanização que integrem a infraestrutura verde como um direito de todos e um elemento essencial para a saúde pública e a resiliência climática.

DP: Que árvores seriam ideais para nossa cidade?

JS: A escolha da árvore certa para o lugar certo é uma premissa básica do bom planejamento urbano. No CAU-PE, defendemos que a prioridade absoluta deve ser para as espécies nativas da Mata Atlântica. Elas são perfeitamente adaptadas ao nosso clima e solo, demandam menos manutenção e, fundamentalmente, fortalecem nosso ecossistema, atraindo pássaros e outros polinizadores.

Para espaços amplos como parques, canteiros centrais e calçadas largas, podemos investir em árvores de médio e grande porte que oferecem sombra generosa, como nossos belíssimos ipês, e o tradicional e simbólico pau-brasil.

Já em ruas mais estreitas e sob fiação elétrica, o planejamento exige árvores de pequeno porte, que não gerarão conflitos futuros. Espécies como a canafístula, a pitangueira ou o manacá-da-serra são excelentes, pois aliam beleza ornamental e adequação ao espaço urbano limitado.

O mais importante é que a cidade tenha um Plano Diretor de Arborização robusto e diversificado, evitando as 'monoculturas' que empobrecem a paisagem e tornam a cidade mais vulnerável a pragas. A arborização deve ser vista como uma infraestrutura verde, tão vital quanto as demais.

DP: De modo geral, podemos dizer que o Recife teve, em algum momento de sua história, uma arborização ordenada e planejada pelo poder público?

JS: O Recife tem uma relação afetiva com suas árvores, que nomeiam bairros como Espinheiro, Jaqueira e Tamarineira, entre outros. Tivemos, sim, momentos de excelência paisagística, com o grande Burle Marx, na concepção de praças e parques históricos, que são ilhas de planejamento em meio à cidade. No entanto, uma política de arborização urbana que acompanhasse o crescimento da cidade de forma contínua e integrada é algo que ainda estamos buscando consolidar.

Embora hoje tenhamos um Manual de Arborização e leis específicas de fácil acesso na internet, por muito tempo a gestão da vegetação foi tratada mais como uma questão de zeladoria e limpeza do que como um pilar do urbanismo. O crescimento da cidade frequentemente se deu de forma predatória sobre as áreas verdes.

Portanto, eu diria que tivemos ações de planejamento pontuais e valiosas, mas a cidade ainda carece de uma visão de longo prazo onde a arborização seja tratada como uma infraestrutura verde estratégica, essencial para a qualidade de vida, para a drenagem e para o conforto térmico de todos os recifenses. Esse é um dos grandes desafios que nós, arquitetos e urbanistas, estamos empenhados em ajudar a superar.

DP: Que espécies não devem ser plantadas em áreas de barreiras e encostas?

JS: Essa é uma questão de segurança e de vida. A vegetação correta pode salvar, mas a errada pode agravar o perigo. Em áreas de encosta e morros, a principal orientação técnica é: evitem árvores de grande porte e raízes superficiais.

Espécies frutíferas muito comuns em quintais, como jaqueiras, mangueiras e abacateiros, são totalmente desaconselhadas para o plantio em terrenos inclinados. O peso de uma árvore adulta, somado à saturação do solo pela chuva, pode funcionar como uma alavanca, desestabilizando a encosta e causando deslizamentos.

Outra planta que deve ser evitada é a bananeira. Apesar de parecer inofensiva, ela acumula muita água no solo e suas raízes são muito superficiais, não contribuindo para 'costurar' e firmar a terra.

O ideal para essas áreas é uma cobertura vegetal com plantas de raízes profundas e ramificadas, que criam uma malha de contenção natural. Gramíneas e arbustos nativos são os mais indicados. Contudo, qualquer intervenção deve ser sempre acompanhada por um profissional habilitado e pela Defesa Civil, pois a segurança nessas áreas depende de uma solução técnica integrada.

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