Na comunidade menos arborizada do Recife, calor penaliza estudantes e muda a rotina dos moradores
Dados do Censo do IBGE de 2022 apontam situação da arborização nas comunidades do Grande Recife; Diario visitou local apontado como menos arborizado da área
Publicado: 12/01/2026 às 05:00
Hipertensa, Sofia Alves da silva teme passar mal com o calor no interior de sua casa (Crysli Viana/DP Foto)
Aos 62 anos, a auxiliar de limpeza Sofia Alves da Silva mudou o que pôde em sua alimentação e rotina para conviver com o diagnóstico de hipertensão. Com a chegada do verão, contudo, o intenso calor no interior de sua casa tem causado preocupação. Sofia mora em Pantanal I, no bairro da Mirueira, Paulista, comunidade apontada como a menos arborizada do Grande Recife pela pesquisa “Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios”, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Muda minha rotina porque é uma quentura que não passa nunca, tenho medo de ter um enfarto. Tomo vários banhos por dia e o ventilador não dá conta do calor”, conta Sofia.
Vítima de um assalto há cerca de um ano, ela teve a casa invadida e diversos eletrodomésticos roubados. Desde então, vive a portas e janelas fechadas, o que agrava o calor e o quadro de ansiedade recentemente diagnosticado. “Aqui é perigoso. Sou viúva e vivo sozinha com meus netos”, explica.
As crianças, com idades entre 10 e 13 anos, também contam que têm dificuldades de estudar na casa da avó. “Na escola também está ruim. Chega o chão fica molhado com o suor da gente. O ventilador da sala está quebrado e a professora deixa a gente ir pro lado de fora tomar um ar”, diz uma das crianças, que estuda na Escola Municipal Frei Guido, nas proximidades da comunidade.
Única árvore
De acordo com a Associação de Moradores da Mirueira, cerca de 400 famílias vivem em Pantanal I. A comunidade surgiu em torno do Hospital Geral da Mirueira (HGM), fundado em 1941 no formato de uma micro-cidade, com o objetivo de isolar e tratar pessoas acometidas por hanseníase.
É da unidade de saúde que surge a única sombra localizada pela reportagem em toda a rua que constitui Pantanal I. Alta o suficiente para vencer o imponente muro do hospital, ela projeta seus galhos para fora do terreno. “O problema é que essa árvore está causando rachaduras na parede da minha casa e nas duas casas vizinhas”, diz Sofia. “Um pedreiro veio aqui e disse que as raízes estão chegando aqui no meu terreno e causando esse problema”, garante.
Para o catador de materiais recicláveis Cândido Silva, também morador de Pantanal I, no entanto, a árvore é o único alento do trajeto que marca o início de sua comunidade até o local em que mora. “Saio para trabalhar às 6h e passo o dia na rua. Antigamente, a gente saía daqui de manhã cedinho e era brisa gostosa. Agora, nesse horário, o calor já está grande”, comenta.
De acordo com Roberto Kishinami, líder especialista estratégico sênior do Instituto Clima e Sociedade (ICS), a arborização é universalmente reconhecida como parte essencial da construção de resiliência urbana. “O Plano Clima/Adaptação e o Programa Cidades Verdes e Resilientes, do Governo Federal, inclusive têm como componente o aumento de áreas verdes para a resiliência frente a ondas de calor e desastres hidrogeológicos”, comenta.
Os efeitos positivos dessas práticas, salienta o especialista, incluem a redução da temperatura nas vizinhanças urbanas e a redução de impactos em períodos de secas ou chuvas torrenciais. Para Kishinami, a arborização das cidades e a criação de parques urbanos devem ser planejadas em conjunto por estado, comunidades envolvidas e especialistas “em espécies arbóreas e microplanejamento urbano, para assegurar que a infraestrutura urbana é também adaptada para coexistir com a infraestrutura local para segurança energética, hídrica, logística, alimentar e de saúde”, completa.
Pesquisa de entorno
Chefe da seção de base territorial do IBGE em Pernambuco, Juan Cordovez esclarece que a pesquisa de entorno se refere ao entorno dos domicílios e não da área das comunidades. “Os pesquisadores vão em campo nas faces das quadras, os lados das ruas, e verificam aspectos como iluminação, arborização e calçadas. Como se restringe às faces das quadras, esse estudo só se aplica em áreas urbanas”, explica.
Assim, mesmo que uma comunidade seja rodeada de matas, se nas ruas, becos ou escadas, não houver arborização o resultado será zero ou próximo de zero. O percentual final indicado para cada local é baseado na arborização das faces de quadras, considerando árvores com pelo menos 1,70 metros de altura. “Além disso, se a árvore estiver dentro de uma propriedade ou residência, não conta”, acrescenta Cordovez.
Segundo o servidor, o objetivo da pesquisa é o de investigar as condições de infra-estrutura urbana do país. “Cabe aos gestores e encarregados das áreas verificarem os índices e fazerem um bom uso dessas informações para melhorar as condições de vida dos moradores”, conclui.
Na RMR, quatro comunidades apresentaram taxa de arborização de 100%, sendo elas: as comunidades Vila Gilberto Viegas e Área 01, na Guabiraba, e as ocupações 8 de Março e do Aeroporto, ambas em Boa Viagem, na Zona Sul.
Dentre as 27 capitais do país, o Recife é apenas a 20ª mais arborizada, com 26, 76% de arborização. A primeira do ranking é Palmas, no Tocantins, com 88,90%, enquanto o último lugar é ocupado por Florianópolis (14,99%), em Santa Catarina.
Arborização adequada
Para o presidente da Associação de Moradores da Mirueira, Jailson França, a arborização é apenas um dos problemas urbanísticos de Pantanal I. Ele destaca que, na rua vizinha, conhecida como Rua Projetada, uma mesma barreira já desabou três vezes, levando pânico aos moradores a cada nova chuva.
“A última vez foi no ano passado, quando abrigamos 26 famílias na associação. Foi colocada uma lona, que já está toda furada, e a gente observa que a barreira segue descendo aos poucos”, destaca.
O presidente da associação também demonstra preocupação com as árvores que se estabeleceram em cima da barreira. A arquiteta e urbanista Juliana Santos, integrante do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE), alerta que a população deve evitar plantar árvores de grande porte ou que possuam raízes superficiais em áreas de encosta e morros.
“A vegetação correta pode salvar, mas a errada pode agravar o perigo. Espécies frutíferas muito comuns em quintais, como jaqueiras, mangueiras e abacateiros, são totalmente desaconselhadas para o plantio em terrenos inclinados. O peso de uma árvore adulta, somado à saturação do solo pela chuva, pode funcionar como uma alavanca, desestabilizando a encosta e causando deslizamentos”, explica a especialista.
Localizada pela reportagem em encostas nas proximidades de Pantanal I, a bananeira também deve ser evitada em áreas de risco. “Apesar de parecer inofensiva, ela acumula muita água no solo e suas raízes são muito superficiais, não contribuindo para 'costurar' e firmar a terra”, comenta Santos.
Segundo a arquiteta, o ideal para áreas do tipo é uma cobertura vegetal com plantas de raízes profundas e ramificadas, que criam uma malha de contenção natural. “Gramíneas e arbustos nativos são os mais indicados. Contudo, qualquer intervenção deve ser sempre acompanhada por um profissional habilitado e pela Defesa Civil, pois a segurança nessas áreas depende de uma solução técnica integrada”, completa.
Prefeitura
Por meio de nota, a Prefeitura de Paulista informou que não possui um plano específico de arborização voltado para a localidade do Pantanal I. A gestão também informou que enviaria uma equipe técnica “para verificar a situação da árvore citada na reportagem e avaliar se há relação entre as raízes e as rachaduras nos imóveis e, a partir dessa análise, definir as medidas cabíveis”, diz o texto.
Quanto às barreiras visitadas pela equipe do Diario, a prefeitura disse que há previsão de que a pavimentação da via seja executada pelo Governo do Estado, por meio do PAC Encostas.
“Em relação ao muro de arrimo, a Defesa Civil, em conjunto com representantes da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano (SEDUR), realizou, nesta semana, uma vistoria técnica no local. A expectativa é de que a obra de construção do muro de arrimo tenha início ainda no mês de março de 2026”, acrescenta a nota.
Por fim, a Secretaria de Educação e Esportes de Paulista (SEEPA) informou que “tem ciência das demandas relacionadas à Escola Frei Guido, no que se refere às condições de ventilação das salas de aula”. A gestão municipal afirma que, durante o recesso escolar, está realizando uma reorganização estrutural nas unidades de ensino da rede.
“A Secretaria esclarece que todas as escolas do município passarão por processo de climatização de forma gradativa. No caso específico da Escola Frei Guido, o órgão assegura que, no retorno das aulas, todos os ventiladores da unidade estarão em pleno funcionamento, garantindo melhores condições de conforto térmico para alunos e professores”, conclui o posicionamento.
Em relação ao muro da escola, a Prefeitura informa que o imóvel é alugado e que aguardava autorização formal do proprietário para dar início à reconstrução da estrutura. Com a liberação já concedida, os serviços para reerguer o muro terão início nas próximas semanas. A gestão ressalta ainda que a área permanece isolada e segura, com os entulhos e materiais remanescentes devidamente recolhidos.
Por fim, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMA) esclarece que, no momento, não há um plano específico de arborização voltado para a localidade do Pantanal I. A equipe técnica da SEMMA irá ao local nesta sexta-feira (9) para verificar a situação da árvore citada na reportagem, avaliar se há relação entre as raízes e as rachaduras nos imóveis e, a partir dessa análise, definir as medidas cabíveis.