Recife celebra tradicional Queima da Lapinha com cortejo e frevo
Evento teve concentração na Rua Nova, de onde saiu o cortejo com 15 pastoris e três bandinhas natalinas, além do Bloco da Saudade e do grupo Inclusão Cia de Dança
Publicado: 06/01/2026 às 21:13
Grupos de pastoril se apresentam durante a Queima da Lapinha (Foto: Marina Costa/DP Foto)
O Recife trocou a estrela da árvore de Natal pelo brilho do pastoril nesta terça-feira (6). No Dia de Reis, a cidade celebrou uma de suas tradições com a Queima da Lapinha, ritual que encerra o ciclo natalino e, ao mesmo tempo, sinaliza que o carnaval já começa a bater à porta. O evento foi realizado no Pátio de São Pedro, onde a Lapinha foi queimada com música, dança e pedidos lançados ao fogo.
A celebração teve início com o cortejo que saiu da Rua Nova, seguindo pela Avenida Dantas Barreto, passando pela Igreja do Carmo e desembocando no Pátio de São Pedro. Quinze pastoris participaram da noite, acompanhados por três orquestras.
O público acompanhou o vaivém das fitas e das borboletas, enquanto o som do frevo anunciava que o tempo de Momo estava chegando.
O homenageado desta edição foi o Pastoril Menino Jesus da Vovó Bibia, fundado em 1986 por Severina Araújo Brito, a Vovó Bibia. Hoje sob coordenação de Aparecida Brito, o grupo mantém viva a tradição com 18 integrantes que atravessam gerações no mesmo compasso.
“É muito emocionante receber esta homenagem, porque traz à memória toda a história que foi construída ao longo desses quase 40 anos. A minha avó teve muitas netas e fez um pastoril com elas para alegrar o Natal e as pessoas carentes da comunidade. Hoje a gente mantém a tradição com bisnetas. É um trabalho de evangelização. A gente canta, sorri e canta com essa energia que é o pastoril, os pastoris”, afirma Juliana Brito de Andrade, coordenadora do pastoril homenageado e neta da Vovó Bibia.
Também desfilaram os pastoris Sereias Teimosas, Sonho de uma Adolescente, Angel de Brasília Teimosa, Brincantear, Estrela Brilhante, Estrela do Mar, Giselly Andrade, Jardim da Alegria, Lindas Ciganas, Luz do Amanhecer, Tia Nininha, Viver a Vida 3ª Idade, Vovó Alzira e Nossa Senhora do Rosário.
A trilha sonora foi das orquestras Frevo Mix, 19 de Fevereiro e Mendes e sua Orquestra. Para completar o clima de virada de ciclo, o Bloco da Saudade e o grupo Inclusão Cia de Dança também entram na roda, reforçando a ponte entre o fim das festas natalinas e o começo do calendário carnavalesco.
Antes da queima, o público foi convidado a escrever desejos em pequenos papéis. Eles são colocados na Lapinha, feita de folhagens secas e incensos, e entregues ao fogo, num gesto que carrega pedidos, promessas e expectativas para o ano que começa.
Um dos fiéis que fez questão de deixar seu pedido registrado para o ano de 2026 foi o bibliotecário Hélio Monteiro, de 53 anos. “Eu sempre prestigio todas as festividades e esses folguedos para ressaltar a importância de manter essa cultura viva. É super importante a gente ver as crianças participando para permanência dessa cultura”, registrou.
Ele ainda destacou que o maior desejo para o ano que começa é paz. “Deixei registrado meu pedido de paz e saúde para todos. A gente está em um momento tão difícil, no mundo todo, e a gente precisa de mais paz”, complementou.
A secretária de Cultura do Recife, Milu Megale, frisou o papel da gestão municipal em manter viva a festividade. “Há mais de 40 anos que a gente preza, todos os anos, todo dia 6 de janeiro, mostrar para o Recife e para o mundo a tradição do Dia de Reis, o que é a Queima da Lapinha. Eu acho que é muito importante a gente entender esse ritmo de passagem entre o ciclo natalino e o ciclo carnavalesco, já que a gente vive tanto do carnaval, para compreender essa transição, esse ritmo de passagem em que a gente queima a Lapinha e emana para o mundo as nossas caracterizações, os nossos desejos”.
Queima da Lapinha
A tradição da Queima da Lapinha está diretamente ligada à chegada do cristianismo ao Brasil. A prática foi trazida pelos jesuítas a partir do século XIX, como parte das ações de catequese e difusão das celebrações religiosas entre a população. A “lapinha” é o presépio popular, representação da manjedoura onde, segundo a tradição cristã, nasceu o Menino Jesus.
Durante o ciclo natalino, que vai do dia 24 de dezembro até 6 de janeiro, Dia de Reis, a lapinha permanece montada nas casas, igrejas e espaços públicos. Ela simboliza não apenas o nascimento de Jesus, mas também a visita dos Três Reis Magos, encerrando esse período festivo. A queima acontece no Dia de Reis, marcando o fim desse ciclo e a passagem para um novo tempo.
Com o passar dos anos, a prática religiosa ganhou novos sentidos e foi incorporada às manifestações da cultura popular nordestina, especialmente em Pernambuco. A lapinha, feita de palha, folhas secas, galhos e incensos, passou a ser queimada em rituais coletivos, acompanhados de música, dança e cortejos, como acontece hoje com os pastoris e orquestras.
O fogo, nesse contexto, assume um papel simbólico. Ele representa purificação, renovação e despedida. Em muitos lugares, como no Recife, é comum que as pessoas escrevam seus pedidos em pequenos papéis e os coloquem na lapinha antes da queima.