"Tenho esperança de voltar", diz mulher que viveu 50 anos em terreno de prédio que será demolido no Recife
Andréa Góes teve que deixar a casa onde morava, no mesmo terreno do Edifício 13 de Maio, após uma decisão da Justiça
Publicado: 05/01/2026 às 21:17
Casa no terreno do Edifício 13 de Maio (Foto: Arquivo pessoal)
Depois de morar por cerca de 50 anos na casa ao lado do Edifício 13 de Maio, no Centro do Recife, que será submetido ao processo de demolição na terça-feira (6), Andréa Góes, de 58 anos, diz estar “triste” devido à situação em que se encontra, mas feliz pelos comerciantes e moradores da localidade que estarão mais seguros após a intervenção.
Dona de casa e cuidadora do irmão idoso diagnosticado com diabetes e crises de convulsão, Andréa hoje vive no Ibura, na Zona Sul, e com um auxílio moradia pago pela gestão municipal no valor de R$ 300. Ela precisou deixar a casa ao lado do edifício no final de 2024 e mantém a esperança de poder voltar a morar no imóvel onde viveu boa parte da vida.
“Eu sinto tristeza, muita tristeza. Minha vida toda foi ali. Minha mãe cuidava da casa, ajeitava tudo. Foram muitos anos. Ela começou a fazer aquela casa em 1976”, conta Andréa.
A casa onde a família morava foi construída na década de 1960 com autorização de um engenheiro, segundo Andréa. Apesar de sentir saudade da antiga residência, ela relembra que viveu momentos de tensão antes de sair dela onde vivia, uma vez que o prédio costumava ser alvo de ações criminosas, como invasões. Para Andréa, as complicações tiveram início em 2019, quando a prefeitura recebeu autorização para demolir o edifício.
“Desde 2018, quando minha mãe morreu, eu nunca mais tive paz. Era bandido entrando toda hora, não me deixavam dormir. Eu fazia boletim de ocorrência e nada. A prefeitura só mandava sair”, relata.
Andréa ainda diz estar preocupada sobre a atual situação do imóvel, pois sem os cuidados dela, a casa também se tornou alvo de saqueadores. “Eu fui lá há pouco tempo, quando os vigias saíram. As plantas estavam todas derrubadas, tudo sujo. A porta estava fechada, mas a casa abandonada. Disseram que iam proteger, mas no fim das contas a casa foi saqueada. O prédio também”, afirma.
Ela acredita que a situação piorou desde que deixou a residência. “Agora, com o prédio vazio, é pior. Minha casa já foi invadida duas vezes. Entra gente estranha, arrombaram tudo. A primeira vez foi em 2019: levaram porta, janela, instalação elétrica, hidráulica, tudo. Eu consertei tudo de novo. Agora aconteceu de novo”, complementa.
O Edifício 13 de Maio acumula diversos problemas estruturais e, em setembro de 2025, parte da parede do edifício desabou sobre o telhado de um imóvel vizinho e atingiu dois carros que estavam estacionados.
Andréa acredita que pode voltar a viver na casa depois da demolição do edifício. “Tenho esperança de voltar. Nada é impossível. Mas também tem a questão da segurança. Como é que eu vou voltar se a casa foi destruída, saqueada? Eu vou voltar pra uma casa toda caindo aos pedaços?”, pontua.
Edifício 13 de Maio
Localizado na Rua da União, no bairro Boa Vista, o Edifício 13 de Maio será demolido para evitar futuros danos aos comerciantes e transeuntes. O serviço começa a ser executado na terça-feira (6) pela Secretaria de Ordem Pública e Segurança (Seops).
O prédio foi abandonado antes mesmo de ser concluído, na década de 1950, e encontra-se com 11 pavimentos, uma estrutura precária e apresentando risco de desabamento. O prédio foi levantado pela Imobiliária União e está cercado de imóveis residenciais, comércios, do Colégio Ginásio Pernambucano, do Parque 13 de Maio e de edificações da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).
Em dezembro de 2025, a Nova Terra Serviços de Engenharia foi anunciada como a empresa responsável pela demolição do prédio.