Marvel’s Wolverine - Análise
Game traz protagonista que brilha, mas história que não o acompanha.
Publicado: 10/09/2026 às 12:00
Screenshot de 'Marvel's Wolverine' (Divulgação/Sony )
A grande onda dos super-heróis da Marvel nos cinemas parece ter acalmado, tendo seu auge em ‘Vingadores: Ultimato’ (2019) e, desde então, tendo emplacado poucos grandes sucessos como os vistos nos anos 2010. Se nas telonas o fogo se espalhou e queimou alto e rápido, a relação dos heróis nos videogames se tornou cada vez mais constante, especialmente após o sucesso de ‘Marvel’s Spider-Man’ (2018).
O game fez um grande sucesso ainda no PlayStation 4, o que levou a Sony a adquirir a californiana Insomniac Games um ano após o lançamento do jogo, em 2019, mesmo apesar de as duas empresas já serem parceiras desde o começo dos anos 2000. ‘Spider-Man’ foi o início de um acordo entre Sony-Marvel-Insomniac e também o responsável por fazê-lo se estender para além de um herói só.
Sendo assim, após o lançamento de ‘Marvel's Spider-Man: Miles Morales’ (2020) foi logo anunciado ‘Marvel's Wolverine’, cujo protagonista seria um dos heróis mais amados do cinema, em uma proposta diferente dos games do Homem-Aranha. O game, exclusivo de PlayStation 5, teve então seu lançamento confirmado para 15 de setembro de 2026.
Após ser encontrado em um estado quase selvagem e sem memórias, James ‘Logan’ Howlett é convidado pelo cientista Nathaniel Essex para a Equipe X, um time de mutantes destinados a combater um grupo que caça seres humanos que manifestam seus genes x, que lhes dão habilidades ou características extraordinárias. Após deixar o grupo bruscamente, Logan se vê obrigado a juntar-se novamente à equipe ao se deparar com um objetivo em comum enquanto tenta descobrir seu passado e enfrentar seus demônios interiores.

MARVEL’S WOLVERINE
O Wolverine nunca foi um dos meus heróis favoritos, mesmo com as constantes (e marcantes) aparições nos cinemas encarnadas por Hugh Jackman, que se tornou quase seu rosto definitivo. Mesmo assim, esse é um dos heróis que mais me despertavam a vontade de vê-lo adaptado nos videogames, onde podemos controlá-lo e usar suas garras para despedaçar inimigos. As razões disso são bem claras: o potencial de violência corpo a corpo que o herói oferece e uma história pessoal densa, com diferentes possibilidades de caminhos a seguir. Por isso, em um título do herói, gameplay e história acabam pesando mais do que o normal, exatamente por serem os maiores pontos de expectativa.
Começando pelo segundo ponto, é seguro dizer que aqui temos um ótimo Wolverine e um ótimo Logan. O personagem, trazido à tela por Liam McIntyre (Spartacus), se apresenta como o melhor nome aqui e funciona muito bem como protagonista, cumprindo seu papel de manter a história ao seu redor. O game equilibra quase perfeitamente o lado selvagem e caçador do herói com o lado sensível e humano do James, trazendo bem o dilema dele estar disposto a cuidar dos mais necessitados sem se importar com quantas cabeças tenha que arrancar.

Os coadjuvantes são uma boa ajuda para esse novo Logan. Os outros mutantes, em sua maioria, são bons personagens e contam com ótimas interpretações — em especial Nathaniel Essex, vivido pelo sempre competente Troy Baker (The Last of Us, Death Stranding). Suas construções são interessantes em grande parte pelo trabalho dos atores e pelo background que o game oferece de suas histórias para além das conversas com o protagonista, como a volátil Mystique e a poderosa Jean, as duas que funcionam muito bem individualmente, ao lado do Essex, diferentemente do irritante Victor Creed, o Dentes-de-Sabre. Aqui, o personagem é tratado como um troglodita desmiolado que, se não fosse por uma mecânica que será trazida ao longo do texto, não serviria para muita coisa além de cutucar o Wolverine infinitas vezes.
Porém, o enredo do game limita essa construção ao tentar expandir a história demais, querendo a todo tempo preparar o jogador para algo maior. Isso escancara uma construção básica e pouco inteligente do roteiro, que se torna muitas vezes até sem graça, levando em conta a trama que o game quer trazer e até seu próprio estilo objetivamente linear.
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Em sua maioria, os diálogos são rasos e, se os personagens são bem construídos individualmente, suas interações poderiam ser bem melhores, o que atrapalha o potencial que vemos tanto de suas personalidades quanto de suas interpretações.
A eterna luta dos mutantes pela sobrevivência, nesse caso, é prejudicada por um roteiro instável que, apesar de construir bem um personagem principal, não consegue sustentar pontos-chave que realmente tragam impacto ao longo da história, esquecendo as motivações para as ações de forma rápida, o que dá um tom de “filme de ação burro” a uma narrativa onde temos cenas de ação bem feitas, mas cujo enredo não consegue empolgar.
‘Marvel’s Wolverine’ quer algo a mais em grande parte de seu tempo, mas não sabe trabalhar com tudo o que propõe, o que se torna claro quando suas subtramas encontram a visão geral da história — até porque, às vezes, uma ameaça interna é bem mais emocionante do que um vilão com potencial de destruir o mundo. Faltou um entendimento de que esse não deveria ser um jogo de uma equipe, e sim de um personagem, que é tratado como uma ferramenta em boa parte do roteiro, mas teima em ser o grande destaque, o que acaba compensando.
Por isso, como tudo o que é instável, a história pode ter seu ‘8’, mas também atinge seu ‘80’. No último ato, perto do final, o roteiro se encontra e traz um tom surpreendentemente profundo e inteligente, revertendo seu rumo e adicionando doses quase perfeitas de drama e sensibilidade, finalmente posicionando Logan ao centro da história, o que a leva ao seu ápice. É um ponto onde o enredo foca inteiramente em seu personagem principal, que sustenta o momento com brilhantismo, evidenciando o ótimo protagonista que temos aqui e fazendo jus a um dos heróis mais queridos pelo público. É uma alteração tão brusca que, de alguma forma, parece sobreposta a algo que existia antes — contudo, fico feliz que tal mudança tenha acontecido, embora seja triste ela não ter vindo mais cedo.

Quanto ao outro ponto — o combate —, aí sim, temos algo realmente sólido. A ação em ‘Wolverine’ é intensa e envolvente, fluindo de forma rápida desde o começo do jogo, mesmo com poucos golpes especiais disponíveis. Ao longo do game, temos uma boa gama de opções para evoluir e usar durante as lutas, um número bom o suficiente para manter a fluidez, mas sem deixar o jogador confuso quanto às opções.
Em termos de coreografia, a ação lembra os ‘Ghost’ (Tsushima e Yotei) da Sucker Punch, até na distribuição de inimigos no mapa e na forma como interagem com o jogador, mas, quanto ao ritmo, aqui temos algo mais instigante, que incentiva o jogador a brigar de modo selvagem.
Até partindo desse ponto, ficam em destaque os efeitos visuais nas lutas, que envolvem faíscas das garras, a destruição de roupas e da própria pele do Logan, que oferece um visual grotesco e ocasional de seu esqueleto, e, obviamente, o desmembramento dos inimigos. Talvez, por esse último ponto, ‘Wolverine’ se torne o grande ‘jogo gore’ da geração, aquele contraindicado para o público infantil, mas que, pelo seu tamanho, fique marcado pelo uso da violência. O game até traz opções de acessibilidade que limitam a dimensão do sangue e do desmembramento (e dos palavrões), mas o padrão é bem adequado ao que o game propõe, oferecendo animações ricas e criativas, sejam os inimigos humanos, híbridos ou sentinelas (espécie de robô desenvolvida para caçar mutantes). Outro ponto interessante durante o combate é a destruição dos cenários. Em um primeiro plano, potencializado nos ambientes internos, esse fator causa uma imersão interessante pela inclusão de objetos quebráveis nos ambientes, sempre bem recebidos para realçar a ação corpo a corpo.
Na visão geral, os cenários por onde o jogo se passa valorizam o modo linear com que ele funciona. Os visuais são bonitos e bem trabalhados, com um destaque muito positivo para as cenas do Japão, que expõem o cuidado e carinho dos desenvolvedores para criar um mapa que se torna quase o coração do game. Visualmente, os mapas são satisfatórios e são o ponto alto da direção de arte, já que o design de roupas e personagens não é mal feito, mas também não é algo a se destacar.

Ainda sobre os mapas, a maneira objetiva com que o game é construído é transparecida por seu level design simples e pouco ousado, que somente abre espaço para o jogador sair da história em três ocasiões. A primeira, mais simples, funciona somente para achar materiais que permitem construir novos trajes e garras que, embora sejam apenas cosméticos, adicionam detalhes interessantes para os fãs mais dedicados ou os que curtem testar visuais alternativos do herói. A segunda, mencionada no começo do texto, utiliza o faro do Wolverine para encontrar uma série de objetos que exploram sua história com Creed, em uma tentativa de valorizar a relação de ambos e tentar deixar o antagonista mais interessante, o que é o oposto do que o roteiro quer fazer.
A terceira e mais interessante, positivamente e negativamente, são as chamadas ‘Árvores do Pesadelo’, trechos em que o jogador passa por provações para se aprofundar no passado de Logan, através de pequenas histórias contadas pelo próprio protagonista, e desenvolver melhorias que ajudam na gameplay. As recompensas, os desafios e os relatos são interessantes e somam ao game, com o problema sendo os momentos em que essa mecânica é inserida. Frequentemente, essas entradas são feitas durante sequências de ação, em que o jogador está imerso no calor da cena, que é interrompida por um desafio que quebra essa sensação, algo que não faz sentido tendo em vista toda a linearidade aplicada à história. Esses momentos, embora interessantes, se tornam frustrantes por quebrar esse vínculo, algo que poderia ser muito bem aplicado em outros momentos do enredo que oferecem uma pausa ou que buscam trazer mais das questões internas do herói.
‘Marvel’s Wolverine’ se torna um jogo irregular a partir do momento em que contradições presentes nele impedem que o game alcance seu pleno potencial em diversos pontos. Com grandes destaques positivos como seu protagonista e seu combate, o título, mesmo divertindo, frustra por seu potencial desperdiçado ao mesmo tempo em que tenta instigar o jogador para um futuro onde poderemos ter, em um PlayStation, um game definitivo de um dos grupos de heróis mais interessantes da ficção, liderado por um Logan potente, mas que precisa de mais aliados.
Nota: 76
Plataforma: PS5
*Uma chave do jogo foi cedida pela PlayStation para a produção desta análise.
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