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ANÁLISE

I Hate This Place - Review

Estilo de quadrinhos, história balanceada e estética oitentista faz game ser divertido e autêntico

Antônio Gois

Publicado: 06/02/2026 às 20:39

Material promocional de 'I Hate This Place'/Divugalção/Broken Mirror Games

Material promocional de 'I Hate This Place' (Divugalção/Broken Mirror Games)

De vez em quando são lançados jogos com tantos elementos que é até difícil defini-los. São o resultado de um caldeirão de diferentes referências onde o que sai se torna original por si mesmo, como se a junção de características diversas tivesse como resultado uma obra tão original em que tudo parece perfeitamente encaixado.

Survival horror, terror cósmico, visão isométrica, estilo de quadrinhos, mecânicas de investigação e elementos de gerenciamento, tudo isso idealizado em uma estética oitentista. É o que temos em ‘I Hate This Place’, game desenvolvido pela Broken Mirror Games e Rock Square Thunder lançado no finalzinho de janeiro para PC, PS5, Nintendo Switch e Xbox Series X/S.

Após anos sem voltar à sua terra natal devido a traumas da infância, Elena é convidada por uma amiga a fazer um ritual para invocar uma criatura poderosa, uma espécie de lenda urbana do local onde morava. Na esperança de reencontrar a mãe desaparecida, a protagonista acaba voltando para casa, apenas para se ver envolta por uma trama misteriosa e assustadora, que envolve todos os moradores da região.

I HATE THIS PLACE

Screenshot de 'I Hate This Place' - Divugalção/Broken Mirror Games
Screenshot de 'I Hate This Place' (crédito: Divugalção/Broken Mirror Games)

Resultado de uma parceria entre as polonesas Broken Mirror Games - braço da Bloober Team (‘Cronos: The New Dawn’ e ‘Silent Hill 2’ remake) para cooperações - e Rock Square Thunder, desenvolvedora independente, ‘I Hate This Place’ é um game inspirado em uma série de quadrinhos de mesmo nome criada por Kyle Starks e Artyom Topilin. A obra original é fortemente inspirada nos visuais coloridos e estilizados dos anos 80 e conta histórias sobrenaturais, onde fantasmas, alienígenas e outros seres para além do conhecimento humano são retratados.

Então era de se esperar que, tendo essas histórias como principal base narrativa e estética, ‘I Hate This Place’ fosse entregar uma criatividade à altura, ainda tendo o desafio de criar mecânicas para o jogador contar a sua própria história dentro desse mundo pitoresco e explorá-lo em busca de tudo o que ele pudesse oferecer.

Assim, somos apresentados a um folclore denso, quase como uma mistura entre o horror cósmico de H.P Lovecraft e um mistério refrescante das primeiras temporadas de ‘Stranger Things’, da Netflix.

Screenshot de 'I Hate This Place' - Divugalção/Broken Mirror Games
Screenshot de 'I Hate This Place' (crédito: Divugalção/Broken Mirror Games)

Por já estarem inseridos e conviverem diariamente com todo esse ocultismo, os personagens do game debatem sem pudor algum sobre as criaturas estranhas que aparecem à noite, reconhecendo o perigo que os envolve, o que funciona muito bem para que o jogador se sinta confortável com o desconforto, proporcionando um sentimento curioso que envolve as primeiras horas de gameplay. Com o folclore enraizado na região, cabe a Elena desvendar uma segunda trama, que une o enredo por completo: uma presença militar na área, onde cientistas buscavam essa mesma criatura para realizar experimentos sinistros.

Enquanto vamos explorando a história, nos deparamos com um personagem mais interessante que o anterior, mas, à medida que avançamos, percebemos que a protagonista é a mais interessante de todas. Elena é a típica casca-grossa que não vai parar até ter seu objetivo cumprido. Desenrolar a trama e descobrir o destino de sua mãe é tão importante para ela que o jogador certamente compra sua história e torce a favor dela, o que é um ponto muito positivo no enredo aqui. Por outro lado, certos momentos de resoluções rápidas que poderiam ter feito justiça a quão interessantes são, especialmente a relação com os cultistas, deixa um gostinho de quero mais ao final da jornada.

Com o enredo montado, somos apresentados a um mundo aberto interessante e a um mapa limitado, mas bastante útil. Nele, o game consegue fazer com que o jogador se divirta e continue jogando apenas pelo prazer de explorá-lo, junto às suas histórias, segredos e itens escondidos nos mais discretos pontos. Os diversos biomas não trazem exatamente uma variedade de inimigos, mas a parte visual e a localização de locais importantes na trama já são suficientes para fazer com que eles se diferenciam de forma natural para o jogador, que pode percorrê-lo tanto à pé, quanto pelos pontos de viagem rápida.

Screenshot de 'I Hate This Place' - Divugalção/Broken Mirror Games
Screenshot de 'I Hate This Place' (crédito: Divugalção/Broken Mirror Games)

Falando no aspecto visual, ‘I Hate This Place’ consegue se fazer indistinguível de qualquer outro game de gênero similar. O uso da câmera isométrica faz muito bem o papel de enaltecer a direção de arte dos ambientes, mas sem deixar de lado o fator surpresa e a tensão causada pelos inimigos - o que não quer dizer que o game não devesse ter uma opção para customizar o FOV, especialmente em certas alturas de exploração. O estilo cartunesco e oitentista conversa perfeitamente com os traços humorados do game que, como um bom filme da época, equilibra bem os exageros estéticos tradicionais com os momentos mais sombrios que denotam mais tensão.

O game nunca deixa de lado as cores que propõe desde o material promocional, sabendo muito bem as utilizar como uma forma de contar histórias e passar sentimentos. O grande destaque aqui é a entrada visual de onomatopéias a todo momento, reforçando o estilo que faz esse game ser tão original. A cada passo, ‘thuds’ aparecem na tela e, a cada tiro, ‘blams’, surgem junto ao estouro. Isso dá uma maravilhosa composição visual às cenas e enriquece a gameplay mais do que parece, já que se torna mais do que meramente ilustrativa em alguns momentos. Nos ambientes que guardam maior tensão e lutas mais desafiadoras, os tons mais fortes fazem questão de mostrar o quão urgente é derrotar aqueles inimigos. Por isso, a forte presença de um vermelho fechado e de um verde neon, por exemplo, transmite exatamente a sensação que o jogador deve experienciar - realmente, quase como em uma história em quadrinhos. Por outro lado, o amarelo pastel dos campos, junto à iluminação natural, oferece um sentimento de conforto, mas que nunca deixa a exploração pacífica por completo.

E muito desse desconforto passa pelos efeitos sonoros que o game apresenta ao jogador. Eles são responsáveis por boa parte dos jumpscares que temos aqui, além de momentos ocasionais entre as explorações em que você se sente acuado, já que a todo momento algo desconhecido e perigoso parece estar à espreita. Ao ar livre, esse sentimento é quase onipresente, mas nos ambientes internos, o ecoar dos passos nos metais das câmaras frias é tão sinistro quanto.

Screenshot de 'I Hate This Place' - Divugalção/Broken Mirror Games
Screenshot de 'I Hate This Place' (crédito: Divugalção/Broken Mirror Games)

Isso nos leva ao combate, que traz mais liberdade do que o esperado para um game desse porte, mesmo trazendo pouca variedade de inimigos. Fazendo novamente um bom uso da câmera por cima, a variedade dos modos que temos para nos defender é um ponto surpreendente em ‘I Hate This Place’. A pouca opção de armas brancas é muito compensada pela gama de armas de fogo e arremessáveis que Elena tem à sua disposição: shotguns, pistolas, automáticas, semi-automáticas, tasers e algumas outras armas estão presentes aqui, e cabe ao jogador decidir qual, onde e quando usar, já que o combate do jogo dá liberdade para tal. Mas não é só apontar e atirar - mecânica muito satisfatória quando se joga no controle, aliás - certos inimigos requerem tratamentos diferentes, então o game passa longe de ser apenas um shooter de deixar a estratégia de lado. De granadas elétricas até molotovs, os arremessáveis são de grande ajuda aqui, já que em boa parte da gameplay a munição não é exatamente escassa, mas é recomendável usá-la com inteligência.

Como já falado antes, a exploração é essencial para prosseguir no game, não só pela obtenção de itens de construção - que são até exagerados e fáceis aqui -, mas também por uma mecânica bem interessante aqui presente: a de criação e gerenciamento. Em certo ponto no começo do jogo, somos apresentados a nossa base: uma fazenda onde podemos criar construções para obtenção de itens essenciais e mantimentos - já que uma das principais features é a de saciedade, então ficar sem comida é quase selar seu destino para a morte. Neste local podemos construir poços, hortas e até objetos de decoração, o que novamente fica a cargo dos jogadores, que podem ser tanto mais organizados, quanto apenas utilitários. Essa administração de recursos nos faz precisar escolher bem o que levamos ou não nas explorações, além de sempre estar à procura de projetos para melhorar nossos equipamentos e até prosseguirmos em certas partes do jogo.

Pode parecer muito, mas ‘I Hate This Place’ consegue equilibrar bem quanto às suas mecânicas, já que há sempre mais a fazer. Sua história é sólida e entretém satisfatoriamente, assim como seu combate, que é parte essencial da ação estilizada, dando um ar autêntico e original ao game, somado ao carinho visual trazido por seus desenvolvedores. Mais uma vez, o resultado de uma adaptação deixa ainda mais claro a capacidade que jogos têm de não ter limites, podendo ser o expoente de muitas artes em uma só.

*Uma chave do jogo foi disponibilizada para a criação desta análise.

Nota: 78

Plataforma: PC

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