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Política
ANÁLISE

Pesquisa da UFPE não identifica indícios de fraude em votação que reelegeu Lula presidente

Estudo analisou boletins de urna de todo o país e não encontrou padrões estatísticos associados a fraudes eleitorais em outros países

Diario de Pernambuco

Publicado: 06/11/2026 às 18:06

Para investigar a consistência dos resultados, os pesquisadores examinaram os boletins de urna de todas as seções eleitorais do país, utilizando um método estatístico desenvolvido em 2016/Ricardo Stuckert

Para investigar a consistência dos resultados, os pesquisadores examinaram os boletins de urna de todas as seções eleitorais do país, utilizando um método estatístico desenvolvido em 2016 (Ricardo Stuckert)

Uma pesquisa desenvolvida por professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) não identificou anomalias estatísticas nos resultados da eleição presidencial de 2026, que terminou com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Divulgado nesta sexta-feira (6), o estudo analisou dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e não encontrou padrões de votação associados a práticas de manipulação de resultados já identificadas em processos eleitorais de outros países.

A análise foi conduzida pelos professores Dalson Britto Figueiredo Filho e Ernani Rodrigues de Carvalho Neto, do Departamento de Ciência Política da UFPE. Intitulado "Electoral Fraud and the Brazilian Missing Peaks", o artigo foi publicado originalmente em inglês pelo King's College London e republicado em português pelo DesvenDados.

O levantamento ocorre após uma disputa presidencial acirrada, definida no segundo turno de 25 de outubro. Lula conquistou a reeleição com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário Flávio Bolsonaro (PL), que havia terminado o primeiro turno à frente do petista, com 47,03%.

Para investigar a consistência dos resultados, os pesquisadores examinaram os boletins de urna de todas as seções eleitorais do país, utilizando um método estatístico desenvolvido em 2016 e anteriormente empregado na identificação de indícios de fraudes em eleições na Rússia.

Como funciona a análise

O método parte de uma característica do comportamento humano: a tendência de utilizar números redondos na fabricação de informações. Em processos eleitorais manipulados, essa preferência pode provocar uma concentração anormal de resultados em percentuais inteiros, como 50%, 60% ou 70% dos votos.

A partir dessa lógica, os pesquisadores verificaram se havia uma quantidade de seções eleitorais com percentuais inteiros superior àquela que seria esperada pelo acaso. O procedimento foi aplicado aos resultados das eleições presidenciais brasileiras de 2018, 2022 e 2026, considerando os dois turnos de cada disputa.

Os resultados não apontaram desvios estatísticos significativos. No primeiro turno de 2026, por exemplo, foram identificadas 171 seções com percentuais inteiros acima do esperado, número que permaneceu dentro da faixa considerada compatível com flutuações aleatórias, cujo limite superior chegou a 795.

Ao reunir os seis turnos analisados, o estudo contabilizou 535.137 seções com resultados em percentuais inteiros, diante de uma expectativa estatística de 534.817. A diferença, de 320 seções, também ficou dentro dos parâmetros esperados.

Os autores realizaram ainda testes com diferentes formas de calcular os percentuais de votação, incluindo a utilização do total de votos depositados nas urnas, em vez de apenas os votos válidos. Nenhuma das variações apresentou resultados fora da faixa estatisticamente esperada.

Comparação com eleições russas

O estudo também estabelece uma comparação com a Rússia, onde o mesmo método identificou concentrações expressivas de percentuais inteiros em diferentes eleições.

Segundo os dados apresentados pelos pesquisadores, as anomalias russas chegaram a aproximadamente duas mil seções eleitorais em 2008 e 2018, alcançando 3.670 em 2020. Esses resultados ficaram muito acima do que seria esperado pelo acaso, diferentemente do cenário observado nas eleições brasileiras.

Apesar dos resultados, os professores ressaltam que a ausência dessas anomalias não permite descartar todas as possibilidades de fraude eleitoral. O método é capaz de identificar um padrão específico de manipulação, mas não necessariamente outras formas de interferência nos resultados.

"Passar no teste é, portanto, compatível com uma eleição limpa, mas também com uma eleição fraudulenta na qual a manipulação nunca envolveu números redondos", destacam os autores.

Na conclusão, os pesquisadores reforçam que não encontraram, nas eleições brasileiras, o tipo de evidência estatística identificado nas disputas russas.

"Se a apuração de 2026 tivesse sido manipulada da maneira como as apurações russas foram, a evidência apareceria em um gráfico simples o suficiente para ser impresso em uma única página. Procuramos por essa evidência em seis turnos eleitorais e não a encontramos", afirmam.

Novas investigações

O artigo é o primeiro de uma série de pesquisas que pretende avaliar a integridade, a consistência e a confiabilidade dos dados das eleições presidenciais brasileiras de 2026.

A iniciativa integra o "The Transparent Ballot Box Project" (Projeto Urna Transparente), desenvolvido pela Transparência Eleitoral, e prevê a utilização de diferentes métodos de perícia estatística para examinar os resultados eleitorais.

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