Vorcaro mandou Sicário rastrear e "moer" diretor do Banco Central
Ordens de Vorcaro foram dadas a Sicário dias antes de o BC vetar a venda do Master ao BRB. Gomes defendia a intervenção no Master por por fraude
Publicado: 20/10/2026 às 12:34
Vorcaro pediu o ataque ao então diretor do BC, Renato gomes, usando o site DCM (Reprodução / LinkedIn)
Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) mostram que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, pediu a um aliado que organizasse um "ataque de mídia" contra Renato Gomes, então diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central (BC). Gomes era o principal defensor da liquidação do Master e do veto à venda da instituição ao BRB, o banco estatal do Distrito Federal.
Trechos das conversas também sugerem que Vorcaro pode ter grampeado o celular do diretor para rastrear sua localização. O destinatário das ordens era Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, apontado pela PF como coordenador da "Turma", grupo que monitorava e intimidava desafetos de Vorcaro, inclusive com ameaças pessoais. Ele tirou a própria vida em 6 de março deste ano, dois dias depois de ser preso, na cela da Superintendência da PF em Belo Horizonte.
Em 31 de agosto de 2025, Vorcaro pediu o ataque usando o site Diário do Centro do Mundo (DCM), portal de notícias para o qual ele articulou pagamentos como parte da estratégia de se blindar de publicações negativas.
"Me passa tudo como quer, que já deixo preparado e pronto", respondeu Mourão. Vorcaro completou: "É para moer ele a partir de amanhã durante uma semana". Três dias depois, o BC anunciou o veto à venda do Master ao BRB.
Em 7 de agosto de 2025, Vorcaro já havia pedido a Mourão que "levantasse tudo" sobre Gomes. Em uma hora, veio um dossiê com a conclusão de que o diretor era "muito limpo". "Não tem nenhum veículo registrado no nome dele, emprego só no Banco Central mesmo. Nenhum processo criminal contra ele, nada", escreveu Mourão.
Vorcaro insistiu: "Precisava endereço Brasília. E dados mais atualizados". Mourão disse que Gomes não parecia ter residência fixa na capital, ofereceu "fazer uma visita no Rio" e afirmou que poderia obter o histórico de pedidos do diretor no aplicativo de entregas iFood para listar os endereços. Vorcaro não respondeu.
Na manhã de 3 de setembro de 2025, dia em que o veto seria divulgado à noite, Vorcaro perguntou a Mourão se ele conseguia checar no celular de Gomes onde o diretor estava, "Rio ou Bsb". "Vou pedir isto aqui para a turma. Agora", respondeu o aliado. Não há registro de resposta no celular de Vorcaro. A agenda pública de Gomes no site do BC indica que, naquele dia, ele despachou internamente no Rio de Janeiro.
Posicionamento do diretor
Pelo menos desde julho de 2025, Gomes defendia que o BC interviesse no Master, por problemas de liquidez e por fraudes na venda de carteiras de crédito do Master ao BRB. Entre 2024 e 2025, o Master repassou ao banco de Brasília carteiras de crédito consignado avaliadas em R$ 12 bilhões. Ao auditar a compra, técnicos do BC descobriram que os contratos que lastreavam os créditos eram falsos e comunicaram a PF e o Ministério Público Federal.
A posição de Gomes dividiu a diretoria do BC e o colocou em choque com Aílton Aquino, diretor de Fiscalização da instituição. Uma intervenção naquele momento era vista como capaz de causar uma "hecatombe" no mundo político. Desde que o negócio foi anunciado, em março de 2025, parlamentares abortaram uma CPI sobre a venda, e políticos de vários partidos fizeram lobby pela aprovação.
Preocupações com MP e PF
As conversas de Vorcaro com o advogado Walfrido Warde, o publicitário Thiago Miranda e o ex-ministro Guido Mantega mostram preocupação com as apurações do Ministério Público e da PF. Os diálogos sugerem que ele discutiu com Warde acionar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que, segundo a apuração, chegou a procurar o presidente do BC, Gabriel Galípolo, para pressionar pela autorização do negócio.
A investigação resultou na prisão de Vorcaro e de outros seis executivos na liquidação do Master e no afastamento de Paulo Henrique Costa da presidência do BRB. Gomes dirigiu a área do BC entre 2022 e 2025 e, em outubro, assumiu a presidência da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representa instituições médias. Procurado, ele não se manifestou.
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