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Política
CASO MASTER

Bet de investigado por fraude no INSS pagou voos de Flávio Bolsonaro na Europa, aponta PF

Documentos da Polícia Federal mostram ao menos três trechos em jato executivo contratados por empresa dona da Rede Loto. Flávio e Willer Tomaz falam em "viagens de lazer entre amigos"

Nilton Vilanova

Publicado: 16/10/2026 às 11:04

Flávio confirmou publicamente apenas um encontro presencial com o banqueiro, no fim de 2025/BRUNO PERES/AGÊNCIA BRASIL

Flávio confirmou publicamente apenas um encontro presencial com o banqueiro, no fim de 2025 (BRUNO PERES/AGÊNCIA BRASIL)

Uma empresa de apostas online ligada ao advogado Willer Tomaz pagou voos de jato executivo entre Portugal e França em 2025 para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República. A informação consta na investigação da Polícia Federal (PF) revelada nesta sexta-feira (16) pela Folha de S.Paulo.

Willer Tomaz é investigado no desdobramento da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões do INSS. Segundo a reportagem, ele é suspeito de repassar dinheiro obtido no esquema.

Os voos

Ao menos três trechos foram contratados para Flávio e Willer por meio da Cathedral, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. A Cathedral é a única acionista da Rede Loto, que opera a bet BestBet.

O primeiro voo, de Lisboa a Nice, na França, foi em 11 de abril de 2025, contratado com a empresa de táxi aéreo NetJets. Em 23 de maio, o grupo seguiu de Cascais, a cerca de 30 quilômetros de Lisboa, até Nice, e de lá embarcou em outro voo para Paris. Nessa segunda viagem havia mais familiares. O mesmo relatório indica que as reservas eram de jatos Bombardier Challenger 350 e que as esposas de Flávio e de Willer estavam a bordo.

Os canhotos das passagens foram encontrados no computador de Willer e foram comprados pela Cathedral Holdings S.A., sociedade anônima aberta em Portugal em 16 de janeiro, apenas com sócios brasileiros: Willer, a esposa dele, a irmã, Jorge Barbosa Dias e um parente de Dias.

O que dizem os citados

O advogado da Rede Loto afirma que os pagamentos foram feitos por Willer e não pela empresa. Segundo a nota, os deslocamentos foram "passeios de lazer entre amigos e familiares", sem contrapartida de qualquer natureza. A defesa também repudia a tentativa de associar o nome de Willer a práticas ilícitas.

Flávio Bolsonaro diz que a relação com Willer é exclusivamente de "amizade". Para o senador, associar essa afinidade a irregularidades é "mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos".

A licença da bet

A Rede Loto foi a primeira bet autorizada a operar no país, em maio de 2023, pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), autarquia que regula apostas no estado. Dias, sócio de Willer, havia sido processado em 2022 por jogo ilegal e lavagem de dinheiro e foi absolvido em 2023. A defesa afirma que a sentença já transitou em julgado, isto é, sem possibilidades de recurso.

Os registros mostram um trâmite rápido, a Rede Loto foi registrada na Junta Comercial de São Paulo em 17 de fevereiro de 2023. Em 27 de abril, dia em que a Loterj publicou pela primeira vez o edital de licenciamento em jornal de grande circulação, a empresa entregou 132 páginas de documentos, às 9h09.

A autorização foi assinada em 25 de maio por Hazenclever Cançado, então presidente da Loterj, nomeado pelo ex-governador Cláudio Castro e supostamente indicado por Flávio. Cançado não havia se pronunciado até a publicação desta matéria.

A Loterj não exigia, à época, a identificação dos beneficiários finais, os donos reais da empresa, nos moldes da lei federal. Por isso, a documentação não citava Willer e Dias como acionistas da Cathedral. Um pedido de impugnação apresentado pela empresa Modelo Informática, concorrente no processo, nunca foi avaliado. A Loterj, por sua vez, afirma que a Rede Loto cumpriu todas as exigências do edital e que nenhum integrante apresentou impedimento.

Willer também é beneficiário final de uma empresa contratada pela Loterj, que faturou R$ 188 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026, segundo dados do órgão.

Outras apurações

A PF já havia feito buscas na casa de Willer em 4 de agosto, em nova fase da Operação Sem Desconto. Na ocasião, a defesa disse que a diligência decorria do fato de ele ser dono de uma aeronave usada pelo senador Weverton Rocha (PDT-MA) e negou que ele fosse investigado na operação. A PF apura suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o parlamentar do PDT. À época, a operação não incluía suspeitas sobre Flávio.

Em outro trecho do relatório, a PF afirma que uma conta com o nome de Flávio constava como "usuário master" no acesso bancário da Alcazar Holdings, offshore administrada por Willer. A empresa era dona de um terço de um jato do qual o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, também era sócio.

Segundo a Folha, a PF identificou ainda voos pagos pela Alcazar e pela Cathedral para Flávio e familiares em 2024 e 2025. A assessoria do senador nega ter mantido conta com Willer ou com empresas dele. Willer afirma que o vínculo com Flávio Bolsonaro é só de amizade, sem relação financeira ou societária.

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