Lula e Flávio jogam vale-tudo em eleições incertas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu adversário Flávio Bolsonaro (PL) trocam todo tipo de acusações para vencer as eleições de domingo (4)
Publicado: 02/10/2026 às 16:42
Lula e Flávio Bolsonaro (EVARISTO SA / AFP)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu adversário Flávio Bolsonaro (PL) trocam todo tipo de acusações para vencer as eleições de domingo (4), enquanto os Estados Unidos suspenderam, nesta sexta-feira (2), os seus serviços consulares em uma medida inédita tomada por motivos de segurança.
Lula, de 80 anos, enfrenta o senador conservador Flávio Bolsonaro, de 45, que busca surfar a onda conservadora regional incentivada por Donald Trump, aliado de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O mandatário dos Estados Unidos disse na quinta-feira (1) que acompanha "de perto" essas eleições.
Nesta sexta-feira (2), Washington suspendeu seus serviços consulares no Brasil devido a "preocupações com a segurança". A Austrália também fechou sua embaixada pelo mesmo motivo, mas nenhuma das delegações especificou os riscos detectados.
"É inédito, não tem menor sentido. É uma das formas que o Trump tem pra fazer a disputa da opinião pública brasileira", reagiu à imprensa o coordenador de campanha de Lula, Edinho Silva.
As pesquisas dão uma pequena vantagem a Lula e preveem um segundo turno em 25 de outubro, no qual ambos os candidatos, que não participaram de nenhum debate frente a frente, aparecem empatados.
Muitos votarão sem convicção, entre um presidente que aspira a governar pela quarta vez e um sobrenome – Bolsonaro – presente nas últimas três eleições.
Marcelo Vilanova, de 32 anos, gerente de uma peixaria em Juiz de Fora, disse que apoiará Lula por ser o mal menor.
Lucas Sales, de 38, dono de uma loja de telefonia na mesma cidade, disse que votará em Bolsonaro embora não seja a melhor opção.
Se a campanha foi marcada por escândalos de corrupção, incluindo uma investigação contra Flávio Bolsonaro, a reta final foi dominada por controvérsias surgidas nas redes sociais.
Santa polêmica
Favorito entre católicos, Lula ecoou uma informação falsa segundo a qual Flávio pretendia retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, em um suposto aceno aos evangélicos.
O voto religioso é muito cobiçado por se tratar de um dos países com mais cristãos no mundo.
Flávio Bolsonaro acusou Lula de machista por ter dito que os homens são "covardes" para fazer exame de próstata, enquanto "as mulheres aprendem a tomar toque desde quando são pequenas" no ginecologista.
A funcionária do comércio em Juiz de Fora Gisele Souza, de 45 anos, disse que o Brasil virou uma palhaçada e que desliga a televisão quando começa o horário eleitoral.
Candidatos acreditam na vitória no 1º turno
Ambos os candidatos acreditam na vitória no primeiro turno.
"As eleições serão definidas no domingo. E, se não for, paciência", disse Lula.
Flávio Bolsonaro afirmou, por sua vez, que Lula "vai ser expulso da presidência" no domingo. "O Brasil não aguenta mais".
O terceiro mandato de Lula se encerra com o desemprego em níveis mínimos, uma inflação contida, mas, ao mesmo tempo, uma economia em desaceleração e uma insegurança que alarma os brasileiros.
Na campanha, ele buscou o apoio das classes populares: aumentou o valor do Bolsa Família e proibiu as apostas online, que endivida milhões.
Também levantou a bandeira da soberania e repetiu que Trump não deve se meter nas eleições.
Até agora, o republicano não apoiou explicitamente Flávio Bolsonaro, mas apoiou seu pai durante o julgamento por tentativa de golpe de Estado após perder a reeleição para Lula em 2022. Foi condenado a mais de 27 anos de prisão.
Um apoio ativo do mandatário americano seria ruim para o senador, diz à AFP uma fonte do governo Lula, devido à impopularidade do republicano entre boa parte dos brasileiros.
Do outro lado, a avaliação é a mesma: uma fonte da campanha bolsonarista disse à AFP que palavras de Trump em favor de Bolsonaro seriam desnecessárias.
O conservador está no encalço de Lula apesar de ser investigado por possível corrupção, após ter pedido dinheiro para um filme sobre seu pai ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso por suspeitas de corrupção, fraudes e outros crimes.
O senador, que se define como mais moderado que Jair Bolsonaro, promete linha dura contra a insegurança, uma das principais preocupações sociais.
"Nas últimas quatro eleições, a direita teve 3 a 4% acima do que as pesquisas apontavam antes", lembra à AFP o senador Rogério Marinho, chefe de campanha de Bolsonaro.