Emendas de Flávio Bolsonaro pagaram empresas sob suspeita de cartel e ONG "inexistente"
Dinheiro repassado pelo senador e candidato do PL à Presidência também chegou a instituto indicado por miliciano; Flávio diz que "não escolhe as empresas contratadas"
Publicado: 01/10/2026 às 11:23
Flávio Bolsonaro teve mais de R$ 300 milhões reservados para emendas no orçamento federal desde 2020 (Beto Barata /Agência Senado)
Emendas do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, bancaram pagamentos a empresas investigadas pela Polícia Federal (PF) por suspeita de cartel, a uma organização não governamental que a Receita Federal considera "inexistente" e a um instituto indicado por um miliciano. A ONG também é alvo do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ).
Uma apuração do UOL, divulgada na manhã desta quinta-feira (1º), rastreou as empresas e instituições contratadas pelos órgãos públicos que receberam o dinheiro. As emendas são recursos do orçamento federal que deputados e senadores indicam para obras e serviços, e Flávio teve mais de R$ 300 milhões reservados para as suas emendas desde 2020. Procurado pelo portal, o senador afirmou que não indica as empresas contratadas com esse dinheiro.
ONG inexistente
Em 2024, Flávio destinou R$ 3,1 milhões à atenção básica de saúde de Mesquita, município do Rio de Janeiro governado pelo PL. Desse total, R$ 666 mil foram pagos em agosto de 2025 ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP).
Em junho deste ano, a Receita Federal enquadrou o IMP na categoria "inexistente de fato". O documento do órgão cita razões que evidenciam a associação da empresa a fraude fiscal, inclusive em lucros de terceiras empresas.
O instituto está sob análise do TCE-RJ, órgão que fiscaliza o uso do dinheiro público no estado, desde 2024. A entidade é contratada por vários municípios fluminenses para administrar a saúde pública.
Só Mesquita assinou com o IMP contratos de mais de R$ 580 milhões entre 2019 e o fim de 2024, segundo documentos consultados pelo UOL. Emendas de outros três deputados, do PL, do PSDB e do PSD, também pagaram despesas do instituto na cidade.
Apesar do volume de dinheiro, o site do IMP não tem atualizações desde 2021, os e-mails informados nos contratos não funcionam e o telefone registrado na Receita não atende ligações. O presidente da instituição, conforme a reportagem, é um idoso beneficiário de programa social que morava de favor.
Em acórdão de 2025, o TCE-RJ apontou suspeitas de irregularidades na relação de Mesquita com o IMP. Entre elas estão a falta de estudos técnicos da prefeitura antes de transferir a gestão da saúde municipal ao instituto e a suspeita de conluio na concorrência vencida pela entidade.
O acórdão registrou ainda que uma das pessoas que assinaram documentos do instituto estava morta desde 2017. O uso dos dados dessa pessoa levou a prefeitura a decretar, em abril deste ano, que o IMP não poderia fechar novos contratos com a cidade por dois anos.
No processo administrativo aberto contra o IMP, a prefeitura informou que a entidade "não apresentou defesa escrita, não constituiu advogado e não manifestou interesse na produção de provas". O UOL afirma ter tentado contato com o instituto por telefone e e-mail, sem sucesso.
Cartel dos coletes
As emendas de Flávio também foram usadas em despesas do Governo do Rio de Janeiro com empresas na mira de uma operação da PF por suspeita de fraude em licitações. Os contratos envolvem equipamentos de proteção balística para a Polícia Militar do Rio.
A Glágio do Brasil, alvo da investigação, recebeu R$ 569 mil entre maio e junho em convênios com emendas do senador. A maior parte do dinheiro veio de um convênio que também reuniu recursos dos deputados federais Daniela do Waguinho (Republicanos) e Hélio Lopes (PL). O valor é destinado a um projeto de modernização da corporação para a proteção de policiais.
A Inbra-Tecnologia, parte de um segundo grupo citado na operação, também foi beneficiada. Recebeu R$ 1,1 milhão no mesmo convênio. Uma nota de colaboração publicada pelo Ministério da Justiça identifica a emenda do senador na compra de 342 capacetes balísticos da empresa.
A Glágio e uma empresa do grupo Inbra foram alvos de busca na Operação Perfídia, em setembro de 2023. A PF apontou suspeitas de divisão de contratos públicos de proteção balística, com alternância de vitórias por tamanho dos equipamentos e por região do país. Na intervenção federal de 2018, as duas foram contratadas para fornecer coletes à Polícia Militar e à administração penitenciária do Rio, em negócios nos quais os investigadores identificaram suspeitas de conluio.
Em outra investigação da PF, sobre fraude na compra de coletes, foi encontrada uma mensagem de um representante da Glágio segundo a qual o general Walter Braga Netto "prometeu interferir" para que a aquisição fosse fechada.
O autor da mensagem é um oficial da reserva que, de acordo com a PF, foi contratado em 2019 para "fazer lobby junto ao alto escalão do Governo" e reverter a suspensão do processo de compra dos coletes. Braga Netto foi ministro de Jair Bolsonaro de 2020 a 2021 e candidato a vice em 2022. Hoje está preso, condenado por tentativa de golpe de Estado.
A investigação que envolve as empresas corre sob sigilo. Procurada, a PM do Rio e não teve resposta até a publicação. Glágio e grupo Inbra, procurados por e-mail, também não responderam. Os demais deputados que enviaram emendas aos convênios também foram consultados e não se posicionaram.
Miliciano, Vasco e amigo
Outros casos revelados recentemente levantam suspeitas sobre entidades e empresas que receberam dinheiro de emendas do senador.
Uma emenda de R$ 4 milhões, destinada em 2025 a um projeto esportivo ligado ao Vasco da Gama, entrou na mira da Controladoria-Geral da União (CGU), órgão de controle do governo federal, segundo revelou o colunista Juca Kfouri.
Do total gasto no projeto, R$ 684 mil, ou 93%, foram para um único fornecedor, uma microempresa individual registrada em uma sala comercial em Sapopemba, na periferia da Zona Leste de São Paulo. A empresa, Luiz Armando Marcondes de Oliveira ME, recebeu o valor pela compra de materiais esportivos entre março e maio deste ano.
Em outro episódio, o senador destinou R$ 200 mil ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP) para um projeto esportivo em Taquara, no Rio. Reclamações de irregularidades na destinação já haviam sido noticiadas em setembro de 2025.
Robson Calixto, o Peixe, miliciano condenado no caso da morte da vereadora Marielle Franco, tratou da liberação das emendas com uma assessora de Flávio, segundo mensagens divulgadas em reportagem.
Em Resende, também no Rio, outra emenda do senador rendeu nove pagamentos à Vale Sul, que somam R$ 6,61 milhões, para obras de revitalização do aeroporto municipal. Segundo reportagem de uma revista, máquinas da empresa foram flagradas operando dentro de uma propriedade privada de Renato Araújo, amigo do senador.
O que dizem o senador e a prefeitura
Em nota, Flávio afirmou que "nem o senador ou qualquer assessor do gabinete indica empresas para os beneficiários". Segundo ele, a atuação do gabinete "limita-se às atribuições institucionais relacionadas à indicação das emendas, de acordo com a legislação e critérios de cada ministério".
O senador disse ainda que as decisões sobre contratação cabem aos beneficiários e que "eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei".
A Prefeitura de Mesquita informou que o IMP firmou contratos com vários municípios do estado para a execução do mesmo serviço. Diante dos apontamentos sobre o instituto, abriu um processo administrativo de responsabilização. Ao final, os contratos foram rescindidos, a entidade foi condenada a pagar multa de R$ 3 milhões e declarada inidônea por dois anos. O caso também foi encaminhado ao Ministério Público.
Segundo a prefeitura, a interrupção temporária dos serviços ocorreu "exclusivamente para evitar a interrupção da assistência à população durante a transição contratual". O município afirma que as emendas de saúde com essa natureza de execução, enviadas por vários parlamentares, entre eles Lindbergh Farias, Flávio Bolsonaro, Enfermeira Rejane, Daniel Soranz, Laura Carneiro, Marcos Soares e Dimas Gadelha, foram repassadas ao Fundo Municipal de Saúde e aplicadas no custeio dos serviços.
Os dados são públicos e estão no Portal da Transparência. A escolha de quem executa o serviço cabe ao município, de acordo com as regras do governo federal, sem participação do parlamentar.
A prefeitura diz ainda que as contratações na área da saúde seguem a legislação, com análise dos órgãos jurídicos e de controle do município, e que contratos, pagamentos e demais atos administrativos estão disponíveis no Portal da Transparência.
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