Orgias, lobby no STF e Rolex de R$ 305 mil: as revelações de ex-sócio de Flávio Bolsonaro
Reportagem revela acervo de documentos guardados pelo ex-sócio de Flávio, Alexandre Santini entre 2022 e 2023, incluindo intermediação com Nunes Marques
Publicado: 29/09/2026 às 13:10
O candidato à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e sua esposa, Fernanda (Divulgação/Campanha Partido Liberal - PL)
Um conjunto de mensagens, áudios, fotografias e documentos reunidos pelo empresário Alexandre Dias Ferreira Santini, ex-sócio e amigo do senador e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), expõe episódios pouco conhecidos dos bastidores do clã Bolsonaro durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022).
O material, obtido com exclusividade pelo site PlatôBR, inclui relatos de festas privadas com garotas de programa, presentes de alto valor pagos por aliados e uma articulação que teria envolvido até mesmo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques.
As revelações emergiram de um período de crise entre Flávio e Santini, iniciada após rompimento da sociedade na chocolateria Bolsotini Chocolates e Café Ltda., franquia da Kopenhagen, investigada no esquema das “rachadinhas”. Entre 2022 e o fim de 2023, Santini usou o acervo para pressionar o senador em busca de um “acerto de contas” financeiro, chegando a mostrar parte do material à esposa de Flávio, Fernanda Bolsonaro, o que provocou uma crise familiar no casamento do parlamentar.
Festas do Grand Hyatt e mensagens sigilosas
Segundo a reportagem, Santini atuava como uma espécie de administrador informal de despesas de Flávio e organizava encontros privados com garotas de programa, bancados com recursos de origem não esclarecida. Em mensagens reproduzidas pelo PlatôBR, o ex-sócio combina com uma com uma agenciadora do Rio de Janeiro a realização de “festinhas” no Grand Hyatt, hotel cinco estrelas na Barra da Tijuca com diárias de cerca de R$ 3 mil.
“Fala bb, tudo bem? Eu estava viajando de férias e voltei hj. Vamos marcar outra festinha igual a do grand hyatt. Com os mesmos amigos meus… meu filho + João Pedro. Vc arruma as meninas?”, escreveu Santini à agenciadora, referindo-se a Flávio como “meu filho”. Em outra mensagem, ele reforça: “Precisa ser tudo sigiloso. Pois nessa época de eleição tá Fodaaaa”.
Santini guardou imagens e prints desses encontros, alguns deles realizados no início de 2022 e os mostrou a Fernanda Bolsonaro no auge da disputa financeira com o senador. O episódio teria causado uma crise no casamento, levando Flávio a enviar uma mensagem ao ex-sócio pedindo que ele se afastasse da mulher e admitindo ter cometido “muitas escolhas erradas” na vida.
Rolex de R$ 305 mil e presentes de aliados
Além das festas, o acervo de Santini inclui documentos que apontam para presentes de luxo custeados por amigos de Flávio em Brasília. Um deles é um relógio Rolex Submariner Date em ouro branco, comprado em 10 de fevereiro de 2022 por R$ 305 mil. A nota fiscal está em nome do advogado Alan Belaciano, amigo do senador que mantinha um casa apelidada de "bunker de lobby" no Lago Sul de Brasília, mas mensagens indicam que o destino do mimo era Flávio.
Belaciano também teria pagado mais de R$ 90 mil em equipamentos de academia para a casa de Flávio em Brasília, avaliada em R$ 5,9 milhões, além de custear outras despesas pessoais do senador, como reformas e mensalidades de academias de luxo. Em declarações anteriores, Flávio chegou a dizer que os equipamentos foram um “empréstimo pessoal” de um “amigo de longa data”, mas negou as acusações de Santini, classificando-as como “infundadas”.
Willer Tomaz, o advogado
Na tentativa de conter a escalada de ameaças, Flávio Bolsonaro acionou, em 2023, o escritório do advogado Willer Tomaz. Amigo de longa data do senador, Tomaz foi preso em 2017 em uma operação desdobrada da delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, e hoje é investigado no caso das fraudes no INSS.
Segundo mensagens obtidas pelo PlatôBR, foi o escritório de Tomaz que iniciou as negociações com os advogados de Santini para tentar um acordo financeiro que encerrasse a disputa. "Meus advogados foram procurados pelo escritório do Willer Tomaz, que disse agir em nome do Flávio para resolver a situação. Começaram a tratar sobre um acordo envolvendo a questão da loja, mas na hora de resolver, ele sempre posterga ou não dá uma resposta consistente", escreveu Santini a Fernanda Bolsonaro.
Tomaz é dono de um rancho nos arredores de Brasília frequentado por Flávio e outras figuras conhecidas e é um dos proprietários do jato Legacy no qual o presidenciável viajou de Fort Lauderdale (Flórida) até Brasília em janeiro de 2025. O avião, que tinha como sócio à época o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, é o mesmo que serviu ao ministro Alexandre de Moraes em agosto do ano passado.
Lobby no STF e a cartada final
O ponto mais sensível do dossiê envolve uma suposta intermediação de Flávio junto ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Kassio Nunes Marques, indicado ao cargo por Jair Bolsonaro em 2020.
No final de 2023, Santini enviou uma mensagem a Flávio Bolsonaro afirmando saber que o senador havia tratado diretamente com Kassio sobre os interesses de um “cliente” com processo em tramitação no gabinete do ministro – negócio articulado por Belaciano, o mesmo que pagou pelo Rolex presenteado a Flávio.
“Vou te passar apenas uma única informação que considero importante para vc. Vc falou diretamente com o Kassio Nunes e intermediou um cliente em um processo para tratarem disso. Vc é maluco ou inconsequente! Brasília não tem muros e seu amiguinho está sendo observado…”, escreveu Santini.
Contexto: rachadinhas e sociedade na chocolateria
A sociedade entre Flávio e Santini na chocolateria da Barra da Tijuca foi peça-chave nas investigações das “rachadinhas” no gabinete do então deputado estadual. Promotores do Rio apontaram o negócio como parte de uma estrutura destinada a lavar dinheiro descontado do salário de funcionários, mas as investigações foram arquivadas por decisão judicial.
Após o fechamento da loja, Santini alegou ter ficado no prejuízo e, em setembro de 2023, enviou uma notificaçao extrajudicial cobrando R$ 1,4 milhão a Flávio. A disputa financeira escalou para trocas de acusações e ameaças públicas, com Santini chegando a postar nas redes sociais: “Não adianta tentar escapar, tudo é questão de tempo, pois provas não faltam para seus inúmeros ‘crimes na política’ que vão te levar para a prisão”.
Até o momento, o senador Flávio Bolsonaro não se manifestou sobre a reportagem.
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