Dedo em riste, bilhete e abraços: os bastidores de sessão histórica no STF
O Correio acompanhou de dentro do plenário as discussões no STF e os momentos em que Fachin, Gilmar, Mendes, Dino, Mendonça e Fux se confrontaram
Publicado: 16/09/2026 às 08:33
Poucos momentos de descontração, sempre puxados por algum comentário de Dino, reforçaram o perceptível mal-estar entre os ministros (Rosinei Coutinho)
O julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que analisa a possibilidade de abertura de investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes foi marcado por uma sucessão de episódios nos bastidores que expuseram a tensão entre os integrantes da Corte. Além dos debates formais sobre os procedimentos relacionados ao caso Master e às trocas de mensagens atribuídas ao magistrado e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o plenário teve cochichos, conversas reservadas, troca de bilhete e saídas de ministros. A sessão terminou depois de o ministro Flávio Dino retirar o voto e pedir vista do processo que discutia a possibilidade de análise conjunta dos casos de Moraes e de André Mendonça.
Desde o início, o ambiente no plenário destoou de uma sessão ordinária. O acesso de jornalistas foi restringido, com profissionais autorizados a acompanhar presencialmente os trabalhos impedidos de utilizar celulares e notebooks. Apenas fotógrafos da própria Corte tiveram autorização para registrar a sessão. Mesmo com o reforço na segurança e as limitações impostas, havia lugares vazios no plenário. Enquanto o presidente do Supremo, Edson Fachin, fazia a leitura do relatório, os ministros trocavam impressões em voz baixa e consultavam celulares. Moraes permaneceu em silêncio durante aproximadamente duas horas antes de participar de maneira mais ativa dos debates.
Nos primeiros momentos, as conversas reservadas concentraram-se, principalmente, entre Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Toffoli ocupava a cadeira ao lado de Moraes, enquanto Gilmar estava próximo dos dois. Em diferentes momentos, os três conversaram entre si. Moraes também trocou poucas palavras com Dino. Mendonça, sentado entre Moraes e Dino, permaneceu isolado em parte da sessão. A movimentação era acompanhada por pausas para café, mais consultas a celulares e diálogos rápidos entre os magistrados, em contraste com a formalidade dos pronunciamentos captados pela transmissão da tevê.
Um dos episódios que mais chamou atenção ocorreu depois que Mendonça escreveu um bilhete e pediu que a mensagem fosse entregue a Toffoli. O ministro leu o papel ao menos duas vezes e, em seguida, guardou-o no bolso do paletó. Não fez nenhum gesto, tampouco mudou a expresão facial de seriedade e compenetração. O gesto foi durante as discussões sobre a participação dos ministros no julgamento. Toffoli havia se declarado impedido, mas anunciou que permaneceria no plenário para o caso de ser citado em algum momento e ter a oportunidade de prestar algum esclarecimnento. Nunes Marques, por sua vez, também declarou-se suspeito. Defendeu sua participação nos julgamentos da Segunda Turma da Corte e a atuação do filho Kevin — que teria recebido uma mesada de R$ 500 mil de Vorcaro —, e afirmou que, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não pretendia ver aquela sessão conectada ao pleito de outubro. Pediu autorização de Fachin para deixar o plenário e saiu rapidamente.
Fora da imagem
Os momentos de maior tensão foram entre Gilmar e Mendonça. Na primeira discussão que travaram, Gilmar apontou o dedo para o colega. Mendonça reagiu e exigiu que o ministro abaixasse a mão.
"Não está falando com qualquer um", devolveu. A reação irritada de Mendonça ecoou no plenário e foi captada pela transmissão da tevê, que manteve o enquadramento em Gilmar.
Apesar dos momentos de confronto, o comportamento dos ministros fora das manifestações formais — e que não foram captadas pela transmissão oficial de tevê — nem sempre reproduziu a tensão daquilo que era transmitido ao público. Depois de um dos embates que tiveram na sessão, Dino aproximou-se de Fachin, abraçou o presidente e conversou com ele ao pé do ouvido. Os dois deixaram o plenário juntos. Na saída, Moraes também cumprimentou Gilmar e se abraçaram antes de deixar o salão de mármore bege. O contraste entre os gestos de amizade e apreço e os embates que estavam sendo transmitidos para quem acompanhava os trabalhos de fora do plenário foi uma das marcas da sessão.
A ministra Cármen Lúcia chamou a atenção pela postura discreta que adotou. Sem fazer intervenções, acompanhou os debates atentamente. Quando lhe coube falar, defendeu que a Corte não tomasse decisões sob pressão do clamor público. A ministra estava entre os integrantes da Corte que haviam votado pela análise separada dos casos de Moraes e Mendonça.
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