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Política
ANÁLISE

Crise no STF entra na campanha e pode redefinir disputa presidencial, avalia especialista

Embate entre ministros, decisões conflitantes e investigação sobre o Banco Master fortalecem narrativas contra a Corte e pressionam Edson Fachin a restabelecer a confiança institucional

Nilton Vilanova

Publicado: 11/09/2026 às 14:04

Segundo o professor Paulo Ramirez, o principal efeito eleitoral da crise é colocar o STF no centro das narrativas de campanha/Divulgação

Segundo o professor Paulo Ramirez, o principal efeito eleitoral da crise é colocar o STF no centro das narrativas de campanha (Divulgação)

A crise no Supremo Tribunal Federal (STF), deflagrada pelas investigações ligadas ao Banco Master e ampliada pelo embate entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, já ultrapassou os limites do Judiciário e se transformou em um dos principais fatos políticos da eleição presidencial. A tensão interna na Corte, as decisões conflitantes sobre a Polícia Federal e a exposição de suspeitas envolvendo autoridades criaram um ambiente de instabilidade que pode influenciar a disputa pelo Palácio do Planalto e as eleições para o Senado.

Para o cientista político e mestre em Ciências Sociais e Sociologia pela PUC-SP, Paulo Ramirez, professor da ESPM, a crise é prejudicial à democracia porque expõe publicamente uma fratura na instituição que deveria atuar como árbitro constitucional em momentos de conflito entre os poderes.

“O cenário é de muita turbulência no STF e é péssimo para a democracia brasileira. Quando os conflitos entre ministros deixam de ser resolvidos institucionalmente e passam a ser disputados no espaço público, a Corte perde capacidade de se apresentar como instância de equilíbrio”, afirma Ramirez.

O presidente do STF, Edson Fachin, marcou para a próxima terça-feira (15), uma sessão extraordinária para que o plenário analise o relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes. A sessão deverá ser pública, com esquema reforçado de segurança, embora ministros tenham alertado para a possibilidade de pedido de vista que adie uma definição.

Nesta sexta-feira (11), André Mendonça atendeu a pedido de Fachin e retirou o sigilo de parte dos procedimentos relacionados ao caso Master. A medida amplia o acesso aos autos às vésperas da sessão extraordinária e ocorre depois de uma sequência de decisões que levou a crise ao centro da agenda política nacional.

 

Segundo o professor, o principal efeito eleitoral da crise é colocar o STF no centro das narrativas de campanha. A direita, especialmente os grupos alinhados ao bolsonarismo, tende a usar o desgaste da Corte para defender mudanças no Judiciário, restrições a decisões monocráticas e fortalecimento de mecanismos de controle político sobre ministros.

A tendência é que a disputa pelo Senado ganhe ainda mais importância. A oposição tem vinculado a eleição de senadores à possibilidade de pressionar por processos de impeachment de ministros, tema que pode mobilizar o eleitorado mais identificado com críticas a Alexandre de Moraes e ao STF. Analistas apontam que o desgaste da Corte pode reforçar o discurso sobre equilíbrio entre os poderes e fortalecer candidaturas de direita ao Senado.

Ramirez avalia que o conflito também obriga o eleitor a observar a atuação de cada grupo político diante das investigações. Para ele, a crise não pode ser tratada apenas como uma disputa pessoal entre ministros, porque envolve procedimentos da Polícia Federal, decisões judiciais, acusações de monitoramento e suspeitas relacionadas a Daniel Vorcaro.

“As tentativas de André Mendonça de interferir no processo eleitoral saíram pela culatra. A tendência é que novas informações sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro venham a público, e isso modifica a forma como o caso é percebido politicamente”, afirma o cientista político.

Investigações sobre o Dark Horse

A declaração se dá no contexto das investigações sobre o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro é investigado em inquérito autorizado por Mendonça, que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas em repasses atribuídos a Vorcaro.

A investigação ainda está em fase inicial e a condição de investigado não representa denúncia, condenação ou inelegibilidade. Flávio nega irregularidades e sustenta que as medidas têm motivação política.

Segundo o especialista, a inclusão de Flávio no inquérito cria um paradoxo na campanha do candidato do PL. "De um lado, o senador vem tentando transformar a crise no STF em ativo político, com críticas à Corte e ao ministro Alexandre de Moraes. De outro, passa a ser diretamente alcançado por uma investigação inserida no mesmo ambiente institucional que utiliza como alvo de sua campanha", explica.

Ainda conforme Ramirez, o impacto eleitoral dependerá do desdobramento das apurações e da capacidade dos candidatos de sustentar suas versões. O cientista político analisa que, para o bolsonarismo, as decisões judiciais podem alimentar uma narrativa de perseguição e mobilizar a base mais fiel. Já para os adversários, o caso oferece elementos para questionar a coerência entre o discurso anticorrupção e a necessidade de explicações sobre os repasses ligados ao Banco Master e ao filme Dark Horse.

O desafio de Edson Fachin

A crise também pode ampliar a distância entre os eleitores e o debate programático. Cientistas políticos ouvidos por veículos nacionais avaliam que o conflito tem potencial para afetar o comportamento do eleitor, mas divergem sobre quem será beneficiado. Há convergência, porém, sobre o risco de que uma campanha já marcada pela polarização se afaste ainda mais de propostas sobre emprego, renda, saúde, segurança e serviços públicos.

O desafio de Fachin será tentar reorganizar o funcionamento institucional do STF antes que a disputa interna se transforme definitivamente em peça de campanha. A sessão do dia 15 será observada não apenas pelo meio jurídico, mas por partidos, candidatos e eleitores que passaram a enxergar no Supremo um ator central da eleição de 2026.

Para Ramirez, a saída passa por restabelecer regras claras, decisões colegiadas e transparência. A Corte terá de demonstrar que investigações e decisões seguem critérios jurídicos, preservam o contraditório e não obedecem à lógica de disputas eleitorais. Sem isso, a crise poderá aprofundar a desconfiança no Judiciário e tornar a eleição um referendo permanente sobre o próprio STF.

 

 

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