Empresa da família de Silvio Costa Filho recebeu de setor portuário durante gestão no ministério
RI Consulting foi fundada por Silvio Costa, pai do ex-ministro, e teve como sócio Carlos Costa; família nega conflito de interesses
Publicado: 01/09/2026 às 16:07
Silvio Costa Filho negou qualquer interferência do Ministério dos Portos e Aeroportos em favor dos clientes da empresa da família (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
A RI Consulting Assessoria e Consultoria Empresarial e Governamental, empresa fundada pelo ex-deputado federal Silvio Costa, recebeu por serviços prestados para o setor portuário durante o período em que o filho dele, Silvio Costa Filho (Republicanos), comandava o Ministério dos Portos e Aeroportos. A informação foi publicada pelo UOL, nesta terça-feira (1º), a partir de notas fiscais emitidas pela consultoria.
Até março deste ano, a empresa também tinha como sócio Carlos Costa (Republicanos), que é filho de Silvio Costa e irmão do ex-ministro. Atualmente, Carlos é candidato a vice-governador de Pernambuco na chapa encabeçada por João Campos (PSB) e deixou a sociedade pouco antes de entrar na disputa eleitoral. Em nota, ele afirmou que a saída ocorreu após receber o convite para integrar a chapa.
A RI Consulting presta serviço de relações governamentais. Entre as empresas atendidas, está a Terminais Marítimos de Pernambuco (Temape), instalada no Porto de Suape. Segundo a reportagem, excluída uma nota cancelada, a consultoria emitiu R$ 630 mil em notas fiscais para a empresa entre fevereiro de 2025 e julho de 2026. Desse total, R$ 490 mil correspondem ao período em que Silvio Costa Filho ainda comandava o Ministério dos Portos e Aeroportos.
Entre fevereiro de 2025 e março deste ano, foram emitidas 14 notas de R$ 35 mil para a Temape. Os documentos descrevem os trabalhos como “prestação de serviços de relações governamentais”, sem detalhar as demandas acompanhadas pela consultoria.
Outra empresa identificada é a Copersucar, que atua no setor sucroalcooleiro e opera um terminal no Porto de Santos, em São Paulo. O levantamento contabilizou R$ 180 mil em notas emitidas pela RI Consulting à companhia durante a passagem de Costa Filho pelo ministério. Considerado também o período posterior à saída dele da pasta, o montante chega a R$ 330 mil entre outubro de 2025 e agosto deste ano.
Silvio Costa rebate
Em entrevista por telefone ao Diario de Pernambuco, Silvio Costa afirmou que a publicação do UOL seria uma “matéria encomendada” e atribuiu a publicação ao contexto da campanha eleitoral. O ex-deputado confirmou que sua consultoria presta serviços às empresas citadas, mas negou conflito de interesses ou tráfico de influência.
“Desde 2019, quando fundei a RI Consulting, tenho vários clientes no Brasil”, afirmou Silvio Costa, que citou a atuação da empresa em Brasília e São Paulo. Segundo ele, não haveria “nada a esconder” na prestação dos serviços.
Silvio Costa Filho também negou qualquer interferência do Ministério dos Portos e Aeroportos em favor dos clientes da empresa da família. Em nota encaminhada ao Diario, o ex-ministro afirmou que jamais recebeu pedidos da RI Consulting enquanto comandava a pasta.
“Enquanto ministro de Portos e Aeroportos do Brasil, jamais recebi qualquer pleito da empresa da RI Consulting, que é presidida pelo ex-deputado Silvio Costa. Nunca houve nenhuma atuação por parte do Ministério para beneficiar as empresas acima mencionadas. Portanto, não há nenhum conflito de interesse. Isso não passa de mais uma ação eleitoreira”, declarou.
Carlos deixou sociedade antes de entrar na campanha
Carlos Costa detinha 90% das cotas da RI Consulting e era responsável pela administração da empresa. Os outros 10% pertenciam ao pai, Silvio Costa. Em 23 de março deste ano, Carlos transferiu sua participação ao ex-deputado, que passou a concentrar a totalidade das cotas e a administração da consultoria.
Também em nota encaminhada ao Diario, Carlos afirmou que permaneceu como sócio até receber o convite para disputar a eleição ao lado de João Campos. “A RI Consulting foi fundada, em 2019, pelo ex-deputado Silvio Costa, e fui sócio da empresa até março deste ano, quando recebi o convite para disputar o cargo de vice-governador na chapa de João Campos”, declarou.
Silvio Costa também relacionou a saída do filho à entrada na disputa eleitoral. Ao Diario, disse que Carlos deixou a sociedade por uma questão “moral e legal” diante da candidatura.
Consultoria recebeu R$ 490 mil da Temape durante gestão de Costa Filho
Um dos argumentos apresentados pela família para afastar a possibilidade de conflito de interesses é que o Porto de Suape, onde a Temape está instalada, é administrado pelo Governo de Pernambuco, e não pelo governo federal.
As empresas que atuam no setor portuário, no entanto, são reguladas pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), vinculada ao Ministério dos Portos e Aeroportos. A agência reguladora possui autonomia funcional.
Silvio Costa argumentou ao Diario que o ministério não possui ingerência sobre a administração de Suape e destacou a autonomia da Antaq. O ex-deputado também negou ter atuado junto à agência em favor de clientes da consultoria.
Carlos Costa apresentou argumento semelhante. O candidato a vice-governador confirmou que a RI Consulting prestou serviços às empresas mencionadas, mas rejeitou a existência de conflito de interesses.
“Ratifico que prestamos serviços de consultoria para as empresas citadas, mas, em nenhum momento, houve conflito de interesses, até porque essas empresas atuam em portos cujas gestões são estadualizadas em Pernambuco e no Maranhão”, afirmou.
Carlos acrescentou que a RI Consulting “presta serviços de consultoria a diversas associações e federações do setor produtivo brasileiro”.
Copersucar teve agenda com Costa Filho
No caso da Copersucar, o UOL identificou ainda uma agenda realizada em 3 de março deste ano entre Silvio Costa Filho, então ministro, e Tomás Manzano, diretor-executivo da companhia. De acordo com o registro oficial, o encontro tratou de logística portuária e exportação de açúcar.
Ao Diario, Silvio Costa afirmou que o serviço prestado pela RI Consulting à Copersucar estava relacionado à reforma tributária. O ex-deputado também vinculou sua atuação para empresas do setor sucroalcooleiro à relação que mantém com o segmento desde a época em que exercia mandato parlamentar.
Silvio negou conflito de interesses na contratação e afirmou que sua atuação profissional no segmento antecede a chegada do filho ao Ministério dos Portos e Aeroportos.