Isolamento e chapa "puro-sangue": as estratégias de Flávio Bolsonaro e o poder do Congresso
Neutralidade escolhida pelos partidos até então aliados de Flávio Bolsonaro revela cálculo eleitoral, prioridade ao Legislativo e a perda de confiança na família Bolsonaro por parte da sua própria base
Publicado: 08/08/2026 às 07:00
Segundo os analistas do cenário político nacional, Flávio Bolsonaro precisa transformar um capital político essencialmente familiar em uma candidatura nacional (Foto: Vittor Sales)
Em 2022, Jair Bolsonaro chegou à disputa presidencial amparado por uma ampla aliança partidária, com PP e Republicanos entre os principais integrantes de sua coligação. Em 2026, o contraste é evidente: Flávio Bolsonaro (PL) chega ao fim das convenções sem a adesão nacional das principais siglas do Centrão e obrigado a escolher um vice dentro do próprio partido.
O nome de Alfredo Gaspar (PL-AL) foi anunciado na quarta-feira (5), último dia das convenções partidárias, depois de semanas de negociações frustradas. PP, União Brasil, Republicanos e Podemos eram os partidos mais esperados no palanque de Flávio e chegaram a ser considerados alternativas para a vice-presidência, com ênfase na candidatura de uma mulher para tentar dar consistência junto ao eleitorado feminino, um dos pontos fracos dos votos bolsonaristas.
O afastamento não se limita a essas quatro legendas. O MDB e a Federação PSDB-Cidadania também decidiram permanecer neutros na disputa nacional. A diferença é que os quatro primeiros foram efetivamente cortejados pela campanha de Flávio, enquanto os demais integram um movimento mais amplo de partidos que preferiram não comprometer suas estruturas com nenhum candidato presidencial.
O resultado é uma chapa “puro-sangue” que resolve a formalidade eleitoral, mas expõe um problema político: Flávio herdou o sobrenome, o eleitorado fiel e parte da estrutura construída pelo pai, mas não conseguiu reproduzir nada da coalizão de 2022.
A sequência de recusas foi decisiva. A Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, optou pela neutralidade. O PP chegou a ser considerado uma possibilidade concreta para a chapa, inclusive com a senadora Tereza Cristina cotada para a vice, mas a decisão nacional da legenda inviabilizou a composição.
O Republicanos, que também apoiou Jair Bolsonaro no último pleito, também decidiu não aderir ao projeto de Flávio. A consulta aos diretórios mostrou resistência à aliança nacional, apesar da proximidade de parte da legenda com o bolsonarismo e dos apelos de lideranças como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
O Podemos completou a sequência de recusas entre as legendas mais prováveis. A presidente nacional da sigla, Renata Abreu, foi sondada para a vice, mas o partido também declarou neutralidade. Com isso, Flávio perdeu não apenas uma possível companheira de chapa, mas também a oportunidade de apresentar uma composição menos identificada exclusivamente com o PL.
MDB e PSDB-Cidadania não estavam no centro das negociações pela vice, mas igualmente ficaram fora da aliança presidencial. O MDB liberou seus diretórios estaduais para apoiar os nomes que considerarem mais adequados em cada região. A Federação PSDB-Cidadania seguiu a mesma lógica. A distinção é importante, não se trata de afirmar que todos esses partidos se mobilizaram especificamente contra Flávio. O que existe é uma decisão coletiva de preservar liberdade política. Na prática, porém, esse movimento atinge o candidato do PL com mais força porque sua campanha dependia da ampliação da coalizão.
Segundo os analistas do cenário político nacional, Flávio Bolsonaro precisa transformar um capital político essencialmente familiar em uma candidatura nacional. O pai continua sendo capaz de mobilizar um eleitorado fiel, mas o filho ainda não teria demonstrado a mesma capacidade de reunir lideranças com interesses diferentes.
Parte das lideranças do centro avalia que Flávio é forte dentro do núcleo mais fiel do bolsonarismo, mas tem dificuldade para avançar sobre o eleitor moderado. Também pesa a associação com o discurso mais radical do pai, especialmente em temas institucionais, como urnas eletrônicas, Supremo Tribunal Federal e relação com adversários.
O (novo) poder do Congresso
O chamado orçamento secreto, embora tenha sido barrado em dezembro pelo STF por falta de transparência, revelou o tamanho do poder acumulado pelo Legislativo sobre a distribuição de recursos públicos. As regras mudaram, mas as emendas parlamentares continuam sendo instrumento decisivo de negociação entre parlamentares, prefeitos, governadores e o Executivo.
Para os partidos, eleger deputados e senadores passou a ser prioridade estratégica. Uma bancada numerosa significa mais influência sobre o Orçamento, sobre as comissões, sobre a pauta legislativa, sobre as escolhas das presidências da Câmara e do Senado e também amplia a capacidade de negociar cargos e políticas com qualquer governo eleito, seja Flávio, Lula ou Augusto Cury.
Em meio a crises
A campanha de Flávio Bolsonaro também foi atingida por uma sucessão de crises que dificultou a construção de uma agenda positiva. O caso “Dark Horse”, relacionado a conversas e pedidos de recursos envolvendo Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, surge como o mais delicado deles. A dificuldade de esclarecer a origem, a finalidade e o caminho dos recursos ligados ao filme sobre Jair Bolsonaro criou um problema de imagem.
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil produziu outro desgaste ao candidato do PL. A proximidade do bolsonarismo com Donald Trump fez com que Flávio fosse associado ao problema, por parte do eleitorado, e recebesse o apelido de “TariFlávio”. A campanha tenta transferir a responsabilidade para o governo Lula, mas não conseguiu impedir que a crise fosse incorporada à imagem do candidato, que vestiu o boné do Make America Great Again ("Faça a América grande novamente", slogan da campanha de Trump) após o anúncio das sobretaxas com um sorriso no rosto.
Esse cenário tempestuoso fez com que, em vez de controlar a agenda, Flávio passasse a reagir a crises. Para os partidos de Centro, esse padrão aumentou a dúvida sobre a capacidade de a candidatura manter uma narrativa estável durante uma campanha de meses e isso prejudicar suas candidaturas no Legislativo.
O vice pode piorar o quadro
Alfredo Gaspar reforça temas tradicionais do bolsonarismo, como segurança pública, combate à corrupção e oposição ao governo Lula. Ex-promotor de Justiça, ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e deputado federal pelo PL alagoano, ele também oferece à chapa uma conexão com o Nordeste, outro calcanhar de Aquiles bolsonarista. Gaspar, no entanto, não entrega o que Flávio buscou durante semanas: uma legenda de peso, tempo de propaganda, estrutura nacional ou demonstração de abertura política e articulação.
A campanha havia sinalizado a preferência por uma mulher e avaliou nomes de outras siglas, mas a escolha final por um homem do próprio PL – e que é investigado por um suposto caso de estupro de vulnerável – pode ser interpretada como consequência direta do fracasso das negociações com o Centrão, provoca uma mudança de discurso e alimenta a impressão de improviso.
O vice ainda pode se transformar em novo foco de desgaste se não conseguir ampliar a campanha para além das pautas tradicionais do bolsonarismo. Somado às dúvidas sobre o “Dark Horse”, aos efeitos do tarifaço, aos conflitos familiares e à falta de uma coligação ampla, o episódio reduz o espaço de Flávio para cometer novos erros.
O Centrão não declarou guerra a Flávio ou ao PL, essas legendas foram apenas pragmáticas e deixaram de apostar nele. Juntas, as decisões de PP, União Brasil, Republicanos, Podemos, MDB, PSDB e Cidadania mostram que Flávio perdeu a oportunidade de transformar a herança eleitoral do pai em uma coalizão nacional.
A marca Bolsonaro ainda garante votos, mas, em 2026, já não garante confiança, unidade nem poder de negociação.