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Política
Tensão Diplomática

Paraguai entrega nota de repúdio ao Brasil após fala de Lula: "Desagrado"

No documento, encaminhado a Mauro Vieira, o país vizinho afirma rejeitar as declarações do presidente brasileiro sobre a Guerra da Tríplice Aliança por considerar que elas distorcem um dos episódios mais marcantes da história paraguaia

Fernanda Strickland - Correio Braziliense

Publicado: 31/07/2026 às 15:53

"Gesto de reparação": governo de Santiago Peña voltou a solicitar ao Brasil a devolução de um canhão e de outros troféus da guerra (Fernando Frazão/Agência Brasil)

O governo do Paraguai entregou nesta sexta-feira (31) uma nota de repúdio ao embaixador do Brasil em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, em reação às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra da Tríplice Aliança. O diplomata foi convocado pelas autoridades paraguaias para receber oficialmente a manifestação de descontentamento do governo de Santiago Peña

No documento, encaminhado ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o Paraguai afirma rejeitar as declarações do presidente brasileiro por considerar que elas distorcem um dos episódios mais marcantes da história do país.

"Depois das conversas mantidas entre as Altas Partes e de uma análise medida e serena, o governo da República do Paraguai expressa formalmente seu desagrado por estas declarações. As rejeita em todos os seus termos já que apresentam de maneira distorcida fatos históricos de singular relevância para o povo paraguaio", diz a nota.

O texto acrescenta que acontecimentos históricos dessa natureza "devem ser abordados com responsabilidade e espírito de reconciliação, sobre a base do respeito recíproco e do reconhecimento da complexidade dos processos que determinaram seu desenvolvimento".

Além da manifestação diplomática, o governo paraguaio voltou a solicitar ao Brasil a devolução de um canhão e de outros troféus da guerra, bem como o envio de cópias de documentos históricos relacionados ao conflito. Segundo a nota, essas medidas representariam "um gesto de reparação com o Paraguai".

Países-irmãos

Após a reunião, o vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, afirmou que o protesto foi transmitido pelos mais altos canais diplomáticos e do Poder Executivo. Segundo ele, o embaixador brasileiro esclareceu que Lula não teve a intenção de ofender o país vizinho. Apesar da reação, Alliana ressaltou que Assunção não pretende ampliar a crise diplomática. "A distorção dos fatos históricos não contribui para consolidar o futuro comum de nossos povos", afirmou.

O vice-presidente também reforçou a importância da relação bilateral. "Paraguai e Brasil são países irmãos. Compartilhamos uma extensa história de cooperação e uma agenda comum de enorme importância para o desenvolvimento de nossos povos", disse, citando a parceria entre os dois países no Mercosul e na usina hidrelétrica de Itaipu.

Alliana acrescentou que o governo paraguaio mantém disposição para um diálogo "franco, respeitoso e construtivo" com o Brasil e defendeu que a história seja utilizada como ponto de partida para fortalecer a cooperação entre os dois países.

Convocação do embaixador

A convocação do embaixador brasileiro havia sido anunciada na quinta-feira (30) pelo chanceler paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano. Além dele, participaram da reunião o vice-chanceler Víctor Verdún e representantes da embaixada brasileira.

A tensão diplomática teve origem após uma declaração de Lula na última sexta-feira (24), durante um evento público, ao comentar o conflito do século XIX. "A gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil, invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina e aquela guerra, que parecia que era nada, durou cinco anos", afirmou o petista.

A fala provocou forte reação no Paraguai, com autoridades e setores da classe política classificando a declaração como uma interpretação equivocada da história. Estimativas paraguaias apontam que cerca de 70% da população do país morreu durante a Guerra da Tríplice Aliança.

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