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Política
Entrevista Exclusiva

Humberto: governo fez "concessões gigantescas" para manter a paz com o Congresso

Em entrevista exclusiva ao Diario, senador Humberto Costa abordou a tensão no Congresso Nacional após a indicação de Jorge Messias ao STF, eleições em Pernambuco e a prisão de Bolsonaro

Guilherme Anjos

Publicado: 29/11/2025 às 06:00

Senador Humberto Costa (PT) em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco/Foto: Marina Torres/DP Foto

Senador Humberto Costa (PT) em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco (Foto: Marina Torres/DP Foto)

Pré-candidato à reeleição no Senado Federal e aliado histórico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Humberto Costa (PT) defende que não era papel do Governo Federal negociar com o Congresso Nacional a indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele declarou que “concessões gigantescas” foram feitas às lideranças do parlamento para manter a paz.

Em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco, o senador reforçou que a prerrogativa para decidir o novo ministro é do presidente da República, e cabe ao Senado somente analisar a qualificação do nome encaminhado.

Na conversa, Costa também comentou sobre a formação de chapa com o prefeito do Recife, João Campos (PSB), nas eleições de 2026; a permanência de Geraldo Alckmin (PSB) como vice-presidente; a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e a PEC da Anistia.

Confira abaixo a entrevista do senador Humberto Costa ao Diario de Pernambuco.

A indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF) gerou insatisfações no Congresso Nacional. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), tem sido incisivo sobre sua preferência pela indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSD) e ambas as Casas vêm votando pautas-bomba. Faltou articulação do governo na hora de fazer a indicação?

Não. O que estamos vivendo nesse momento é reflexo das eleições de 2022. Tivemos que coexistir com a condição de não ter maioria no Congresso.

Diria até que o governo conseguiu muitas vitórias importantes, particularmente nas questões econômicas, algumas até que imaginávamos que teríamos mais dificuldade para aprovar. Mas não podemos esquecer uma coisa concreta, que é o fato de que nós não temos maioria.

Está se construindo uma situação que não é boa nem para o governo, nem para o Congresso. A Constituição deu ao presidente da República a prerrogativa de apresentar nomes para o STF. O Senado analisa. Ele pode falar com um ou com outro, mas a prerrogativa é dele. E o presidente escolheu alguém que, além de ser uma pessoa em quem ele confia, é totalmente preparada para o exercício dessa função.

O Congresso tem que analisar se a pessoa está qualificada para ser ministro do STF, não ficar numa disputa política. Todos temos muito respeito, apreço e afeto pelo senador Rodrigo Pacheco, mas a escolha do presidente pelos critérios que ele considera que são relevantes foi de Jorge Messias, que é preparado do ponto de vista profissional, tem uma formação jurídica muito sólida, posições progressistas.

Aprovamos André Mendonça no período de Bolsonaro. Não é porque gostávamos dele, mas porque era uma prerrogativa do presidente da república.

Há o receio de uma rejeição do nome de Messias? Se tem falado sobre fazer uma sessão relâmpago e Alcolumbre diz já ter 60 votos para vetar.

Seria a segunda vez na história da República que um um nome indicado pelo presidente para ir ao STF seria rejeitado. Acho que o Brasil já evoluiu muito para que isso não aconteça.

Há um trabalho que deve ser feito para sairmos dessa disputa política, e acho que vamos conseguir um adiamento dessa data que foi marcada (10 de dezembro), e com isso ter tempo de garantir a aprovação.

Como o governo pretende apaziguar as relações com o Congresso?

O governo tem feito isso o tempo inteiro. São gigantescas as concessões feitas a determinadas figuras que são muito fortes no Congresso Nacional. Agora, obviamente que se pode buscar o diálogo. É isso que os líderes do governo estão tentando fazer.

As pessoas também estão esperando a poeira baixar para poder, cada um, ter uma reflexão dentro da razoabilidade. O presidente Lula não é uma pessoa radical nesse trato. Ele vai continuar aberto. Mas não pode abrir mão de uma prerrogativa dele.

O senhor vai disputar a reeleição no próximo ano e tem ido bem nas pesquisas até então. A expectativa é estar na chapa do prefeito do Recife, João Campos (PSB), provável candidato ao governo estadual. No entanto, ele flerta com outros três pré-candidatos além do senhor. Há chances de o senhor não entrar nessa chapa? Ou há um lugar garantido?

O PT estabeleceu algumas prioridades. A principal delas é a eleição do presidente Lula e o nosso posicionamento em cada estado vai levar isso em consideração. Em seguida, vem a eleição para o Senado, que vai ser muito importante para a democracia. Se a extrema-direita for maioria lá, vão tentar aprovar impeachment de ministro do STF e criar uma instabilidade institucional enorme.

Então, qualquer discussão que fizermos com quem quer que seja, qualquer candidato que deseje ter o PT e o presidente Lula junto, terá que assumir esse compromisso. Lógico, ninguém vai impor nada.

Do outro lado, o PSB diz estar fechado com Lula, mas a prioridade deles é Geraldo Alckmin continuar como vice. Apesar de que o presidente esteve no congresso do PSB e reforçou essa parceria, ainda correm nos bastidores que o governo negocia a vice com outro partido, como o MDB. Existem outros nomes na disputa, ou Alckmin é a prioridade?

Será muito difícil encontrar um vice tão qualificado quanto Geraldo Alckmin. Ele é um excelente vice-presidente, solidário ao presidente o tempo inteiro, não cria qualquer tipo de dissidência. É uma pessoa extremamente preparada e experiente. Se nos fosse dada a possibilidade de escolher, eu não tenho dúvida que seria ele.

Agora, é óbvio que um político que tem a força, inclusive em São Paulo, que tem o Alckmin também pode ser cogitado para outros papéis.

Também é importante lembrar que o PSB é um partido muito importante, mas pode ser que o presidente considere a necessidade de trazer outros partidos para essa composição.

Na hipótese de Lula decidir por outro partido na vice, existe um cenário onde Alckmin não ser o vice faz João Campos não apoiar o senhor ou o contrário?

Não acredito que vai acontecer, porque isso refletiria um tipo de imaturidade que eu não vejo em ninguém. Inclusive porque se houver qualquer mudança na vice, vai ser objeto de uma discussão com todo mundo que estiver conosco, e não uma imposição.

Na Assembleia Legislativa (Alepe), os três deputados do PT são parte da bancada governista. Ao mesmo tempo, ela troca gestos com Anderson Ferreira e o PL, além de ter uma aliança com o deputado federal Eduardo da Fonte e o PP, partido aliado de Jair Bolsonaro nacionalmente. Como está a relação do PT com a governadora Raquel Lyra?

Existe uma parcela significativa do PT que defende a aliança com o prefeito do Recife, e existe uma parcela do PT – também significativa – que defende Raquel. Qualquer discussão sobre isso tem que passar pelo apoio ao presidente Lula.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi preso na última semana. Como o senhor enxerga a articulação – ou desarticulação – da extrema-direita com a queda de sua principal liderança?

O bolsonarismo, a extrema-direita e a direita estão divididos, não há unidade, independente do papel de Bolsonaro nessa disputa do ano que vem. Eles não podem deixar de ter o apoio de Bolsonaro, mas todo esse processo que aconteceu agora, ao mesmo tempo, provocou um desgaste muito grande dele.

Então, sem Bolsonaro, nenhum deles vai conseguir chegar no segundo turno para disputar conosco. E com Bolsonaro pode até chegar no segundo turno, mas o apoio dele vai provocar uma certa rejeição.

Para a esquerda, esse é o momento de dominar o discurso?

Já estamos há algum tempo fazendo um movimento importante de disputa política, inclusive nas redes sociais.

Em vários momentos conseguimos superar o engajamento que a extrema-direita sempre teve a quilômetros de distância de nós e dominar de uma forma muito clara o debate, como sobre a PEC da Blindagem, o debate sobre a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Temos sido mais criativos.

Nossa rede de colaboradores aumentou muito. Estamos fazendo um esforço para consolidar essa posição. O clima é muito favorável para Lula. Acho que ele vai chegar na eleição bem avaliado. Lógico que não é como era no passado, com 80%, mas vai dar uma competitividade importante.

Com a prisão de Bolsonaro e os entraves no Congresso com a indicação de Messias, há mais chances da PEC da Anistia ser pautada e aprovada?

A extrema-direita está tentando aproveitar o conflito temporário entre governo e Congresso para reacender esse debate. Mas está claro na sociedade que ela não aceita essa tentativa de anistiar esse pessoal ou de diminuir as penas. Se estivermos ativos enfrentando esse tema, dificilmente eles terão condição de colocar isso para votar e aprovar.

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