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SPFW começa neste domingo com sustentabilidade e ativismo em destaque

Por: AE

Publicado em: 13/10/2019 11:52

Foto: SPFW/Divulgação
Foto: SPFW/Divulgação ()
A cada edição, o São Paulo Fashion Week ganha novas marcas - e, invariavelmente, perde outras tantas. O topo da moda nacional é um espaço apertado e difícil de se sustentar, no qual estilistas ascendem, declinam, revezam-se, sem manter a regularidade nas apresentações. Nesta temporada, que começa neste domingo (13) à noite, e vai até sexta-feira, 18, serão 26 desfiles contra 35 da estação passada, a maioria deles armados no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque do Ibirapuera. Entre as ausências mais sentidas em relação à última semana estão a Piet, marca masculina voltada ao universo dos esportes, e a Flavia Aranha, que é um dos principais nomes da moda sustentável e informou que desfilará apenas uma vez ao ano.

"Em alguns momentos temos mais gente no line up, em outros temos menos. Isso varia muito de acordo com a economia do País, que sempre foi repleta de sobressaltos", diz Paulo Borges, idealizador e diretor criativo do evento. "O SPFW é um processo em construção contínua. Não estamos aqui para o curto prazo", diz ele. De fato a economia estagnada e o varejo em queda não ajudam em nada. Mas estratégias de marketing também parecem incertas em relação ao custo-benefício de um desfile, que fica entre R$ 30 mil e R$ 120 mil, mas pode ultrapassar 1 milhão, dependendo das modelos, do cenário, etc.

"Moda é comunicação e o desfile é uma boa maneira de contar a história de uma coleção. Mas não é a única", diz Adriana Bozon, diretora de criação da Ellus, que abre a semana depois de ter pulado as últimas edições. A apresentação da marca será domingo à noite, em frente ao Farol Santander, banco que patrocina o SPFW. "Decidimos voltar ao evento porque recebemos um convite irresistível para desfilar no centro histórico, e achamos que isso causaria impacto", diz ela, lembrando de antigos shows da Ellus na Estação Júlio Prestes e no Teatro Municipal.

Depois de duas temporadas apresentadas no espaço Arca, numa região degradada da Vila Leopoldina, o SPFW retorna ao Parque do Ibirapuera. Alguns desfiles, no entanto, ocorrem em outros pontos da cidade, como a Pinacoteca do Estado e a Faap.

O show da Ellus, no antigo prédio do Banespa, se apoia em uma trinca que orienta todos os movimentos da indústria da moda atualmente: sustentabilidade, diversidade e ativismo social. A cantora não binária Majur abre o desfile que investe em peças utilitárias, derivadas de uniformes e inspiradas em sportswear. Masculino e feminino se fundem nas roupas produzidas em sarja, náilon, moletom e jeans, com uma cartela sóbria pincelada de um tom aceso de laranja. Em novembro, a marca anuncia uma parceria com o Guaraná Antártica para criar quatro coleções com renda que vai reverter para comunidades amazônicas que cultivam plantações de guaraná.

Sustentabilidade
Temas ligados a formas de produção sustentáveis, à inovação e à tecnologia na moda serão abordados em palestras do projeto Estufa, que acontecem paralelamente aos desfiles. Um dos destaques da programação é a estilista britânica Bethany Williams, vencedora do Prêmio Queen Elizabeth II e finalista do Prêmio LVMH 2019. Suas peças são 100% sustentáveis. "A moda vai da agricultura à comunicação causando um enorme impacto, produzindo 80 bilhões de novas peças de roupa por ano e empregando uma em cada seis pessoas no planeta", diz ela. "Acredito que a moda pode fazer uma mudança real no mundo através do upcycling, do reúso e de pensar na cadeia de produção como um processo circular. E cabe aos designers criar de fato produtos que tenham essa característica circular."

O ativismo social é o pilar fundamental de outras duas estreias festejadas do evento: a estilista cabo-verdiana Ângela Brito e o estilista Isaac Silva, ambos interpretando raízes africanas, porém de maneiras muito distintas. Radicada no Rio, Ângela desenvolve roupas com modelagens minimalistas e sofisticadas, que em nada lembram as estampas coloridas relacionadas ao continente africano. Negando estereótipos, ela acaba fazendo da moda um meio de expressão contra a discriminação. "Não entendo a dificuldade das pessoas em assimilar texturas de cabelo, traços, tonalidades de pele e etc. Isso não deve ser encarado como motivo para méritos ou deméritos. A diversidade é algo completamente natural do planeta em que vivemos", diz ela, que também faz parte do time de novos designers do Shop2gether, com curadoria de Costanza Pascolato e de Ana Isabel de Carvalho Pinto, co-founder do e-commerce.

Já Isaac Silva desafia o preconceito racial através de criações repletas de referências que, nos últimos anos, foram apresentadas em desfiles cheios de energia na Casa dos Criadores. Para a estreia no SPFW, ele preparou a coleção "Acredite no seu Axé" inteira com looks brancos em algodão, linho, renda Richelieu e outros tecidos naturais, todos com modelagens sem definição de gênero. "Acredite no seu Axé é um movimento de amor e vibrações positivas, que reafirma nossa confiança", afirma ele. "Quando saí da faculdade, achei que teria um emprego e faria uma carreira, mas não fui absorvido pelo mercado. Não tem emprego para todo mundo. Acabei criando minha marca e hoje estou aqui, no Fashion Week. Se a gente não acreditar na gente, quem vai acreditar?" As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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