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Especialistas apontam retração de 0,5% nas projeções do PIB 2020

Publicado em: 15/03/2020 11:01

 (Equipe liderada pelo ministro Paulo Guedes aposta que o país poderá ter alta de 2,1%)
Equipe liderada pelo ministro Paulo Guedes aposta que o país poderá ter alta de 2,1%
Depois da semana de terror nos mercados globais e na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), as instituições financeiras e especialistas começaram a revisar para baixo o crescimento, em 2020, do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. As projeções já haviam sido rebaixadas após a divulgação do frustrante resultado de 2019, com alta de apenas 1,1%, e agora há quem aposte até numa retração de 0,5% da atividade econômica este ano. 

Na avaliação da economista Monica De Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de Washington, a crise econômica que está se desenhando nesse cenário de pandemia do coronavírus é extremamente grave e muito diferente das anteriores. Por conta disso, ela prevê retração de 0,5% no PIB do Brasil neste ano. “O país terá uma recessão contratada, que poderá ser bem pior do que a de 2008", alerta. Para Monica, a equipe econômica não está entendendo a gravidade da situação ao prever crescimento de 2,1%. “Estamos falando de uma questão de saúde pública que pode ter um impacto na economia em projeção geométrica e não linear, como muitos economistas estão estimando”, completa.

A consultoria britânica Capital Economics também alerta para os efeitos da pandemia do novo coronavírus combinada à queda nos preços de petróleo na América Latina. E, com isso, as projeções de crescimento do PIB do Brasil neste ano ficaram abaixo de 1% em função do “limitado espaço de resposta” do governo.

Em menos de uma semana, a consultoria reduziu de 1,3% para 0,5% a expectativa de expansão do PIB brasileiro, enquanto a equipe econômica liderada pelo ministro Paulo Guedes aposta que o país poderá crescer 2,1%. Em relatório, o economista da Capital Economics William Jackson destaca a falta de espaço fiscal para uma resposta política à crise, especialmente, porque as moedas latino-americanas tiveram as piores performances na semana. “As quedas acentuadas nas moedas, provavelmente, tiraram da mesa os cortes de juros que havíamos antecipado nas próximas semanas”, aponta.

Para o economista-chefe do Banco Haitong, Flavio Serrano, que revisou de 2,3% para 2% o crescimento da economia depois da divulgação do PIB de 2019, ainda não mudou formalmente sua projeção para 2020. “Mas estou vendo, claramente, que pode ser de 1% a 1,5% e não mais entre 1,5% e 2%. O Brasil está passando por um processo semelhante ao de outros países. As pessoas estão evitando sair. Isso terá impacto no comércio, mas não se sabe quanto tempo durará”, explica. 

Segundo ele, a atividade industrial, muito mais coligada com a dinâmica internacional, sofrerá e a queda dos ativos nas bolsas, antecipa esse movimento. “O setor usa peças importadas de países parados. Por isso, pode haver reflexo, mesmo em uma situação em que os serviços pesam mais no PIB. Até porque toda a economia é afetada”, diz. 

No entender de Eduardo Velho, estrategista chefe da INVX Global, as projeções serão revisadas por conta do impacto das empresas de capital aberto. “Essa previsão do governo, de 2,1%, é muito otimista. Nós trabalhamos com dois cenários. Um crescimento de 1,72%, considerando estabilidade na variação do segundo trimestre ante o primeiro. E uma expansão mais tímida, de 1,32%, que ainda seria maior do que foi em 2019”. A justificativa de Eduardo Velho é que, mesmo que as reformas passem, a recuperação não será imediata. “Nada acontece de uma hora para outra”, resume.

O próximo relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, que será publicado na semana que vem, também trará números atualizados para pior. A atual previsão de crescimento de 2,2% deve cair para menos de 2%, diz o diretor-executivo da entidade, Felipe Salto. Apesar de haver projeções mais pessimistas, como a da SBX, que prevê PIB de 0,9% em 2020, o mercado ainda trabalha com uma margem entre 1,5% e 2%, observa Salto. “Abaixo de 1%, agora, acho exagero. Talvez seja um pouco precoce”, avalia. 

Revisar para algo perto de 1% nos próximos meses, no entanto, “não é impossível”, alerta o economista da IFI, que considera o quadro geral “bastante negativo”. O tamanho da queda dependerá do desenrolar de fatores, como a pandemia de coronavírus, o preço do barril de petróleo, as crises estrangeiras e as dificuldades de se manter uma agenda econômica no Congresso. “O cenário atual não prevê PIB abaixo de 1,5%, mas pode ser que, depois, os impactos sejam maiores do que se imagina agora”, explica.

Cenário internacional
A situação é tão incerta que a 4E Consultoria revisou duas vezes a projeção nos últimos 20 dias. Nesta semana, caiu de 2,3% para 1,8%. Em fevereiro, o grupo achava que o Brasil poderia crescer 2,8% este ano. O economista Rodolfo Cabral, da 4E, explica que a surpresa negativa com o resultado do PIB de 2019, que ficou em 1,1%, teve impacto na primeira atualização dos números. O que mais influenciou nas quedas recentes, no entanto, foi o cenário internacional.

“A disseminação do coronavírus, além de manter um clima de imprevisibilidade, gera um efeito de desespero entre a população, o que também afeta a economia”, explica Cabral. Ele considera que o ritmo de andamento das reformas domésticas, como tributária e administrativa, também decepciona. Sem sinais positivos, o viés continua sendo de baixa, o que significa que as expectativas são ruins para as próximas análises. As últimas notícias, entretanto, não sustentam uma projeção abaixo de 1%, “pelo menos por agora”, na opinião de Cabral.

Empresas ameaçadas
Importantes empregadoras e, portanto, responsáveis pelo consumo das famílias, que é quem sustenta o PIB brasileiro, as pequenas e médias empresas devem sofrer mais com uma paralisação por conta da pandemia. Serrano, do Haitong, explica que os negócios menores precisam de fluxo de caixa para sobreviver e, com o consumo em suspenso, podem quebrar.

Francisco Ferreira, sócio-fundador da BizCapital, fintech que concede empréstimos para pequenas e médias empresas, alerta que o setor tem menos linhas de crédito para suprir necessidades de caixa em momentos como o atual. “É preciso planejamento porque os negócios podem ter quedas de receita, de 10%, 20%”, diz. Ele sugere procurar por canais de financiamento, como bancos e fintechs, antecipadamente. “Será pior se deixar o buraco aumentar. É preciso analisar os números, trabalhar melhor os estoques e buscar eficiência, reduzindo custos”, defende.

Segundo Ferreira, a onda do coronavírus ainda nem chegou nos negócios, mas o efeito nos mercados mostra que está a caminho. “Ainda não há pânico, a nossa inadimplência não aumentou. Mas os empresários já se perguntam sobre o que fazer”, alerta. 
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