Protestos contra o aumento do custo de vida na Itália já afetam o abastecimento de cidades
Na Itália, caminhoneiros bloquearam algumas das principais vias no sul do país — como na Sicília, Puglia e Calábria —, provocando congestionamentos e dificultando a circulação de mercadorias
Publicado: 19/10/2026 às 14:24
Protestos por melhores condições educacionais têm sido marcados pela violência, na França (KENZO TRIBOUILLARD / AFP)
Os protestos contra o aumento do custo de vida se alastraram no fim de semana pela Europa. Na Itália, caminhoneiros bloquearam algumas das principais vias no sul do país — como na Sicília, Puglia e Calábria —, provocando congestionamentos e dificultando a circulação de mercadorias. As regiões enfrentam perturbações no transporte rodoviário e no abastecimento.
Os caminhoneiros ameaçam entrar em greve nacional. Segundo apontam veículos da imprensa local e internacional, a paralisação é uma reação à escalada dos preços dos combustíveis, associada aos conflitos no Oriente Médio. Com a alta nos preços dos insumos, a pressão financeira sobre as empresas de transporte aumentou consideravelmente em meio ao agravamento do custo de vida.
Em várias regiões italianas, centenas de postos ficaram sem gasolina ou diesel, levando motoristas a formarem longas filas nos poucos estabelecimentos ainda em funcionamento.
Manifestações e confrontos
Enquanto isso, autoridades procuram conter atos de violência que eclodiram em diversas localidades do país após confrontos entre centenas de manifestantes e a polícia. As forças de segurança alegaram que precisaram recorrer a gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar os grupos, dos quais alguns integrantes atiraram pedras, atearam fogo em lixeiras e saquearam estabelecimentos comerciais.
Os distúrbios, que começaram no sábado em Milão à margem de uma manifestação pacificadora, estenderam-se a Turim e Bolonha. De acordo com relatos da mídia italiana divulgados nesta segunda-feira (19), mais de 200 pessoas foram detidas em Milão — cerca de 80% seriam menores de idade que teriam comparecido aos atos incentivados por convocações em redes sociais, onde posteriormente compartilharam vídeos dos depredações. Veículos locais informaram que não há indícios de ligação dos envolvidos com partidos ou organizações políticas formais.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, convocou uma reunião de emergência com a cúpula de segurança para esta segunda-feira. No fim de semana, Meloni condenou a onda de violência, acusando os responsáveis de se aproveitarem das mobilizações legítimas para espalhar o caos. "Manifestar-se é um direito. Devastar nossas cidades não é", declarou em publicação na rede social X.
A premiê reforçou a crítica classificando os envolvidos como "criminosos que exploram manifestações para espalhar o caos, atacar aqueles que garantem a segurança e manter cidades inteiras como reféns".
Crise dos combustíveis e risco de desabastecimento
Os impactos da alta dos combustíveis já atingem outros elos da cadeia de fornecimento. Supermercados começaram a relatar escassez de produtos, sobretudo alimentos frescos, e farmácias também registraram atrasos nas entregas.
Pasquale Russo, presidente da Conftrasporto (associação que representa as empresas italianas de transporte rodoviário), cobrou intervenção urgente do Poder Executivo:
"Caso se prolongue o bloqueio das estradas, o quadro de distribuição de bens essenciais pode se agravar. Estamos pedindo ao governo que convoque urgentemente uma reunião com as associações do setor. Caso contrário, consideraremos uma greve nacional", afirmou Russo, destacando o ambiente de forte apreensão entre as empresas.
"A situação é muito preocupante porque os aumentos excessivos de preços que afetam o transporte rodoviário criaram forte tensão na categoria, desencadeando protestos espontâneos em várias áreas do país", alertou.
Segurança pública no centro do debate político
Os episódios recolocam a segurança pública no centro do debate político italiano. Desde que assumiu o cargo, Meloni tem endossado medidas mais rígidas no setor, incluinto regras voltadas à criminalidade juvenil e a gangues urbanas. Em julho, o governo aprovou um pacote legislativo conhecido como "anti-maranza", expressão coloquial associada a grupos de jovens infratores em áreas suburbanas.
Por outro lado, a oposição acusa a gestão de priorizar a pauta da segurança como peça de propaganda política, em vez de enfrentar problemas estruturais como o acesso à habitação, a educação e as condições de vida nas periferias.