ONG Médicos Sem Fronteiras alerta para "genocídio contínuo" e destruição em Gaza
Médicos Sem Fronteiras afirma que as forças israelenses estão confinando os moradores a um espaço cada vez mais reduzido, destruindo as condições mínimas de subsistência
Publicado: 05/10/2026 às 17:33
A entidade Médicos Sem Fronteiras afirma que as forças israelenses estão confinando os moradores a um espaço cada vez mais reduzido, destruindo as condições mínimas de subsistência. (JACK GUEZ/AFP)
A ONG internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou hoje que as autoridades israelenses mantêm um "genocídio" contínuo na Faixa de Gaza há três anos, destruindo sistematicamente os meios de sobrevivência da população. "Israel está asfixiando progressivamente Gaza e continua a perpetrar um genocídio", denuncia a instituição.
A entidade afirma que as forças israelenses estão confinando os moradores a um espaço cada vez mais reduzido, destruindo as condições mínimas de subsistência. A situação se agrava, aponta a MSF, à medida que o exército de Israel amplia sua presença para além da chamada "linha amarela", anunciada pelo governo israelense dias após o acordo de cessar-fogo, em outubro de 2025.
"A ‘linha amarela’ não pode ser considerada apenas uma marcação no mapa. Ela se tornou um mecanismo de cerco e limpeza étnica, afastando as comunidades do acesso à água, às infraestruturas e aos cuidados de saúde essenciais. A ameaça é imediata para quem reside próximo a essa área, que não está sinalizada nem demarcada de forma clara", relatou Amande Bazerolle, responsável pelas respostas de emergência da MSF em Gaza.
Diante do avanço das tropas, cresce o risco de civis serem baleados e de ficarem privados da assistência médica prestada pela MSF e outras organizações, que precisaram interromper até mesmo o transporte de suprimentos básicos, como água potável.
De acordo com a ONG, o confinamento forçado faz com que milhares de famílias vivam em condições extremas de sobrepopulação, sem saneamento básico ou abrigo seguro, o que potencializou a proliferação de doenças. Apenas este ano, equipes médicas da MSF já atenderam mais de 11 mil casos de doenças de pele, como sarna, e registraram mais de 1.500 casos de varicela entre junho e julho, além de surtos de gastroenterite, infecções respiratórias agudas, hepatites e pediculose (piolho).
"A maioria das pessoas tem acesso extremamente limitado a itens básicos de higiene, como sabão e detergente. Paralelamente, enfrentamos uma grave escassez de suprimentos médicos; até mesmo o creme utilizado no tratamento da sarna teve a entrada restringida pelas autoridades israelenses", contou Murad Asaliya, responsável pelas atividades médicas em Gaza.
Além de insumos de saúde, Israel restringiu o fornecimento de peças de reposição e combustível para motores, paralisando geradores de eletricidade e afetando diretamente o funcionamento de hospitais, postos de saúde e ambulâncias.
A MSF prevê que a destruição de mais de 80% da infraestrutura de Gaza, somada ao deslocamento forçado contínuo e aos traumas físicos e psicológicos, impedirá qualquer recuperação significativa do enclave nos próximos anos.
"Serão necessárias gerações apenas para reparar os danos causados nos últimos três anos. A destruição, o deslocamento e a privação foram normalizados, práticas que Israel executa com total impunidade. Os governos precisam agir agora para garantir que Israel interrompa os ataques, impeça a limpeza étnica e pare de negar os meios de sobrevivência à população palestina", cobrou Amande Bazerolle.
O alerta da MSF ocorre às vésperas de se completarem três anos do ataque do Hamas contra Israel, que deixou mais de mil mortos e 250 reféns, e do início da subsequente ofensiva militar israelense, que desencadeou uma das piores crises humanitárias da história recente do enclave.
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