ONU alerta que Gaza vive a pior crise econômica do mundo
Antes de outubro de 2023, dois em cada três habitantes de Gaza viviam na pobreza, e, hoje, toda a população de Gaza é afetada
Publicado: 25/09/2026 às 17:11
Palestinos deslocados caminham passando por tendas e edifícios destruídos perto da orla da Cidade de Gaza (Eyad Baba / AFP)
A Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED), alertou que a Faixa de Gaza atravessa a pior crise econômica já registrada no mundo. As informações são baseadas no relatório, divulgado esta semana, nos dados do Banco Mundial e do Gabinete Central de Estatística Palestino, que foram levantados nos últimos três anos sobre o enclave.
"O colapso da economia de Gaza constitui a crise econômica mais grave registrada no mundo, aniquilando décadas de desenvolvimento", declarou Pedro Manuel Moreno, secretário-geral interino da agência.
Moreno explicou que atualmente, o PIB per capita em Gaza equivale a 58 cêntimos por pessoa e por dia, cerca de 83% abaixo do nível já muito baixo registrado em 2022, enquanto o nível dos preços é 274% superior ao de 2022, ano anterior ao ataque do Hamas contra Israel, que motivou a grande ofensiva lançada por Israel no território palestino.
Desde outubro de 2025, está em vigor um frágil cessar-fogo em Gaza. No entanto, sua economia está em ruínas. O responsável pela coordenação da assistência ao povo palestino da CNUCED, Mutasim Elagraa, explicou que, antes de outubro de 2023, dois em cada três habitantes de Gaza viviam na pobreza, e, hoje, toda a população de Gaza é afetada. A ofensiva de Israel ainda resultou no deslocamento quase da totalidade da população do território palestino, danificou ou destruiu a maioria dos edifícios e causou mais de 73 mil mortos.
"Em Gaza, o setor da habitação sofreu os danos mais graves, com prejuízos estimados em 19 bilhões de dólares até 2025. A atividade industrial e a produção agrícola registraram um recuo de 94%, com 1,5% das terras aráveis exploráveis e acessíveis até o momento, o que implica uma dependência total da ajuda alimentar humanitária", apontou.
Segundo o relatório, o conflito destruiu centenas de milhares de postos de trabalho, causando uma perda acumulada de rendimentos do trabalho estimada em 2,8 bilhões de dólares desde 2023. “Hoje mais de 90% da população de Gaza em idade ativa está desempregada", destaca a CNUCED. A agência da ONU assinala que as operações militares israelenses destruíram 92% das instalações econômicas, pelo que a estimativa do montante necessário para a recuperação e reconstrução de Gaza, atualmente na ordem dos 71,5 bilhões de dólares corre o risco de aumentar ainda mais.
O relatório detalha também o agravamento das restrições que pesam sobre a atividade econômica na Cisjordânia, onde se verifica um acesso reduzido às terras e aos recursos naturais, associado à expansão dos assentamentos, que também tem deixado um aumento substancial das deslocações forçadas. "A Cisjordânia levará vários anos e Gaza muito mais de uma década para recuperar o nível de PIB per capita que tinha antes da crise", indica o relatório.
A CNUCED considera que assim que for alcançado um cessar-fogo permanente, a comunidade internacional deverá mobilizar uma ajuda financeira e técnica de grande envergadura para inverter ativamente a dinâmica de retrocesso no desenvolvimento em curso há décadas nestes territórios.
Recursos para reconstruir Gaza
A comissária europeia para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, afirmou que apenas 1 bilhão de euros foi arrecadado dos 71 bilhões de euros que as Nações Unidas, Banco Mundial e a União Europeia estimam ser necessários para a reconstrução de Gaza. Suica defendeu, à margem da Assembleia Geral da ONU, um plano unificado de recuperação que reúna Israel, a Autoridade Palestina, o Conselho da Paz apoiado pelos EUA e o Comitê Nacional para a Administração de Gaza.
Em reunião do Conselho para Gaza em Nova York, na quarta-feira (23), o grupo propôs um plano de seis meses, de US$ 2,45 bilhões, para dar início à reconstrução e à estrutura de governança do território, enquanto o plano de cessar-fogo do presidente Donald Trump enfrenta dificuldades para se sustentar.
Enquanto isso, o Reino Unido anunciou hoje 88 milhões de libras (102,3 milhões de euros) para ajudar Gaza a recuperar serviços essenciais após a guerra, tais como, medicamentos e cuidados de saúde, água e saneamento, e destinará também parte desses fundos às necessidades humanitárias na Cisjordânia. A iniciativa foi apresentada ontem pelo ministro das Relações Exteriores britânico, Ed Miliband, durante uma reunião com a Jordânia e o Catar, à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, centrada na procura de apoio internacional para a recuperação de Gaza após quase três anos de conflito. "É vital que os civis em Gaza tenham acesso sem obstáculos à ajuda", afirmou Miliband, que instou o governo do premiê israelense Benjamin Netanyahu a pôr fim às restrições inaceitáveis impostas à Gaza.
O governo britânico declarou recentemente que, tal como a ONU alinhada à luz do direito internacional, o Reino Unido considera oficialmente ilegal a ocupação israelense dos territórios palestinos. Entre outras medidas, proibiu a importação de bens provenientes de assentamentos judeus ilegais na Cisjordânia e ordenou restrições a empresas e particulares que apoiem, facilitem ou beneficiem da expansão dos assentamentos.