° / °
Mundo
Documentário

Israel ameaça tirar nacionalidade e banir cineastas premiados no Festival de Veneza

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, da extrema-direita, ainda acrescentou que os cineastas são uma vergonha e um embaraço para todo o povo de Israel

Isabel Alavarez

Publicado: 14/09/2026 às 14:05

Os cineastas Rachel Szor e Yuval Abraham apresentaram 'Naza' no Festival de Veneza na última quinta-feira (10).
/STEFANO RELLANDINI / AFP.

Os cineastas Rachel Szor e Yuval Abraham apresentaram 'Naza' no Festival de Veneza na última quinta-feira (10). (STEFANO RELLANDINI / AFP.)

O documentário Naza, sobre a campanha militar em Gaza que já matou dezenas de milhares de civis, dos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, venceu o Prêmio Especial do Júri no 83º Festival de Cinema de Veneza no fim de semana. Mas o ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, anunciou que irá agir imediatamente para revogar a cidadania israelense da dupla de realizadores, equiparando diretamente a crítica às ações de Israel a antissemitismo.

“Como ministro da Cultura, vou agir de imediato para revogar a cidadania israelense destes criadores vis por traição ao país”, escreveu Zohar na rede social X. O ministro acusou ainda Abraham e Szor de terem um ódio autodestrutivo ardente e de estarem dispostos a prejudicar a sua pátria para receber aplausos dos antissemitas do mundo, considerando que tal constitui uma traição ao país.

"Esta é precisamente a razão pela qual liderei a importante reforma no cinema, para que os cidadãos israelenses deixem de ter de pagar do próprio bolso para o ataque aos soldados das FDI e ao Estado de Israel”, alegou Zohar.

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, da extrema-direita, ainda acrescentou que os cineastas são uma vergonha e um embaraço para todo o povo de Israel. “Vão embora! Estou certo de que os seus amigos, ou seja, os nossos inimigos do Hamas em Gaza, vão recebê-los de braços abertos”, publicou na plataforma X.

Em contrapartida, o antigo deputado Yousef Jabareen, presidente do partido de esquerda Hadash, felicitou a dupla pelo prêmio e agradeceu por denunciarem “estes crimes horríveis e a realidade brutal em Gaza”.

Além disso, o jornal israelense Haaretz também escreveu, em editorial: “Ao exibirem o seu filme no Festival de Cinema de Veneza, Abraham e Szor tentam obrigar os israelenses a confrontarem aquilo que já sabem: que há uma nódoa negra na forma como Israel conduz a guerra em Gaza, para dizer o mínimo.”

O documentário de 80 minutos, centrado num tema altamente sensível, foi filmado em segredo, à noite, nos telhados de Tel Aviv, durante o conflito na Faixa de Gaza, e inclui entrevistas com 24 oficiais da inteligência militar israelense, soldados e denunciantes.

Nessas conversas, explicam como são escolhidos os alvos palestinos – daí o título do filme, um acrônimo militar usado pelas Forças Armadas de Israel para indicar o número de civis que se espera que morra num ataque aéreo em Gaza.

Corresponde à expressão “Nezek Agavi”: dano colateral. Os relatos dos testemunhos de alguns oficiais até revelam a aplicação de um sistema que, usando algoritmos e inteligência artificial (IA), conseguia determinar onde e quantas pessoas estavam concentradas dentro de um edifício.

Naza contou com a produção do jornal britânico The Guardian e recebeu uma ovação recorde da plateia por 25 minutos na estreia em Veneza. Até então, o recorde pertencia a The voice of hind Rajab, passado em Gaza e centrado na morte de uma menina de 6 anos, atingida por disparos das tropas militares israelenses quando tentava fugir da Cidade de Gaza com a família.

Naza ainda foi a única obra documental selecionada entre os 21 títulos que disputaram o prêmio máximo desta edição no festival italiano.

Abraham e Rachel Szor dirigiram também, com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal, o documentário No Other Land (Sem Chão), premiado com o Oscar de Melhor Documentário em 2025, sobre o plano israelense de destruição e desalojamento dos habitantes palestinos de uma aldeia na Cisjordânia.

Israel negou as acusações

O Exército de Israel rejeitou categoricamente que as decisões sobre bombardeios na Faixa de Gaza sejam tomadas por IA, contrariando os testemunhos do documentário Naza. “As decisões relativas à seleção e aprovação de ataques são tomadas exclusivamente por pessoal humano, de acordo com as diretrizes das Forças de Defesa de Israel, e não por inteligência artificial", declarou.

A guerra na Faixa de Gaza foi desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas em 07 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e 251 foram feitas reféns. Em retaliação, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave palestino, que causou uma catástrofe humanitária, com mais de 73 mil mortos, milhares de feridos e doentes, fome, escassez de itens essenciais, deslocação de centenas de milhares de pessoas e destruição de quase todas as infraestruturas do território.

Desde o início do atual cessar-fogo, acordado em outubro do ano passado, as autoridades de Gaza contabilizam mais de 1.300 palestinos mortos em ataques das forças israelenses no enclave, que ainda mantêm altas restrições à entrada de jornalistas e observadores independentes no território.

Mais de Mundo

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas