Em reunião com vítimas de abusos sexuais, Papa promete mudanças na Igreja
Durante agenda em Madri, o Papa Leão 14 também abordou a defesa de migrantes e fez apelo anti-aborto legal
Publicado: 08/06/2026 às 17:17
O Papa Leão 14 está visitando a Espanha de 6 a 12 de junho (Simone Risoluti/Vatican Media/AFP)
O Papa Leão 14 prometeu mudanças na Igreja Católica para torná-la um "lugar seguro", em conversa com vítimas de abuso sexual por membros do clero com quem se reuniu por quase uma hora nesta segunda-feira (8), em Madri. O encontro com seis vítimas era muito aguardado e ocorreu, nesta tarde, na Nunciatura Apostólica da capital espanhola, no terceiro dia da visita do pontífice à Espanha.
Durante a reunião a portas fechadas, as vítimas apresentaram "algumas propostas para tornar a resposta da Igreja a esses casos dramáticos mais eficaz", afirmou o Vaticano em comunicado. Em resposta, o papa lhes ofereceu "seu compromisso de que as propostas recebidas servirão de base para novos esforços" para tornar a Igreja "um lugar seguro e espiritualmente saudável", segundo o comunicado.
Horas antes, em conversa com bispos espanhóis, Leão 14 declarou que o abuso sexual constitui "uma praga" e pediu à Igreja que responda com "escuta, verdade, justiça e reparação". O papa insistiu em pedir "um compromisso cada vez maior com a prevenção e uma cultura de cuidado" e que "toda pessoa que foi prejudicada" possa encontrar "escuta sincera, acolhimento, proteção e caminhos reais para a cura".
No entanto, o encontro com as vítimas foi cercado por controvérsias, já que várias associações de vítimas — que há anos denunciam a falta de transparência da instituição sobre esta questão — lamentaram não terem sido convidadas e reuniram-se em frente à Nunciatura Apostólica para expressar o seu descontentamento.
"Acho que o papa está saindo com uma visão muito tendenciosa", disse Juan Cuatrecasas, porta-voz da associação Infância Roubada, à AFP. "[Ele] precisa estar ciente de que está perdendo uma oportunidade de ouro para dialogar com as vítimas na Espanha."
Defesa dos migrantes
No voo para Madri, no último sábado (6), o papa, de 70 anos, afirmou que "o abuso ainda é uma ferida aberta" para a Igreja. O Defensor do Povo espanhol — equivalente ao Ministério Público e à Defensoria Pública no Brasil — estimou, em um relatório de 2023, que, desde 1940, mais de 200 mil menores de idade podem ter sofrido abusos nas mãos do clero católico.
O governo espanhol de esquerda e a Igreja assinaram um acordo em março para indenizar as vítimas de crimes sexuais, após anos de relutância e falta de transparência por parte da hierarquia eclesiástica. Outro momento de destaque do dia foi o discurso do papa no Congresso espanhol, pela manhã, no qual pediu respostas internacionais à "trágica crise migratória", tema central de sua visita à Espanha.
"Nenhuma nação pode enfrentar sozinha um desafio dessa magnitude. Portanto, é essencial uma resposta coordenada, solidária e eficaz, capaz de garantir proteção, acolhimento e oportunidades reais de integração", afirmou. O discurso de Leão 14 recebeu aplausos prolongados dos parlamentares e gritos de "Viva o papa!".
Aclamado no Bernabéu
Leão 14 fez ainda um apelo em um momento em que o governo de Pedro Sánchez, com quem teve uma reunião privada nesta segunda-feira, quer incluir o direito ao aborto — legal desde 2010 — na Constituição, após ter aprovado uma lei de eutanásia em 2021. No discurso no Congresso dos Deputados, ele afirmou que "toda vida humana deve ser reconhecida e protegida desde a concepção até o seu fim natural".
Depois de celebrar uma missa no coração de Madri, no domingo (7), diante de 1,5 milhão de fiéis, o pontífice liderou outro ato de grande porte na tarde desta segunda-feira, diante de 80 mil pessoas no estádio Santiago Bernabéu do Real Madrid, onde foram hasteadas bandeiras do Vaticano, da Espanha e de países latino-americanos como Peru e Venezuela.
Após assistir às apresentações de padres cantores e de dançarinos que simulavam uma partida de futebol, o papa disse com humor que a Igreja Católica de Madri "marcou um golaço para sempre" com o evento, o que arrancou uma ovação do estádio. Na terça-feira (9), ele viajará para Barcelona para abençoar a nova torre da Basílica da Sagrada Família, agora a igreja mais alta do mundo.
Nas Ilhas Canárias, na quinta (11) e sexta-feira (12), prestará homenagem aos milhares de migrantes que morreram tentando chegar à Europa. Ao contrário de alguns países vizinhos, o governo de Pedro Sánchez lançou recentemente um plano para regularizar até meio milhão de imigrantes, medida que recebeu fortes críticas da direita e da extrema direita do país.