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Nova vacina traz avanço contra o melanoma

Vacina personalizada contra o tipo mais agressivo e letal de câncer de pele melhora sobrevida de pacientes e reduz em até 49% o risco de retorno da doença ou de óbito, quando aliada à imunoterapia

Isabella Almeida - Correio Braziliense

Publicado: 02/06/2026 às 10:32

A nova medicação foi desenvolvida para ser aplicada pela via intramuscular e utiliza moléculas de mRNA em sua composição/crédito: Imagem de Freepik

A nova medicação foi desenvolvida para ser aplicada pela via intramuscular e utiliza moléculas de mRNA em sua composição (crédito: Imagem de Freepik)

Uma vacina personalizada contra o melanoma, desenvolvida com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), reduziu em 49% o risco de retorno da doença ou de morte quando combinada ao medicamento imunoterápico pembrolizumabe. O melanoma é o tipo mais agressivo e letal de câncer de pele. Os resultados, obtidos depois de cinco anos de acompanhamento, foram apresentados ontem, no penúltimo dia da reunião de 2026 da American Society of Clinical Oncology (Asco). O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade de Nova York (NYU) Langone Health e do Perlmutter Cancer Center, nos Estados Unidos.

A pesquisa avaliou 107 pacientes que receberam a combinação da vacina experimental chamada intismeran com o medicamento pembrolizumabe, depois da remoção cirúrgica do câncer de pele. Os resultados foram comparados aos de 50 pessoas que fizeram apenas a imunoterapia, considerada atualmente o padrão de cuidado para casos de melanoma de alto risco. Os dados fazem parte do estudo de fase 2b Keynote-942, publicado pela revista Journal of Clinical Oncology.

Ao fim de cinco anos, 68,8% dos participantes que receberam a estratégia combinada permaneciam sem sinais da doença, enquanto esse índice foi de 49,1% entre aqueles que utilizaram somente a imunoterapia. A associação dos dois tratamentos diminuiu em 59% a probabilidade de metástase, que ocorre quando células malignas se espalham para outros órgãos. A taxa de sobrevida global alcançou 92,2% no grupo da vacina personalizada, contra 71,3% para quem usou exclusivamente o pembrolizumabe.

Os participantes do Keynote-942 foram recrutados entre 2019 e 2021 em centros especializados dos Estados Unidos e da Austrália. Durante o período de acompanhamento, sete pessoas de cada grupo morreram, principalmente em decorrência da progressão da doença. Os efeitos adversos observados foram considerados controláveis e incluíram fadiga, dor no local da aplicação e episódios de calafrios.

"Nosso estudo oferece fortes evidências aos pacientes com melanoma de que a terapia com a vacina intismeran, quando usada em combinação com a imunoterapia, pode reduzir comprovadamente o risco de recorrência do câncer e melhorar os resultados clínicos", afirmou a oncologista Janice Mehnert, autora sênior da pesquisa e professora da NYU.

Treinamento
Diferentemente das vacinas tradicionais, que buscam prevenir infecções causadas por vírus ou bactérias, a intismeran foi desenvolvida com o objetivo de ajudar o organismo a reconhecer e a eliminar estruturas tumorais capazes de permanecer no corpo depois da cirurgia de remoção do tumor. A tecnologia utiliza moléculas de mRNA, material genético responsável por levar instruções às células para a produção de proteínas, no "treinamento" do sistema imunológico a identificar características exclusivas do câncer de cada paciente.

Rodrigo Guedes, médico especializado em câncer de pele da Oncologia D'Or, destaca a diferença entre os dois tratamentos. "A imunoterapia tradicional atua desbloqueando o sistema imunológico para que ele reconheça e ataque melhor a doença. A vacina personalizada fornece ao organismo informações específicas sobre aquele tumor, ensinando quais proteínas anormais devem ser identificadas e destruídas", explica.

Para desenvolver o imunizante, os cientistas norte-americanos analisaram amostras do melanoma removido cirurgicamente e identificaram 34 proteínas anormais, chamadas neoantígenos. Essas estruturas funcionam como uma espécie de "impressão digital" do câncer. A partir desse mapeamento, foi produzida uma formulação individualizada capaz de estimular a ação das células T, responsáveis por localizar e destruir focos da doença que poderiam permanecer no organismo.

Neste cenário, o pembrolizumabe atua de forma complementar. O medicamento bloqueia o receptor PD-1, uma proteína utilizada por muitos tumores para escapar do sistema imunológico. Ao bloquear esse mecanismo, a terapia torna as células cancerígenas mais visíveis para as defesas naturais do corpo. A expectativa dos pesquisadores é de que a combinação entre o treinamento promovido pela vacina e o desbloqueio da resposta imune amplifique a capacidade do organismo de impedir novas manifestações da doença.

De acordo com Gustavo Schvarts- man, oncologista do Einstein Hospital Israelita, o ponto mais relevante do tratamento é a extrema personalização. "Essas vacinas dependem do tumor de cada paciente, e isso é o que as torna bastante complexas. São até 34 proteínas sendo atacadas pelo sistema imunológico, incorporadas nessa abordagem. Não é algo que fica na prateleira e que todos poderão utilizar da mesma forma. Cada pessoa poderá extrair o máximo benefício de um produto desenvolvido especificamente para o seu câncer. Para mim, esse é o diferencial mais importante dessa tecnologia, e é por isso que acredito que os resultados tenham sido tão promissores."

"Nossos resultados também servem de incentivo para pesquisadores de câncer em todo o mundo, mostrando que vacinas de mRNA como o intismeran podem funcionar bem em combinação com a imunoterapia para outros tipos de tumores cujas altas taxas de mutações têm se mostrado difíceis de atingir", destacou Janice Mehnert.

Um estudo de fase 3 está em andamento para confirmar a eficácia da estratégia em um número maior de pacientes. Além do melanoma, a tecnologia tem sido investigada para prevenir a recorrência de câncer de pulmão e de outros tipos de tumores. "Precisamos ter em mente que, embora promissores, estes são resultados preliminares que ainda precisam de confirmação em estudos de fase 3. Porém, os achados representam uma importante estratégia que pode ser explorada tanto no melanoma quanto em outros tumores", disse Gabrielle Scattolin, oncologista e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

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