Dezenas de registros do caso Epstein estão supostamente desaparecidos
Dentre os documentos desaparecidos estão três depoimentos de uma mulher que acusou Donald Trump de agredi-la sexualmente e que Epstein havia abusado dela repetidamente desde os seus 13 anos
Publicado: 25/02/2026 às 16:40
Jeffrey Epstein (HOUSE OVERSIGHT DEMOCRATS / AFP)
De acordo com uma análise realizada pelo canal CNN Internacional, inúmeras entrevistas de testemunhas ao FBI (polícia federal dos EUA) relacionadas com a investigação do caso do criminoso sexual Jeffrey Epstein não constam dos mais de três milhões de páginas de arquivos divulgado pelo Departamento de Justiça no mês passado.
Nestes registros de provas conhecidos como arquivos ‘302’, que foram fornecidos antes do julgamento em 2021 aos advogados de Ghislaine Maxwell, condenada de aliciar mulheres para Epstein, inclui números de série para cerca de 325 memorandos de entrevistas de testemunhas ao FBI. No entanto, mais de 90 destes registros, mais de um quarto da lista, não estão presentes no site do Departamento de Justiça, segundo a CNN.
Além disso, estão excluídos outros materiais relacionados com dezenas de testemunhas, algumas das quais depuseram no julgamento de Maxwell, de acordo com dois registros de provas incluídos na divulgação do Departamento de Justiça. Mas, os detalhes sobre a maioria dos documentos ‘302’ desaparecidos, incluindo a identidade das pessoas entrevistadas, foram amplamente omitidos dos registros de provas.
Dentre os documentos desaparecidos estão também três depoimentos de uma mulher aos agentes federais que acusou Donald Trump de agredi-la sexualmente há décadas e que Epstein havia abusado dela repetidamente desde os seus 13 anos. Já os detalhes sobre estes documentos que sumiram ligados a acusadora de Trump foram anteriormente noticiados pela National Public Radio (NPR) e pelo jornalista político investigativo norte-americano, Roger Sollenberger. Num documento do FBI, divulgado como parte dos arquivos de Epstein e datado de outubro de 2020, relata o testemunho não verificado de um motorista de limusine que levou Trump para o Aeroporto Internacional de Dallas-Fort Worth em 1995. O motorista reportou ao FBI que, durante a viagem, Trump fez declarações r"muito perturbadoras ao telefone, nas quais mencionava Epstein e fazia referência a abusar de uma garota. Estes registros apontam que o motorista contou a uma mulher que conhecia o que ocorreu com Trump e esta admitiu que Trump a violou juntamente com Epstein num hotel de luxo, apos ter sido levada para lá por outra mulher.
Os especialistas dizem estar preocupados com o aparente desaparecimento dos formulários ‘302’, porque são essenciais para a compreensão da longa investigação do FBI sobre Epstein e Maxwell. Em geral, estes formulários descrevem o que os entrevistados relataram aos agentes, mas não incluem outras informações que corroboram ou opiniões dos agentes. “É o tijolo mais básico e importante na construção da investigação”, indicou Andrew McCabe, ex-diretor adjunto do FBI e colaborador da CNN.
O deputado Robert Garcia, principal democrata no Comitê de Supervisão da Câmara, questionou na terça-feira (24), a extensão da divulgação feita pelo Departamento de Justiça e se a administração Trump seguiu a lei que exige que a agência publique os seus arquivos relacionados com Epstein, magnata norte-americano que se suicidou numa prisão federal em 2019 enquanto enfrentava acusações de comandar uma rede de tráfico sexual.
“Temos uma sobrevivente que fez alegações graves contra o presidente. Mas há uma série de documentos, e aparentemente também entrevistas, que o FBI realizou com a sobrevivente, que estão desaparecidos, aos quais não temos acesso”, denunciou Garcia.
Por outro lado, a Casa Branca já comunicou que uma declaração anterior do Departamento de Justiça atestava que determinados documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente dos EUA. Enquanto isso, o Departamento de Justiça afirma cumprir a lei e negou que quaisquer registros de Epstein tivessem sido apagados. “Não excluímos nada e, como sempre dissemos, foram apresentados todos os documentos pertinentes. Os documentos não incluídos na divulgação eram duplicados, confidenciais ou faziam parte de uma investigação federal em curso. Alguns foram temporariamente removidos para ocultação de informações das vítimas”, afirmou o porta-voz do organismo.
Diversas vítimas de Epstein disseram que não encontraram seus próprios depoimentos ao FBI no site do Departamento de Justiça nas últimas semanas. "Todas nós estávamos à procura dos nossos testemunhos de vítimas. Relatórios de depoimentos com muitas partes censuradas e trechos removidos sugerem que este Departamento de Justiça está, na verdade, manipulando a opinião pública de todo o país", contou à CNN Jess Michaels, que foi abusada por Epstein aos 22 anos.
Democratas exigem divulgação completa dos arquivos
Os democratas da comissão de supervisão da Câmara dos Representantes anunciaram hoje em um comunicado que irão iniciar uma investigação paralela para determinar o paradeiro dos arquivos não divulgados.
Os democratas e sobreviventes da rede de tráfico sexual de Epstein exigem a divulgação dos restantes dos arquivos. Antes do discurso de Donald Trump ontem sobre o Estado da União no Capitólio, democratas pressionaram o Departamento de Justiça a publicar os dados ocultados do caso, sobretudo os ligam Trump ao alegado abuso sexual de uma menor, e a prosseguir com as investigações, além de acusarem o Departamento de Justiça de falta de transparência e encobrimento, pelas muitas páginas dos arquivos que estão censuradas.
“O Departamento de Justiça retém ilegalmente estes documentos. Encobrir provas diretas de uma possível agressão por parte do presidente dos Estados Unidos é o crime mais grave possível nesta conspiração da Casa Branca”, afirmou o deputado Robert Garcia, destacando a Lei de Liberdade de Informação recentemente aprovada pelo Congresso.
Garcia ainda apresentou um vídeo que mostra um documento que lista uma série de entrevistas e documentos do FBI com alegadas conversas com a mulher que acusou Trump de abuso sexual há anos atrás quando era menor de idade.