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De motorista de ônibus a líder sindical: quem é Maduro, presidente da Venezuela preso pelos EUA

Aliado de Hugo Chávez, Maduro chegou ao poder em 2013 e governou a Venezuela por mais de uma década em meio a crises econômicas, denúncias de autoritarismo e isolamento internacional

Diario de Pernambuco

Publicado: 03/01/2026 às 09:22

Nicolas Maduro/Foto por FEDERICO PARRA / AFP

Nicolas Maduro (Foto por FEDERICO PARRA / AFP)

Preso neste sábado (3) por forças militares dos Estados Unidos, o ex-ditador da Venezuela Nicolás Maduro construiu uma trajetória política singular, marcada por forte alinhamento ao chavismo e uma gestão envolta em controvérsias. De motorista de ônibus, passou a ser líder sindical, até ganhar status de principal aliado de Hugo Rafael Chavez Frias, outro ex-ditador do país. Aos 62 anos, está há mais de uma década no poder.

Maduro foi eleito presidente por uma pequena margem de votos, derrotando o opositor Henrique Capriles em março de 2013, após a morte de Hugo Cháves.

Como começou

Nascido em Caracas, capital venezuelana, Maduro concluiu o ensino médio e iniciou a vida profissional como motorista de ônibus no sistema metroviário da capital. No fim da década de 1970, passou a atuar no movimento sindical, fundando uma entidade para representar os trabalhadores do setor.

O engajamento político o levou ao Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200), liderado por Hugo Chávez, de quem se tornaria um dos principais aliados.

Maduro ganhou projeção nacional ao se destacar na campanha pela libertação de Chávez após a frustrada tentativa de golpe de Estado nos anos 1990.

Trajetória

Com a chegada do líder chavista ao poder, em 1999, passou a ocupar cargos estratégicos: integrou a Assembleia Nacional Constituinte, foi eleito deputado em 2000, presidiu a Assembleia Nacional  em 2006 e, posteriormente, assumiu o Ministério das Relações Exteriores após ser convidado por Chávez. Como chanceler, Maduro se manteve fiel ao chavismo e era considerado por diplomatas uma pessoa fácil de lidar.

Em outubro de 2012, Chávez o escolheu como vice-presidente após ser reeleito para um quarto mandato. Com o agravamento do estado de saúde do então presidente, Maduro assumiu interinamente o governo e, após a morte de Chávez, em março de 2013. Antes de morrer, Chávez disse, em rede nacional, que os venezuelanos deveriam eleger Maduro, caso acontecesse algo com ele. Maduro venceu a eleição presidencial por margem estreita, derrotando o opositor Henrique Capriles.

Maduro no poder

O período à frente do Executivo foi marcado por instabilidade. Com uma crise financeira, em 2014, as ruas do país foram tomadas por manifestantes de oposição que exigiam a saída de Maduro do poder.
Leopoldo López, que liderou as manifestações, acabou preso em 2015 acusado de incitar a violência.

No mesmo ano, Antonio Ledezma, então prefeito de Caracas, também foi detido acusado de conspirar contra o governo. A comunidade internacional passou a olhar a Venezuela com preocupação e o país foi alvo de sanções dos Estados Unidos por violação aos direitos humanos.

Em 2016, a oposição tentou tirar Maduro do poder mais uma vez a partir de um referendo, além de organizar novos protestos. Mas o presidente conseguiu se manter no cargo com apoio da Justiça, que foi acusada de favorecê-lo. No ano seguinte, novos protestos violentos aconteceram na Venezuela, resultando em mortes.

Em julho de 2017, Maduro convocou uma Assembleia Nacional Constituinte sem a participação do Parlamento, então controlado pela oposição. O chavismo venceu as eleições para governadores em outubro, e as municipais em dezembro, com a oposição denunciando fraudes. A medida foi criticada por analistas e governos estrangeiros, que viram na iniciativa uma tentativa de concentrar poder.

Reeleição polêmica

Em 2018, a Assembleia Constituinte antecipou as eleições presidenciais e Maduro foi reeleito. A oposição, por outro lado, boicotou a votação e alegou fraude. Os Estados Unidos, países da Europa e da América Latina não reconheceram o resultado por falta de transparência.

Em 2019, um relatório do Banco Mundial apontou a "implosão" da Venezuela devido à gestão da economia, além da queda nos preços internacionais do petróleo. Enquanto isso, Maduro dizia que era alvo de uma perseguição imperialista, culpando os Estados Unidos e empresas pela crise que castigava o país.

Com uma das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela tinha o recurso como praticamente a única fonte de receita externa. Quando os preços estavam em alta, o país aproveitou o "boom" para obras e crescimento social. Quando o preço do barril do petróleo despencou, em 2014, influenciado por fatores globais, a Venezuela foi duramente afetada, provocando um rombo nas contas públicas.

A Venezuela também enfrentou apagões e falta de água. A crise desencadeou uma saída em massa de venezuelanos do país, sendo que milhares vieram para o Brasil em busca de novas oportunidades.

Segundo relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), em 2023, mais de 6 milhões de venezuelanos estavam fora do país, sendo que a grande maioria se realocou em outros países da América Latina. Além disso, um levantamento feito no ano passado pela Universidade Católica Andrés Bello, da Venezuela, aponta que cerca de metade da população do país está em situação de pobreza.

Governo autoritário

Nicolás Maduro foi acusado de manter um governo autoritário ao longo dos últimos 11 anos. Durante o mandato, foi denunciado por perseguir opositores, centralizar o poder e, até mesmo, tentar anexar parte do território da Guiana. Optou pela repressão aos opositores. Os maiores movimentos foram registrados entre 2014 e 2019.

Durante as manifestações, testemunhas relataram ações de violência por parte das forças de segurança, além de prisões arbitrárias e mortes. Somente em 2019, segundo levantamento do Observatório Venezuelano de Conflito Social, 67 pessoas morreram em ações contra o governo.

Um dos protestos, em 2017, foi motivado pela convocação de Maduro de uma Assembleia Constituinte, sem a participação do Parlamento. O presidente justificou que uma nova Constituição iria ajudar a solucionar a crise que o país vivia.

Por outro lado, analistas viram o movimento de Maduro como uma tentativa de driblar o Congresso, que era controlado pela oposição. Ainda em 2017, a Assembleia Constituinte composta por chavistas tomou os poderes do Parlamento.

A Constituinte acabou sendo encerrada em 2020, sem propor uma nova Constituição. No mesmo ano, o partido de Maduro venceu as eleições legislativas. Ou seja, o Congresso retomou o poder, mas com maioria do governo. Além disso, os últimos processos eleitorais da Venezuela foram marcados por denúncias de irregularidades.

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