"Copa de mulheres e feita por mulheres": ex-capitã da Seleção Brasileira destaca avanço do protagonismo feminino no futebol
Ex-capitã da Seleção Brasileira e atual Diretora de Legado da FIFA para a Copa do Mundo de 2027, Aline Pellegrino revelou ao Diario de Pernambuco que cerca de 77% da estrutura de organização do torneio no Brasil é composta por mulheres
Nicolle Gomes e Raphael Brasil
Publicado: 13/10/2026 às 16:55
Diretora de Legado da FIFA para a Copa do Mundo de 2027, Aline Pellegrino, em entrevista ao Podcast Futebol Diario (Sandy James/DP Foto)
A ex-capitã da Seleção Brasileira Feminina de Futebol e atual Diretora de Legado da FIFA para a Copa do Mundo de 2027, Aline Pellegrino, participou de uma edição extra do podcast Futebol Diario nesta terça (13/10) e abriu o jogo sobre a evolução da modalidade dentro e fora de campo, o trabalho do técnico Arthur Elias e o favoritismo do Brasil jogando em casa no mundial do próximo ano.
A ex-zagueira é medalhista olímpica e finalista da Copa do Mundo de 2007, na China. Jogou ao lado de grandes nomes do futebol brasileiro, como Marta e Formiga, e hoje atua na gestão futebolística. Ela comentou sobre o momento de consolidação do futebol feminino no país.
Além de projetar a preparação para a Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027 no Brasil – com Recife entre as sedes –, ela enfatizou a importância da presença feminina nos cargos de liderança e na tomada de decisões do evento.
Para Pellegrino, um dos grandes marcos do torneio está na composição da equipe responsável por planejar e executar a competição. A ex-defensora revelou que a subsidiária da FIFA no Brasil conta com aproximadamente 77% de força de trabalho feminina. Na diretoria executiva, além do comando de uma CEO mulher, três dos quatro cargos de diretoria são ocupados por mulheres.
"Uma Copa das mulheres sendo construída por mulheres é um legado que a gente quer deixar também para o futuro", ressaltou.
Trajetória
Ao relembrar a própria carreira, Aline traçou um paralelo entre o cenário atual e os desafios de quando começou a jogar. Ela relatou que, na infância, precisava jogar escondida por falta de incentivo e de espaço para as meninas. Sem ver atletas femininas transmitidas na televisão, o objetivo era ser professora de Educação Física, a alternativa mais próxima no ambiente esportivo.
Aline destacou que a ocupação de espaços de gestão por mulheres que passaram pelo campo traz um ganho substancial ao esporte. Segundo ela, quem viveu a realidade das quatro linhas traz conhecimentos e sensibilidades práticas que agregam diretamente na organização e no desenvolvimento das competições.
"Você imagina alguém querer ser técnica, querer ser árbitra, querer ser jornalista, querer ser gestora. Então tem todo um contexto que vai caminhando com esse processo de crescimento da modalidade. Na hora em que você chega à gestão, não tinham ainda mulheres atuando ali e podendo levar essa experiência do campo", recordou.
Do vice-campeonato de 2007 ao cenário atual
A dirigente comparou a realidade atual do futebol feminino brasileiro com a da campanha do vice-campeonato mundial na China, em 2007, da qual fez parte do elenco titular. Naquela época, a Seleção Brasileira chegou à final impulsionada por um talento individual extraordinário, mas o país sequer possuía um calendário nacional de clubes ou competições periódicas organizadas.
Hoje, o panorama foi transformado pelos regulamentos de licenciamento impostos pela Conmebol e pela CBF, que obrigaram as equipes tradicionais a investirem na divisão feminina. A mudança impulsionou o Campeonato Brasileiro, deu regularidade aos estaduais e fortaleceu a Libertadores e as categorias de base.
A era Arthur Elias
Aline Pellegrino também analisou a transição no comando técnico da Seleção Brasileira. Ela elogiou a passagem da treinadora sueca Pia Sundhage por trazer organização tática, disciplina defensiva e evolução física.
Em seguida, elogiou a escolha de Arthur Elias, destacando seu conhecimento profundo da essência do futebol feminino brasileiro após anos de conquistas no Corinthians. Para a dirigente, o diferencial dele é a capacidade de passar confiança às jogadoras para operar esquemas táticos corajosos, mesmo diante das maiores potências do mundo.
Aline destacou que a Seleção voltou a impor medo e desconforto em adversários tradicionais como Estados Unidos e Espanha, jogando de forma agressiva e ofensiva.
"Fator Marta"
Convivendo com Marta por nove anos na Seleção Brasileira, Aline Pellegrino tentou explicar o que torna a camisa 10 uma atleta com um nível tão alto.
Além do talento incontestável, a dirigente destacou a competitividade implacável de Marta, que trata cada partida e cada treino como se fossem o primeiro e o último de sua vida.
"É muito talento, é uma vontade de jogar, é o tipo de jogadora que não tem bola perdida, não tem jogo perdido. É muita vontade e é muito da alma. Para quem teve a oportunidade de conviver e jogar, a gente tem que se sentir privilegiada", declarou.
Aline expressou torcida para que a Rainha esteja presente na Copa do Mundo de 2027, ressaltando que ter Marta encerrando sua trajetória em Mundiais jogando em solo brasileiro é um presente não apenas para a torcida nacional, mas para o futebol mundial.
Exportação de talentos e a força da base
Outro ponto abordado foi a crescente transferência de jogadoras brasileiras para grandes clubes do exterior, como a Europa e a National Women's Soccer League (NWSL) dos Estados Unidos. Pellegrino enxerga esse movimento como algo natural e positivo, demonstrando o valor e o reconhecimento das atletas nacionais no mercado global.
Ela enfatizou que a venda de jogadoras passou a se tornar uma fonte importante de receita para os clubes brasileiros. Além disso, cada transferência abre espaço no cenário nacional para o surgimento e maturidade de jovens promessas vindas das categorias de base.
Público
O engajamento dos torcedores para o evento de 2027 já demonstra a força da competição. Pellegrino citou o recorde no programa de voluntários da Copa do Mundo Feminina, que alcançou 161 mil inscritos, além das mais de oito mil manifestações de interesse no registro oficial de ingressos da FIFA.
Aline destacou também a preparação de Pernambuco e da Arena de Pernambuco para receber sete jogos do Mundial, garantindo que o estado e as demais sedes estão prontos para oferecer excelência e proporcionar uma atmosfera calorosa e inesquecível para as seleções visitantes.
"É esse clima que a gente quer criar desde já. A gente quer ver esses estádios cheios. As principais jogadoras do mundo estão vindo jogar no país do futebol, no país que celebra e recebe com diferentes histórias para contar", celebrou.