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SAF do Santa Cruz: quatro anos de negociações e reviravoltas sem desfecho

SAF do Santa Cruz: quatro anos de negociações sem desfecho

Paulo Mota

Publicado: 23/04/2026 às 12:22

Torcida do Santa Cruz/Rafael Vieira

Torcida do Santa Cruz (Rafael Vieira)

As discussões sobre a transformação do Santa Cruz em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) começaram a ganhar forma em 2022, em um cenário de grave crise financeira e institucional. O Tricolor do Arruda buscava alternativas para reestruturar suas finanças e recuperar competitividade esportiva.

Em 2022, o clube avançou nos primeiros movimentos concretos. A diretoria informou que ao menos cinco potenciais investidores estariam analisando documentos financeiros e operacionais do Santa Cruz. O debate ganhou ainda mais visibilidade quando o ex-zagueiro Ricardo Rocha revelou ter intermediado conversas com um investidor norte-americano, que teria demonstrado interesse inicial no projeto. Além disso, o clube recebeu representantes do Azuriz-PR, porém o interesse não foi para frente.

Apesar disso, a direção, à época comandada por Antônio Luiz Neto, adotava um discurso de prudência, reforçando que o clube não aceitaria qualquer tipo de proposta sem avaliação criteriosa.

No fim de 2022, um passo institucional importante foi dado: os sócios aprovaram em assembleia a criação da SAF. No entanto, a decisão veio com uma particularidade que já indicava possíveis entraves futuros, o modelo aprovado subordina a SAF ao poder executivo do clube, permitindo uma espécie de “Canetada do presidente”, o mandatário teria palavra final sobre sua implementação da SAF. Esse ponto, mais tarde, se tornaria um dos principais focos de questionamentos.

Ao longo de 2023, o tema deixou de ser apenas uma discussão administrativa e passou a integrar o centro da crise política do clube. Divergências sobre o modelo de gestão da futura SAF, especialmente no que dizia respeito ao grau de autonomia do investidor em relação ao poder executivo, geraram impasses e disputas internas.

Em paralelo, surgiram notícias de possíveis interessados e reuniões com representantes de diferentes grupos empresariais. Entre eles, chegou a haver conversas com o então presidente do Bahia, Guilherme Bellintani.

No entanto, apesar da movimentação nos bastidores, nenhuma proposta avançou de forma definitiva. O presidente Antônio Luiz Neto chegou a afirmar publicamente que havia negociações adiantadas com pelo menos dois investidores, mas evitava estabelecer prazos ou garantias de conclusão. O cenário se agravou em setembro de 2023, quando ele renunciou ao cargo em meio a tensões políticas internas e a uma crise esportiva após o desempenho ruim na Série D.

Logo após sua saída, o novo presidente, Jairo Rocha, declarou que o processo de SAF estava “90% fechado”, o que gerou grande expectativa entre torcedores e conselheiros. Entretanto, essa percepção não se confirmou na prática. As negociações não evoluíram para contrato, e divergências entre grupos interessados e dirigentes voltaram a travar o processo. 

Nesse intervalo, surgiu ainda a possibilidade de apresentação de uma proposta ligada a Mancuso, ex-jogador do clube, como possível articulador da SAF. Entretanto, as conversas não evoluíram e o tema acabou não tendo desfecho, permanecendo sem continuidade dentro do projeto de reestruturação do clube.

Ainda em 2023, o ex-jogador Rivaldo, revelado pelo clube e pentacampeão mundial, chegou a ser citado como possível investidor. Em declarações públicas, ele chegou a admitir que havia apelos de torcedores para que comprasse o clube, mas posteriormente descartou qualquer entrada direta no projeto, alegando riscos financeiros e falta de segurança na operação.

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Em 2024, o discurso institucional voltou a demonstrar otimismo. A nova diretoria comandada agora pelo presidente Bruno Rodrigues afirmou que havia múltiplos projetos de SAF em análise e que o fechamento poderia ocorrer ainda no segundo semestre. Apesar disso, nenhuma proposta foi consolidada, e o processo seguiu sem avanços concretos.

O momento mais próximo de uma concretização ocorreu em 2025, quando foi anunciada uma proposta de um grupo de empresários mineiros para assumir cerca de 90% da SAF do Santa Cruz. O plano previa um investimento total estimado em R$ 1 bilhão, incluindo pagamento de dívidas, reestruturação patrimonial e investimentos no futebol profissional. A notícia gerou forte mobilização da torcida, com manifestações de apoio e expectativa de uma nova era no clube.

No entanto, o projeto começou a ruir poucos meses depois. Em maio de 2025, houve a saída de Márcio Cadar, um dos principais articuladores financeiros da operação, seguida por novas divergências internas entre investidores. Em julho, Vinicius Diniz também deixou a estrutura, aprofundando a instabilidade da proposta.

Na tentativa de reorganizar o projeto, foi anunciada a entrada de novos agentes financeiros ligados a fundos de investimento, Fernando Vieira, com parceria com a Reag, que posteriormente seria investigada pela Polícia Federal, em envolvimento com o escândalo do Banco Master.

Já em abril de 2026, a situação chegou a um novo ponto de ruptura. A atual gestão do Santa Cruz confirmou que a Cobra Coral Participações S/A, responsável pela tentativa mais recente de aquisição da SAF, decidiu se retirar da operação. Segundo a diretoria, os próprios investidores comunicaram a saída por não conseguir garantir o lastro financeiro.

Apesar disso, ainda indicaram a possibilidade de um novo grupo assumir as negociações. Paralelamente, o clube afirma ter sido procurado por outros interessados, embora nenhuma proposta formal tenha sido apresentada até o momento.

Quatro anos após o início das discussões, a SAF do Santa Cruz permanece como um projeto inacabado. O que começou como uma alternativa para reerguer o clube financeiramente segue, até agora, como um processo em aberto, ainda sem desfecho definido.

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