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OPINIÃO

Beto Lago: "Entre a fiscalização rigorosa e o espetáculo do caos"

Quando a agremiação falha em reagir dentro das quatro linhas ou fora delas, a cobrança firme é dever da imprensa e direito sagrado da torcida

Beto Lago

Publicado: 22/08/2026 às 14:21

Entre a fiscalização rigorosa e o espetáculo do caos/Rafael Vieira / DP Foto

Entre a fiscalização rigorosa e o espetáculo do caos (Rafael Vieira / DP Foto)

Cobrança necessária
O momento dos nossos clubes não é fruto do acaso ou de um infortúnio pontual de campo. É a somatória cumulativa de “GESTÕES”, com letras garrafais, pois são muitos os responsáveis que no poder acumularam dívidas, erros administrativos e ausência de visão estratégica. Nesse cenário de estagnação ou recuo, a divergência não é apenas aceitável: ela é indispensável. Quando a agremiação falha em reagir dentro das quatro linhas ou fora delas, a cobrança firme é dever da imprensa e direito sagrado da torcida. No entanto, há uma fronteira tênue e perigosa entre a fiscalização rigorosa e o espetáculo do caos. O clima de embates acalorados e constantes trocas de acusações via microfones, alimentado tanto pela mídia tradicional quanto por influenciadores apaixonados, tem gerado um ruído que mais atrapalha do que aponta saídas. Nas plataformas digitais e nos formatos de debate hiper polarizados, a análise sóbria e o contexto técnico perdem espaço para o tom estridente. A nuance é engolida pelo sensacionalismo: uma discordância tática vira "crise sem volta", e uma falha administrativa torna-se pretexto para exigir a imediata demissão em massa de diretores ou comissões técnicas. Quando a crítica deixa de ser sobre o clube e passa a ser sobre quem falou o quê, a pauta institucional é sequestrada pelo espetáculo da discórdia. Esse modelo premia o confronto rápido. O sobressalente não é mais o argumento mais denso sobre o endividamento ou a reestruturação das categorias de base, mas sim a frase mais de efeito destinada ao corte das redes sociais. Criou-se um ciclo em que a crise vende, o incêndio gera cliques e o clube consome a si próprio em uma fogueira de vaidades.



A pressão que atravessa os muros
A ilusão de que o departamento de futebol vive isolado do ambiente externo não resiste à realidade. O clima conflagrado da cidade inevitavelmente atravessa os muros do Centro de Treinamento e chega aos vestiários. Atletas, comissões técnicas e funcionários também estão expostos à pressão diária. No futebol de alto rendimento, em que a margem para o erro já é pequena, esse ambiente pode reduzi-la a quase zero. O resultado é previsível: profissionais passam a trabalhar sob ansiedade permanente, decisões são tomadas sob pressão e a chamada “fritura” de jogadores, treinadores e dirigentes se acelera. Em vez de um ambiente capaz de produzir soluções, cria-se um cenário com a urgência e o medo do próximo erro.

A instabilidade custa caro
Fora de campo, o prejuízo também é concreto. Para atrair reforços de peso, parceiros comerciais ou investidores, qualquer instituição precisa transmitir estabilidade, credibilidade e capacidade de governança. Ninguém está disposto a aportar capital ou assumir compromissos de longo prazo em uma instituição mergulhada em disputas políticas intermináveis. A instabilidade afasta parceiros, dificulta investimentos e compromete a construção de projetos que exigem planejamento e visão de futuro.

Cobrar sem alimentar o incêndio
É preciso resgatar o compromisso com o jornalismo responsável. Apontar os erros graves das administrações dos clubes é papel inegociável da imprensa. Cobrar transparência, estabelecer metas e exigir profissionalismo também é prestar um serviço à instituição e ao torcedor. O desafio ético está em separar o rigor da responsabilidade de transformar a cobertura em combustível para novos conflitos. Os microfones e as redes sociais não podem servir de palanque para guerras pessoais ou disputas de grupos políticos.

Própria cultura da instituição
Quando isso acontece, a imprensa e os influenciadores deixam de apenas revelar o incêndio e passam, até involuntariamente, a alimentar as chamas. O clube precisa, sim, de cobrança contundente. Mas também precisa de maturidade, serenidade e responsabilidade para continuar respirando, corrigir seus erros e construir o próprio futuro. Sem isso, a crise deixa de ser circunstancial e passa a fazer parte da própria cultura da instituição.


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