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Dólar atinge maior alta do ano e vai a R$ 5,48 com desconfiança sobre o quadro fiscal

Suposto apoio a ideias de cortes agressivos da taxa Selic, do economista Lara Resende, um dos pais do Plano Real, aumentaram desconforto de investidores

Estadão Conteúdo

Publicado: 03/11/2026 às 19:47

Notas de dólar norte-americano/CFOTO via AFP

Notas de dólar norte-americano (CFOTO via AFP)

O aumento da desconfiança em torno da disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em promover um ajuste fiscal castigou o real nesta terça-feira (3) na volta do feriado de Finados. Após superar R$ 5,50 pela manhã, com pico de R$ 5,5157, o dólar à vista terminou o dia a R$ 5,4872, alta de 0,79%. Trata-se do maior nível de fechamento desde 30 de dezembro de 2025. O real amargou hoje o segundo pior desempenho entre as divisas mais líquidas, com perdas inferiores apenas às do peso mexicano.

Foi o terceiro pregão consecutivo de avanço da moeda norte-americana, que fechou a semana passada com ganhos de 9,04%, a maior valorização semanal desde outubro de 2008, auge da crise financeira global desencadeada pela derrocada do setor imobiliário nos EUA. Com a alta hoje, o dólar praticamente zerou as perdas acumuladas frente à divisa brasileira no ano (-0,03%).

"O dólar sobe com a ausência de medidas de ajuste fiscal e de um nome para o Ministério da Fazenda", afirma o economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, que vê aumento das chances de intervenção do Banco Central no mercado de câmbio, com venda de moeda à vista, mesmo que o Comitê de Política Monetária (Copom) opte por manter, na quarta-feira (4), a taxa Selic em 13,75% ao ano.

A descrença em torno do anúncio de medidas para conter os gastos públicos ganhou corpo na semana passada após declarações contrárias ao ajuste fiscal vindas de figuras próximas a Lula. No fim de semana, relatos de que uma ala do governo estaria disposta a encampar as ideias do economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, de reduzir o ritmo de crescimento da dívida pública via cortes agressivos da taxa Selic aumentaram o desconforto dos investidores.

O economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, chama atenção para o envolvimento de "alguns aliados" de Lula com a proposta de Lara Resende de estabelecimento de limites para a taxa Selic. "Embora duvidemos que essa proposta saia do papel, a discussão sugere que o governo Lula pode estar em busca de maneiras de evitar o doloroso ajuste fiscal necessário para estabilizar os mercados", afirma Jackson.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tentou atuar como bombeiro ao dizer, na manhã desta terça-feira, que as ideias apresentadas por Lara Resende têm várias deficiências. Ele reiterou que, diferentemente do que foi ventilado, não há previsão de um encontro de Lula com o economista.

A ausência de sinais claros sobre a política econômica do governo Lula 4 levou a uma rodada de deterioração das expectativas para o IPCA e para a taxa de câmbio. A projeção para o dólar no fim deste ano saltou de R$ 5,05 para R$ 5,34, ao passo que a estimativa para dezembro de 2027 passou de R$ 5,15 para R$ 5,40. Casas relevantes como XP e Santander anunciaram hoje que passam a prever a manutenção da taxa Selic em 13,75% amanhã, seguindo tendência observada desde o fim da semana passada.

Em nota a clientes, a Hedgepoint pontua que a manutenção da taxa Selic "com um tom firme" por parte do Copom reforçaria "o carry" e ajudaria o real, que se deprecia por questões domésticas. "O DXY sozinho não explica a alta do dólar por aqui", afirma a Hedgepoint, em relação ao leve avanço do Dollar Index - que mede o desempenho da moeda americana frente a seis divisas fortes -, em meio às expectativas para a eleição parlamentar de meio de mandato nos EUA, que pode resultar em enfraquecimento político do presidente Donald Trump.

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