Terê Cordeiro, moradora do Itaim Paulista, na periferia de São Paulo, só começou a estudar depois dos 50 anos. Obrigada a trabalhar desde criança, ela atuou como empregada doméstica e operária de fábrica e enfrentava fortes dores na coluna, consequência de décadas de trabalho na roça.
Ainda assim, ela cursou o ensino médio noturno. Em uma noite de chuva, chegou à escola encharcada e descobriu que não haveria aula por falta de professores. Sozinha na sala, reivindicou o direito de aprender. O coordenador perguntou o que ela queria. Terê respondeu que só queria ser ouvida, depois de passar a vida obedecendo, e mostrar a si mesma que havia deixado o pouco conforto de casa, enfrentado a dor e se molhado inteira para chegar à escola sem ter aula.
O coordenador pediu que ela escrevesse uma poesia. Assim nasceu “A sertaneja e o professor”, com versos que refletiam seu próprio sonho: “O sonho da sertaneja é igual o do professor / ela também sonha um futuro promissor”.
Desigualdade racial no envelhecimento da empregada doméstica
A história dela faz parte de um cenário mais amplo de desigualdade. Uma pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, em parceria com o Itaú Viver Mais, constatou que a velhice é mais difícil para pessoas negras do que para pessoas brancas. O estudo aponta um acúmulo de desigualdades impostas pelo racismo.
Atualmente com mais de 70 anos, Terê relata que seu pai nasceu branco como resultado de um violência sexual vó sofrida por sua avó na época da escravidão. Ela também relatou que sua mãe, uma mulher negra, era obrigada a lavar os pés do pai, um senhor de engenho, que a considerava como escrava dele. Quando se mudou para São Paulo, trabalhou como empregada doméstica e ficava 24 horas por dia à disposição da patroa.
Superando barreiras e reconquistando a própria voz
Mãe solo, conseguiu que seu filho se formasse em sistemas de informação. Aos 60 anos, ela fez o que parecia impossível para muitos: afirma que foi analfabeta a vida inteira e conseguiu passar em uma universidade federal. Terê foi aprovada pelo Enem para um curso de biologia.
Embora problemas na coluna tenham impedido a continuidade naquele curso, sua aprovação marcou uma vitória pessoal e coletiva. Em meados 2018, diagnosticada com câncer de mama, ela recebeu tratamento pelo SUS e manteve sua paixão pela poesia.
Seus textos já foram publicados em coletâneas, e ela integra o Sarau 60+, coletivo ligado ao projeto Continuar, coordenado pela psicóloga e gerontóloga Jeane Silva, que promove ações culturais e educacionais para a terceira idade. Seu grande sonho agora é lançar um livro solo de poesias.
Histórias que se repetem e transformam
Outra integrante do grupo é Adelina Martins, de 67 anos, que trabalhou na roça durante a infância, no interior de São Paulo, e aos 9 anos, tentou ir à escola pela primeira vez com os irmãos.
Adelina e os irmãos foram expulsos por crianças brancas que jogaram pedras neles por serem negros. Um professor ainda os aconselhou a não voltar. Aos 17 anos, ela se mudou para a capital paulista e trabalhou como babá e empregada doméstica. Ficava 24 horas por dia à disposição da patroa, tinha apenas uma folga por mês e recebia metade do salário mínimo.
Já aos 26 anos, ela convenceu uma patroa a deixá-la estudar à noite, mas precisava deixar o jantar pronto antes de sair e lavar a louça ao voltar das aulas, às 23h30. Aos 30 anos, formou-se em contabilidade, depois em pedagogia e serviço social. Hoje, coordena o Sarau Afro, projeto que usa a literatura de autores negros como instrumento de educação antirracista.
Outra poetisa do projeto, Célia Lima, então com 75 anos, trilhou um caminho marcado pelo racismo. Quando tinha 4 anos, sua mãe morreu, e ela trabalhou na roça com o pai, no interior de Minas. Mudou-se jovem para São Paulo, onde trabalhou como empregada doméstica, operária de fábrica e vendedora de Yakult. Entrou na faculdade de pedagogia com mais de 50 anos, depois de conhecer as Comunidades Eclesiais de Base.
As histórias de Terê, Adelina e Célia representam mulheres que se recusaram a silenciar diante das barreiras. Transformadas em poesia e relato, suas histórias revelam como mulheres negras marcadas por vidas de trabalho precário conseguiram continuar estudando, reconquistar a própria voz e compartilhá-la com o mundo.










