Um casal indiano-vietnamita, pais de três crianças, construiu grande parte da vida familiar em torno da NomadGao, comunidade de coworking e coliving que criou para nômades digitais em Himachal Pradesh. Para isso, decidiram tirar os filhos da escola tradicional e trazê-los para sua rotina.
Os filhos gêmeos, de 13 anos, e a filha mais nova aprendem por meio de refeições compartilhadas, conversas com viajantes, experimentos de culinária, jogos de tabuleiro, projetos de carpintaria e longas tardes ao ar livre.
Educação alternativa em Himachal Pradesh põe em questão a escola tradicional
Muito antes de a NomadGao existir, Mayur já questionava as ideias convencionais sobre educação e sucesso. Criado em Kolhapur, na Índia, em uma família tradicional de classe média, ele seguiu o caminho esperado até se sentir cada vez mais desconectado do que aprendia.
Mayur recorda que estava desiludido por não entender por que aprendia o que aprendia. Reprovar de ano, algo que muitos consideraram uma derrota capaz de definir sua vida, tornou-se um ponto de virada. “Foi a melhor coisa que aconteceu”, afirma.
Segundo Mayur, todos perderam as expectativas que tinham sobre ele, e isso o deixou livre para fazer o que quisesse. Nos anos seguintes, ele teve experiências pouco convencionais: vendeu de porta em porta em vilarejos, fez trabalhos de meio período e trabalhou remotamente, além de viajar pela Índia e pelo Sudeste Asiático como nômade digital. Essas vivências reforçaram sua crença de que algumas das lições mais importantes da vida acontecem fora das salas de aula.
A jornada de Joy e o encontro de caminhos
A trajetória de Joy também mudou. Criada no Vietnã, ela seguiu um caminho convencional pela escola e pela universidade, além de construir uma carreira no setor bancário, antes de conhecer Mayur em 2017.
Depois de se mudar para a Índia, Joy passou a explorar caminhos novos, do treinamento em nutrição e saúde ao design de brinquedos e à administração de um restaurante. Ela se define como autodidata.
Joy diz que nem tudo o que aprendeu na escola ou na universidade foi útil para as escolhas que fez depois. Juntos, eles construíram a NomadGao como um espaço onde trabalhadoras remotas pudessem viver, trabalhar e se conectar com pessoas com interesses semelhantes. O que começou como um sonho cresceu em uma comunidade em Goa e, depois, em Himachal Pradesh. Os filhos cresceram nesse ambiente.
Repensando a educação durante a pandemia
Enquanto a pandemia levou muitas famílias a reconsiderar a educação, Mayur e Joy já discutiam o assunto. Para Mayur, a mudança veio da convicção crescente de que a educação tradicional não contemplava o tipo de aprendizado que ele valorizava, baseado em curiosidade.
Esse aprendizado, baseado em experiência real e conexão humana, também ganhou força quando Joy conheceu o conceito de educação alternativa. Ela observou a filha mais nova se desenvolver em um ambiente menos estruturado e reconheceu a diferença entre estudar para passar em testes e aprender porque algo desperta curiosidade.
Aprendizado centrado na comunidade e na vida real
A ideia de educação do casal se estende a cozinhas, fazendas, oficinas, livros, conversas e à vida cotidiana. A curiosidade orienta o aprendizado, em vez de um currículo fixo. Na NomadGao, as crianças aprendem enquanto viajantes de diferentes países se reúnem para cozinhar.
As crianças aprendem matemática ao medir ingredientes, linguagem ao ouvir sotaques variados e cultura por meio de histórias pessoais. Nos projetos de carpintaria, desenvolvem habilidades práticas e aprendem a resolver problemas. Nas conversas diárias com adultos de origens diversas, conhecem perspectivas que nenhum livro didático poderia oferecer.
Para Mayur e Joy, a educação desescolarizada não significa ausência de estrutura ou aprendizado. Significa que a estrutura serve à criança e a seus interesses, não o contrário. A curiosidade natural das crianças orienta o aprendizado, enquanto os pais e a comunidade fornecem recursos, experiências e orientação quando necessário.
A abordagem se baseia na ideia de que as crianças aprendem melhor quando estão envolvidas, veem relevância no que descobrem e participam de uma comunidade, em vez de permanecerem isoladas em salas de aula.










