Todas as noites, uma vira-lata caramelo chamada Lilica saía de um ferro-velho em São Carlos, interior de São Paulo, e caminhava cerca de quatro quilômetros atrás de comida. O destino era sempre o mesmo: a casa de uma professora que lhe oferecia uma refeição. Depois de esvaziar o prato,a cadela ainda tinha outra tarefa.
Em vez de voltar direto para casa, a cadela esperava pelas sobras para levá-las aos companheiros que dividiam com ela o espaço do ferro-velho. A história foi exibida na televisão em 2012 e repercutiu no Brasil e no exterior. Mais de uma década de caminhadas noturnas transformou Lilica em um símbolo de afeto para quem acompanhou sua história em São Carlos.
Um lar entre animais diferentes
Ainda filhote, a cachorrinha foi deixada sozinha na porta do comércio de Neile Vânia Antonio, dona do local. Ao acolhê-la, ela não imaginava que o espaço se tornaria também abrigo de outros bichos: um cachorro, um gato, um galo, uma galinha e uma mula dividiam o terreno com Lilica.
Essa convivência entre espécies diferentes pode ter despertado nela um instinto de cuidado coletivo. Segundo avaliação de um veterinário, o comportamento da cadela estava ligado aos instintos materno e de liderança, que a levavam a zelar pelo grupo como se fosse sua própria família.
Como surgiu a ideia da marmita
A professora Lúcia Helena de Souza, que criava outros animais em casa, percebeu que Lilica não ia embora logo após comer. A cadela ficava parada, olhando para o alimento que restava, como se quisesse carregá-lo consigo.
Ao perceber a insistência da cadela, Lúcia encontrou uma solução prática: embrulhou as sobras numa sacola amarrada de modo que Lilica pudesse segurá-la com a boca durante o trajeto. Por volta das 21h30, Lilica chegava para comer e partia logo depois, já com a encomenda destinada aos outros bichos.
Um trajeto perigoso e constante
Entre o ferro-velho e a casa da professora havia uma estrada de movimento intenso, que tornava cada travessia noturna perigosa para o animal. Ainda assim, a cadela repetia o percurso quase sem falhar, atravessando a estrada entre os carros no escuro para cumprir sua entrega.
Ao voltar, Neile recebia a sacola e distribuía a comida entre os bichos do terreno, guardando o que sobrava para a manhã seguinte. Esse ciclo diário virou parte da vida de todos que moravam ali, animais e humanos.
Quando os próprios filhotes entraram na rotina
O hábito de levar comida aos outros ganhou um novo motivo quando Lilica engravidou e deu à luz oito filhotes. De repente, era preciso alimentar uma ninhada inteira, e as viagens noturnas passaram a ter como destino principal os próprios filhos.
Com o crescimento dos cachorrinhos e a adoção de cada um por novas famílias, a cadela retomou o costume de dividir as sobras com os animais do ferro-velho. A entrega de comida seguiu firme mesmo depois que a ninhada se espalhou por outras casas.
O fim de uma trajetória marcante
Em novembro de 2017, Lilica morreu após ser picada por uma cobra. Neile, que a recebera ainda filhote e cuidara dela por mais de dez anos, chegou a acreditar que a cadela tivesse desaparecido. Depois, recebeu a confirmação de que um vizinho havia encontrado a cadela e tentado ajudá-la.
Apesar dos esforços, ela não resistiu, e a morte encerrou a história de um animal que fez da solidariedade um hábito diário em São Carlos.










