Em Rio Branco, capital do Acre, o sol ainda ilumina o rio que margeia a cidade às 20h, quando São Paulo já está escura. A capital acreana segue o fuso UTC-5, duas horas atrás do horário de Brasília. Essa diferença muda a rotina de quem mora ali e surpreende quem chega de outras regiões do país.
A distância de mais de 3.000 km em relação ao extremo leste do território nacional explica esse atraso no relógio, adotado desde o início do século passado. Na prática, o fim de tarde se estica, e o anoitecer chega mais tarde do que em quase todo o Brasil.
Por que o Acre tem horário diferente
O Decreto 2.784, de 1913, fixou que o Acre e parte do Amazonas ficariam cinco horas atrás do Meridiano de Greenwich — duas a menos que Brasília. Essa configuração vigorou por décadas, moldando o cotidiano da população local e facilitando a vida econômica da região.
Em 2008, o Congresso aprovou uma mudança que levou o estado ao fuso UTC-4, unificando o horário com boa parte do país. A medida causou impacto imediato: crianças não conseguiam chegar à escola nos horários estabelecidos, e a população enfrentou dificuldades na rotina.
Um referendo em 2010 mostrou que a maioria da população acreana preferia recuperar o horário anterior. O retorno ao horário anterior foi oficializado em 10 de novembro de 2013, conforme a Câmara dos Deputados.
Os primeiros passos e a Revolução que moldou o território
A origem de Rio Branco remonta a uma gameleira centenária, árvore que deu nome a um dos pontos mais conhecidos do centro histórico. Foi ali que, em 1882, o cearense Neutel Maia desembarcou de canoa e fundou o Seringal Volta da Empreza, atraindo trabalhadores nordestinos para a extração do látex.
Naquele período, a região ainda pertencia à Bolívia, e o comércio da borracha — chamada de “Ouro Branco” da Amazônia — ganhava força internacional. O impasse sobre a cobrança de impostos bolivianos sobre o produto detonou um conflito armado que mudaria o destino do território.
José Plácido de Castro, gaúcho de nascimento, liderou a Revolução Acreana em 1902 e conquistou o território em pouco mais de 170 dias de combate. O Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903 com participação direta do Barão do Rio Branco, selou oficialmente a incorporação ao Brasil. Décadas depois, em 1962, o território deixou a condição de posse federal e se tornou estado.
Um roteiro histórico a poucos passos
Boa parte da memória de Rio Branco pode ser percorrida a pé, em poucos quarteirões próximos ao rio que batiza a cidade. Ali se concentram prédios, museus e espaços públicos ligados à fundação da capital e à Revolução Acreana.
O Palácio Rio Branco, sede do governo estadual desde 1930, foi projetado pelo arquiteto alemão Alberto Massler em estilo neoclássico e hoje reúne exposições sobre as 16 etnias indígenas do estado. O Museu da Borracha ocupa um casarão do centro e guarda objetos do ciclo do látex, incluindo réplicas de moradias usadas por seringueiros.
O Memorial dos Autonomistas conta a luta pela transformação do Acre em estado e abriga uma galeria de arte junto ao Theatro Hélio Melo. O Calçadão da Gameleira acompanha a margem do Rio Acre e tem como marco a árvore centenária que dá nome ao ponto mais tradicional da cidade.
Com 200 metros de extensão, a Passarela Joaquim Macedo é uma ponte estaiada exclusiva para pedestres e ciclistas que atravessa o rio. Quem caminha por essas ruas encontra, lado a lado, prédios históricos e a vida cotidiana de uma cidade que carrega o fuso horário como marca registrada.










