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El Niño: alertas antecipados podem ajudar a prevenir impactos na saúde, aponta médico

Professor da USP propõe sistema semelhante à previsão do tempo para identificar riscos à saúde e preparar a rede hospitalar antes de eventos extremos

Milena Galvão

Publicado: 13/08/2026 às 14:34

Painel

Painel "Quando o CEP Pesa Mais que o DNA", no SP2B, reuniu especialistas para discutir a relação entre ambiente, dados e saúde (Milena Galvão/DP)

O avanço do El Niño pode servir não apenas como um sinal de mudanças no clima, mas também como um alerta antecipado para o sistema de saúde. A avaliação é do médico patologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Saldiva, que defendeu, nesta quarta-feira (12), a criação de mecanismos capazes de antecipar os impactos de eventos climáticos extremos sobre a população e preparar hospitais antes que os problemas cheguem às unidades de atendimento.

A proposta foi apresentada durante o painel “Quando o CEP pesa mais que o DNA: o ambiente como dado de saúde”, realizado no quarto dia do São Paulo Beyond Business (SP2B), na capital paulista. O Diario de Pernambuco esteve presente no evento, a convite da organização, acompanhando de perto as discussões. A programação reuniu especialistas para debater como fatores ambientais, como clima, poluição, condições de vida e estresse urbano, influenciam a saúde; e como dados e tecnologia podem ser usados para prevenir doenças.

Entre os exemplos citados por Saldiva está o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e que já começa a alterar padrões climáticos no Brasil. A NOAA confirmou oficialmente o fenômeno em junho e projeta 63% de probabilidade de que ele alcance intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A Climatempo também avalia que o episódio de 2026/2027 pode atingir intensidade forte a muito forte e ficar entre os mais intensos registrados desde 1950.

Para Saldiva, a preocupação não deve se limitar aos efeitos diretos do fenômeno sobre a temperatura e a chuva. Eventos climáticos extremos podem afetar a própria capacidade de funcionamento da rede de saúde, com problemas como falta de água, energia e dificuldades de acesso aos serviços.

Por isso, o médico defendeu que hospitais se preparem antecipadamente para diferentes cenários climáticos. Uma das sugestões é a criação de um manual de ações para unidades de saúde, elaborado a partir das experiências de hospitais que já enfrentaram situações semelhantes.

Alertas antecipados

Além da preparação dos hospitais, Saldiva propôs uma mudança na forma como as informações ambientais chegam à população. A ideia é criar um sistema semelhante à previsão do tempo, mas voltado para a saúde.

A partir de dados sobre clima, ambiente e localização, o sistema poderia indicar quais problemas de saúde tendem a se tornar mais frequentes e orientar a população sobre medidas preventivas. Em vez de esperar o aumento das internações para reagir, a rede de saúde poderia agir antes, acompanhando os riscos previstos para cada região.

Segundo Saldiva, uma estratégia semelhante já foi adotada na França e conseguiu reduzir em cerca de 30% a mortalidade esperada durante eventos de calor extremo. O modelo francês foi criado depois da crise de 2003, quando aproximadamente 15 mil pessoas morreram em decorrência de uma onda de calor.

A lógica é transformar dados ambientais em informação de saúde: se é possível prever uma onda de calor, por exemplo, também seria possível antecipar quais grupos estão mais vulneráveis e preparar tanto a população quanto os serviços de atendimento.

Dados como ferramenta de prevenção

A discussão sobre prevenção também levou o painel para outro desafio: a enorme quantidade de dados produzida diariamente por dispositivos tecnológicos.

Um dos outros palestrantes do painel, Diego Aristides, sócio e executivo de tecnologia da Stellula e do The Collab, chamou atenção para a quantidade de informações coletadas por celulares, computadores, relógios e anéis inteligentes. “A tecnologia está avançando muito, mas para quem eu mando meus dados?”, questionou.

Segundo Aristides, parte dessas informações é enviada para empresas estrangeiras, o que cria uma dependência tecnológica e, na avaliação dele, reduz a soberania brasileira sobre dados produzidos pela própria população.

“O Brasil ainda não tem soberania de dados. Nós geramos uma quantidade enorme de informações através desses dispositivos, mas quando esse volume de dados vai para fora do país, nós perdemos o controle sobre o que é produzido pela nossa própria população e ficamos dependentes de tecnologias e empresas estrangeiras”, afirmou.

Para o executivo, porém, esses dados também poderiam ser usados de forma estratégica na medicina preventiva. Informações coletadas continuamente pelos dispositivos poderiam ajudar a identificar padrões e sinais de risco antes que um problema de saúde se agrave.

O painel, mediado por Carlos Souccar, head de Acesso ao Mercado da Sanofi, reforçou o papel crucial que o ambiente e as políticas públicas desempenham no bem-estar coletivo. Para Souccar, a urgência de encarar esses fatores de forma integrada resume-se à própria relação do indivíduo com o meio: “O ambiente impacta a saúde mais do que a saúde impacta o ambiente", conclui.

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