Torcedor, empresário, convocações
Tenho saudades do tempo em que éramos integrantes da classe dos senhores ouvintes. Ou seja, de torcedores que apenas tinham acesso aos jogos, no eixo Rio-São Paulo, através das rádios
Publicado: 10/06/2026 às 08:07
Futebol (Foto ilustrativa: Freepik)
Tenho saudades do tempo em que éramos integrantes da classe dos senhores ouvintes. Ou seja, de torcedores que apenas tinham acesso aos jogos, no eixo Rio-São Paulo, através das rádios. As imagens de jogos no Macaranã – o mundo esportivo se concentrava no Rio de Janeiro – eram vistas apenas no jornal que antecedia a exibição de filmes, cenas que empolgavam a platéia como se fossem atuais, os gritos emanados do espectador ao som de uma música que nunca soube o nome. Hoje, até cenas dos treinos, a gente vê e não é mais novidade.
E o pior não é isso, mas, anotem, a desconfiança dos convocados obedecerem a outras influências que não a vontade do técnico. Em linguagem clara, a indicação do empresário ser o fator da escolha da convocação. Não precisa ir muito longe. Na última Copa, a de Daniel Alves. Há quem explique? Hoje, temos mais, alguns velhos atletas, até um com problemas físicos, em tratamento, quando o técnico, ah, o técnico, arvorava que só os que estivessem com cem por cento de condição física seriam escolhidos. Um, o maior de todos, o atleta que dança passos de frevo, que dá língua a torcida, que não sabe o que é futebol há quase quatro anos, o foi, em pleno tratamento para só estar apto a jogar ainda no terceiro jogo. E outros, com mais de trinta anos, que no segundo tempo, não conseguem se locomover em campo, o que farão se escalados forem? E o técnico? Calado, sem explicação, como se o torcedor não tivesse memória.
Em outra área, o caso de um promotor de justiça, que não recorreu do resultado de um júri, onde o acusado, notoriamente autor do assassinato, foi absolvido. Destilou desculpas, em entrevista em rádio, de ter mil razões a fim de não levar o seu inconformismo para a instância superior. Um eleitor, o que lhe tinha dado um fusca para não recorrer, abriu a boca: era oitenta mil razões, calcando-se no preço do veículo ofertado. Não houve réplica. O fato passou.
Hoje, não é o adepto do chefe político. É o empresário do atleta. Se é, ou não é, a gente só pode entender algumas convocações como tendo o empresário por trás, segurando o papel do discurso do técnico, como vi em charge político, tendo por alvo o Presidente da República discursando. Não dá para acreditar. Em tudo, a velha verdade: o torcedor é o bobo da corte. Eu, você, nós.
Vladimir Souza Carvalho - Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras