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Um subtipo de sebastianismo

D. Sebastião não optou pela companhia feminina

Vladimir Souza Carvalho

Publicado: 27/05/2026 às 11:54

Neymar, camisa 10 da Seleção Brasileira/Lucas Figueiredo/CBF

Neymar, camisa 10 da Seleção Brasileira (Lucas Figueiredo/CBF)

D. Sebastião não optou pela companhia feminina. Foi atraído pela guerra, não pesando as condições e circunstâncias totalmente desfavoráveis, e, ademais, no campo do adversário. Fechou os olhos, teimosamente, para o conselho de seus generais. Resultado: morreu em plena batalha, diferentemente dos reis em filmes americanos, que sempre escapam, apesar da cavalaria não aparecer para salvá-los no momento certo.


O cadáver de Sua Majestade não foi visto por nenhum soldado, o que, aliás, era proibido. Resultado: criou-se o sebastianismo, ou seja, a espera do retorno de D. Sebastião, que, cá para nós, não vai conseguir escapar das chamas do inferno. Até o século dezenove, no sertão - sergipano e baiano - a crença se mantinha viva. Hoje, o sebastianismo é página virada na literatura. O rei-guerreiro vai continuar bem morto, para o sempre do sempre, amém. Quem o mandou ir mexer com caixa de marimbondo?!


Contudo, aconselha-se cautela com o andor que o santo é de barro. O sebastianismo, ou subtipo, brotou em circunstâncias outras, com a aproximação da Copa do Mundo. Um atleta, logo o Peter Pan, que não joga há quase quatro anos, deve entrar em campo, e, mais do que isso, resolver o problema da nossa seleção, fazendo gols suficientes para a obtenção da vitória, jogo por jogo. É o que justifica sua convocação, segundo circula nas mídias sociais. Excelente. É certo que os russos [se lembram da pergunta de Garrincha, na Copa de 1958?] não foram consultados, ainda mais se cuidando de um herói infantil que, como toda criança rica e cheia de vontade, bate o pé no chão, eu quero, eu quero, e se for contrariada, bate na cara de qualquer um. E como o chão que Peter Pan pisa se transforma em dinheiro, sua vontade é religiosamente satisfeita.


Convocou-se hoje o craque de décadas atrás, que não mais existe. O retorno não será possível, como não foi o de D. Sebastião. A esperança em quem, no momento, faltam condições física/técnica, é andorinha que não faz verão. Oxalá a Copa me desminta.


Vladimir Souza Carvalho 
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

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