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Animação ‘Ana, En-Passant’ abre o mês da consciência negra com olhar sobre ancestralidades femininas

Estreia da diretora mineira Fernanda Salgado é o primeiro longa animado brasileiro de uma cineasta negra a ganhar lançamento no circuito comercial; no Recife, o filme tem previsão de estrear ainda em novembro

Por André Guerra

Filme utilizou a técnica da rotoscopia, em que os animadores desenham a partir de uma filmagem real (live-action)

Abrindo o mês da Consciência Negra entre as estreias da semana, “Ana, En Passant” é uma bonita surpresa do cinema nacional neste final do ano. Dirigido por Fernanda Salgado, primeira mulher negra a lançar um longa de animação no circuito comercial brasileiro, o filme utiliza uma técnica célebre do desenho animado, a rotoscopia, para dar vida a um enredo que perpassa temas como saudade, pertencimento e compartilhamento de memórias femininas.

A personagem do título é uma jovem franco-brasileira (interpretada por Jéssica Pierina) que, após a morte da avó (Zezé Motta), recebe uma caixa com duas chaves, uma carta e um endereço. Na busca por desvendar o passado, ela viaja até o local, em Belo Horizonte, onde conhece Alice, que mora no apartamento da falecida, e passa a compreender melhor suas origens.

“Ana é uma personagem inquieta, sempre em fluxo. Ela está em busca de algo que não sabe bem o que é. A ideia do filme começa justamente nela, desdobrando-se a partir desse encontro com Alice, do que as conversas das duas revelam”, explica Fernanda Salgado em conversa com o Diario. “A avó se torna essa memória viva na trama e ganha um corpo narrativo importante também à medida que o projeto evolui. Vira uma história bem mais universal sobre a ancestralidade de mulheres negras e suas subjetividades, identidades e incertezas”, acrescenta a diretora.

A rotoscopia é um método que consiste em animar sobre imagens previamente registradas para reproduzir com maior fidelidade os movimentos. Os atores filmaram suas cenas normalmente e, ao final, tiveram a oportunidade de ver um resultado totalmente novo.

“Ficou ainda mais bonito do que esperava. Só conheci Fernanda por meio dos testes, então foi lindo participar das gravações e, dois anos depois, lembrar de pequenos gestos que fiz a partir da dimensão animada”, ressalta Jéssica Pierina, que, além da protagonista, também vive Alice. “São duas personagens muito distintas na forma como se colocam, mas interpretá-las acabou sendo um processo bastante natural e espontâneo”.

A técnica utilizada pela produção é descrito por Fernanda Salgado como uma das mais possibilitadoras do formato da animação, já que permite os realizadores de seguir à risca as imagens já estabelecidas e, por outro lado, de criar algo completamente diferente. "Estamos passando por um momento lindo na animação brasileira e temos esperança de poder continuar produzindo, expandindo as possibilidades estéticas e narrativas. Acho que é um formato que dá espaço para inúmeras formas de pensar o cinema", destaca Fernanda. 

Apesar do pioneirismo como mulher negra ganhando um lançamento aberto no circuito comercial com um longa de animação, a cineasta pontua que outras realizadoras com projetos encaminhados e exibidos em festivais estão prestes a ganhar as telas também. "No ano passado, Letícia Simões exibiu 'Glória e Liberdade' no Festival Olhar de Cinema de Curitiba e o filme já deve entrar em cartaz no ano que vem, além de Brenda Lígia, ao lado de Edu Felistoqueo, que estão se preparando para lançar o pernambucano 'O Amadeo e o Hipotético Mundo Novo', que já rodou o Brasil e o exterior", salienta.