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Autor de quadros viralizados, Jeff Alan transforma comunidade do Barro em polo de arte e resistência

Artista plástico realizou o sonho de comprar uma casa no bairro onde nasceu e cresceu para transformá-la em ateliê e espaço de exposição, com atividades formativas gratuitas

Por André Guerra

Há mais de um ano, o artista pernambucano Jeff Alan realizava um sonho ao comprar uma casa e fazer dela não apenas um espaço de exposição, mas também de produção e comunhão artística. Localizado no Barro, na Zona Oeste do Recife, o espaço se tornou referência na região, desenvolvendo atividades formativas que fazem parte da carreira do pintor desde sempre. Depois de ganhar força nas redes sociais no último mês com uma série de obras que ilustram jovens negros com a bandeira brasileira em ato de resistência cultural e social, o pintor, de 35 anos, também vem atraindo a atenção mundo afora.

“Eu desenho desde criança e meu sonho sempre foi viver de arte. Agora, quero mais do que nunca compartilhar esse sonho e mostrar para os mais novos, principalmente, como isso é possível”, enaltece ele, em conversa com o Diario, ao falar da Casa-Ateliê Jeff Alan, que possui atualmente uma sala com dois cômodos, ocupada com exposições e ambientes para criação. Na parte de trás, ainda em fase de finalização das obras, está uma área externa onde estão previstas projeções e outras novidades. De acordo com o artista, seu investimento total no espaço foi de R$ 500 mil.

A casa está aberta de 10h às 19h, de terça a sábado, e também mediante agendamentos. As peças de Jeff já carregam em seus traços figurativos a dimensão política de um homem negro nascido e criado na comunidade do Barro, onde decidiu expandir seu trabalho. Com a série de quadros recentes, que refletem o período eleitoral e provocaram comoção nas redes sociais ao representar a juventude negra brasileira alimentando o sonho de um país melhor, suas ideias para impulsionar sua obra se multiplicaram, assim como seu entusiasmo.

Promover oficinas e residências, inclusive para artistas internacionais, é, para ele, o cumprimento satisfatório de um dever. “Aqui é um lugar de prosperidade. Artistas que passam por aqui têm não só conseguido boa repercussão com suas peças, mas também levado consigo uma impressão incrível da cultura brasileira”, salienta.

As reformas na Casa-Ateliê começaram em julho de 2025, mas Jeff Alan só começou a usar o espaço para produzir no início deste ano, quando transferiu seu material de pintura para o local. “Foi nessa nova fase da minha carreira, já com a casa, que, de forma ainda muito tímida, comecei a investigar as raízes brasileiras. A repercussão das peças com as bandeiras do Brasil foi a maior que eu já tive até hoje e acho que dialoga justamente com minha presença aqui”, destaca.

O pintor tem motivos para acreditar nisso. As telas espelham muito de sua vontade vibrante de tornar a arte parte da formação da comunidade do Barro e, desde que inaugurou seu novo espaço, vem notando os reflexos dessa construção entre os moradores. “É um lugar grande, que frequentemente deixo aberto para que as pessoas entrem, conheçam, perguntem, se envolvam. Já há vários vídeos divulgados comigo pintando enquanto as crianças estão se apropriando desse ambiente com outras atividades à mesa”, conta Jeff.

Para os quadros, a própria rua se transforma em inspiração. Apesar das viagens para exposições, o manancial criativo do artista permanece ali, ao seu lado, e ter concebido seu ateliê nesse local denota o fortalecimento do próprio bairro e da ideia de descentralizar a produção das artes plásticas. Algumas obras estão à venda, mas, de acordo com Jeff Alan, ainda há trabalho a fazer. Tanto as aquisições de peças quanto as inscrições para oficinas, todas gratuitas, estão sendo feitas de forma espontânea por enquanto. Há planos de conceber em breve uma biblioteca no quarto que atualmente serve de ambiente reservado para os artistas residentes.

Cheio de planos para fintar essa nova fase da carreira, ele não pretende parar por aí e afirma que um dos próximos passos é, assim que possível, comprar outro terreno nas proximidades para expandir o projeto. Sua série recente provou que aquele desejo antigo, o de instrumentalizar seu talento para gerar um impacto prático em sua vida e na comunidade, é tão concreto quanto cada tijolo da Casa-Ateliê.

“Trazer essa bandeira nesses novos trabalhos e trocar as palavras ‘Ordem e Progresso’ por ‘Sonhos’ significa uma nova forma de existir e pertencer no nosso país. Manter o ato de sonhar vivo e seguro em tempos como esse é uma forma de coragem. Eu entendo que a minha produção é, em si, uma ferramenta de transformação social”, reforça Jeff Alan.