Há 45 anos em PE, holandês Roberto Ploeg reúne memórias do povo e da natureza do estado em exposição
Mostra 'Silvas e Selva' abre neste sábado (7), das 14h às 18h, no Instituto Ploeg, no bairro da Boa Vista, no Centro do Recife
Elementos da natureza e memórias vivas de uma cidade compõem quase toda a obra do pintor holandês Roberto Ploeg, que chegou a Pernambuco em 1979 e, na nova morada, fez decolar de vez o seu espírito artístico. Ao longo dos 35 anos que tem passado com sua família no Sítio Ouro Verde, em Olinda, ele testemunhou uma série de mudanças nas pessoas e nas paisagens e, agora, na exposição “Silvas e Selva”, traduz em pinturas a óleo todo esse imaginário que marcou sua trajetória pessoal e criativa. A mostra abre neste sábado (7), das 14h às 18h, no Instituto Ploeg, no bairro da Boa Vista, no Centro do Recife, onde segue em cartaz até 19 de dezembro.
Apesar das boas lembranças, a exposição nasce também de um momento delicado. Em abril deste ano, Ploeg sofreu um infarto e passou a desenvolver um olhar mais meditativo sobre sua história, seus vínculos e a própria transitoriedade da vida. Ele nasceu em 1955, em Valkenburg, no extremo sul dos Países Baixos, vindo ao Recife aos 24 anos para fazer mestrado em Teologia da Libertação.
Em conversa com o Diario, ele relembra como a vinda ao Brasil e a permanência no território pernambucano desabrocharam seu ofício. “Foi a partir da vivência na cidade, observando o nascer das árvores, ouvindo as pessoas falarem, estudando e cultivando memórias artísticas que percebi que deveria profissionalizar meu trabalho”, afirma o pintor, que atuou durante anos em Comunidades Eclesiais de Base e pastorais populares no Nordeste, ao lado da companheira, Eliana.
Olinda foi essencial para que Ploeg se aproximasse das artes visuais, especialmente após frequentar cursos em instituições culturais nas duas cidades-irmãs. Ele aponta que esses anos iniciais no novo país foram transformadores de diversas maneiras. “Já no final dos anos 1980, eu e ela desenvolvemos várias iniciativas de educação popular através de organizações da sociedade civil. E foi somente em 1996 que realmente passei a fazer exposições e a me dedicar a essa carreira”, conta o artista.
Mencionando um dos maiores nomes de seu ofício como exemplo, ele diz: “Vincent Van Gogh passou mais da metade da vida sem pintar e, sim, consumindo arte. Já estou com mais de 70, quase o dobro do que ele viveu, e a maior parte da minha trajetória também foi observando. Quero continuar produzindo por pelo menos mais 10 anos”.
O título da sua mais nova exposição, “Silvas e Selva”, se refere ao mesmo tempo aos muitos Silvas que conheceu ao longo de todo esse período — tendo como ponto de referência o próprio presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva — e à natureza que rodeia o país e a zona rural onde vive. Perceber ciclos começando, acontecendo e terminando influenciou nesse processo de produção das 23 telas inéditas que compõem a mostra.
Cenas cotidianas, rostos e registros da vegetação que guardam com afeto o sentimento da passagem do tempo são os principais elementos trazidos pelas novas peças. “Nenhuma paisagem é mais importante para mim do que a figura humana, que eu estou sempre observando, absorvendo e imaginando. Trata-se de um grande paradoxo: quanto mais observamos a realidade e tomamos tempo para absorvê-la, mais a gente imagina e cria”, revela Ploeg, que mantém a casa do seu Instituto desde 1999, como espaço ligado à educação popular e aos movimentos sociais.
A partir de 2024, o lugar passou a funcionar como ateliê, local de realização de cursos de artes e de exposições.