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Novo 'Razão e Sensibilidade' foca no amadurecimento feminino para atualizar história clássica

Geogia Oakley dirige adaptação do emblemático romance de Jane Austen e investe em abordagem naturalista e com visual lavado, preservando base da obra original; filme entra em cartaz nesta quinta-feira (29)

Por André Guerra

Daisy Edgar-Jones e Esmé Creed-Miles interpretam as duas irmãs representadas pelo título

Publicado originalmente em 1811, “Razão e Sensibilidade” foi o primeiro sucesso editorial da carreira de Jane Austen, que depois lançaria “Orgulho e Preconceito” (1813) e “Emma” (1815). Apesar de não ter a mesma influência pop de outros clássicos do período, o livro já foi adaptado várias vezes em projetos para TV. Em 1995, ganhou as telas com o aclamado filme homônimo estrelado e escrito por Emma Thompson, que levou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Mais de 30 anos depois, a história retorna aos cinemas em uma tentativa de modernização sob um olhar ainda cheio de delicadeza.

A narrativa segue a base da obra e acompanha as irmãs Dashwood, Elinor (Daisy Edgar-Jones) e Marianne (Esmé Creed-Miles), que são obrigadas a deixar sua antiga residência após a morte do seu pai. Junto com a mãe, elas perdem a casa para o filho do primeiro casamento do patriarca e ficam completamente sem estabilidade. Tudo o que Elinor tem de racional, Marianne tem de emocionada e, de diferentes maneiras, portanto, cada uma vai se envolver com complexas situações românticas. A primeira se apaixona por Edward Ferrars (George MacKay), que já está comprometido, e a segunda acaba se aproximando de John Willoughby (Frank Dillane) e também do coronel Brandon (Herbert Nordrum).

Na adaptação de 1995, o diretor Ang Lee equilibrava a sua abordagem romântica e elegante com o humor pontual que o texto pede. “Razão e Sensibilidade”, afinal, resume bem a base temática que guiaria os principais romances de Jane Austen: dilemas morais da burguesia, famílias enfrentando decadência econômica e, principalmente, mulheres divididas entre o amor e a reputação. Nesta versão, comandada por Georgia Oakley (do aclamado drama “Blue Jean”), esse espírito da romancista inglesa é mantido, enquanto alguns elementos cruciais da trama são alterados.

Assinado por Diana Reid, o roteiro preserva aspectos essenciais da premissa e da personalidade das protagonistas — o que, afinal, dá título ao filme. O desenrolar da jornada das irmãs, no entanto, é colocado em constante paralelo, com tempo de tela praticamente idêntico para Elinor e Marianne. Não apenas a relação entre as duas é fortalecida com essa decisão como o apelo emocional de “Razão e Sensibilidade” se torna ainda mais feminino, mesmo que, para tanto, a equipe criativa precise sacrificar situações que podem irritar aqueles que medem qualidade por fidelidade.

As mudanças não se comparam com aquelas feitas no mais recente “O Morro dos Ventos Uivantes”, controversa adaptação do livro de Emily Brontë que a cineasta Emerald Fennell admitiu ser praticamente uma visão alternativa hiperestilizada. No conteúdo, Georgia Oakley não satiriza o material nem abandona os conflitos que norteiam o romance. Na forma, ela conduz o elenco com uma afetação emocional maior em relação à versão de Ang Lee e apela a cores lavadas, cenários mais escuros e um despojamento nos figurinos que confere um aspecto pretensamente realista à situação vivida pelas irmãs.

Apesar de uma câmera mais nervosa, as composições visuais têm valor significativo aqui, valendo-se tanto da excelente direção de arte quanto da fotogenia das duas atrizes principais. Apesar do inegável talento dramático, a escalação de Daisy Edgar-Jones para esse tipo de personagem, equilibrada entre a racionalidade e o amadurecimento emotivo, começa a dar sinais de cansaço em “Razão e Sensibilidade”. Já Esmé Creed-Miles abraça sem temor o sentimentalismo de Marianne e responde por algumas das cenas mais carregadas do filme.

Distintas maneiras de atualização ou modernização vêm prevalecendo nos últimos anos. Em um trabalho como “Emma”, de 2020, a diretora Autumn De Wilde encena o universo de Austen pela lógica da artificialidade deliberada, expondo a superfície de aparências vivida pelas personagens. Já em uma sátira romântica como “Fire Island”, de 2022, a estrutura de “Orgulho e Preconceito” é totalmente repensada pelo cineasta Andrew Ahn a partir de uma comunidade gay dos Estados Unidos.

O caminho de “Razão e Sensibilidade” é pelo equilíbrio do clássico com um naturalismo contemporâneo. Suas proposições são válidas e bem-intencionadas e a execução, correta — ainda que dificilmente consiga o lugar privilegiado na história que grandes adaptações conquistaram.