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Novo "O Morro dos Ventos Uivantes" é versão fabular e extravagante do clássico

Margot Robbie e Jacob Elordi estrelam controversa nova adaptação de "O Morro dos Ventos Uivantes", dirigido por Emerald Fennell, de ‘Bela Vingança’ e ‘Saltburn’

André Guerra

Publicado: 11/02/2026 às 06:00

Escalação de Jacob Elordi como Heathcliff gerou polêmica, já que o personagem é descrito como de pele escura na obra original/Warner/Divulgação

Escalação de Jacob Elordi como Heathcliff gerou polêmica, já que o personagem é descrito como de pele escura na obra original (Warner/Divulgação)

Das dezenas de adaptações cinematográficas de "O Morro dos Ventos Uivantes", esta versão protagonizada por Margot Robbie e Jacob Elordi, em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (12), deve se tornar a mais controversa. E não é coincidência o fato de a direção ser, desta vez, de Emerald Fennell. Na verdade, o projeto é menos uma adaptação pretensamente definitiva de uma das mais conhecidas narrativas de toda a literatura e mais uma fabulação hiperestilizada dela.

Lançado em 1847, o livro de Emily Brontë atravessou os séculos, rendendo tantas leituras e reimaginações quanto possível. A realizadora britânica, que venceu o Oscar 2021 de Melhor Roteiro Original por "Bela Vingança", se apropria da premissa de "O Morro dos Ventos Uivantes" e, apesar da mesma estrutura-base, faz um filme inteiramente seu — o que já é esperado provocar reações polarizadas.

 

Na trama, novamente, Catherine e Heathcliff vivem juntos desde pequenos, sendo ele um órfão adotado e explorado pelo pai dela. A amizade evolui para uma paixão intensa, impedida de ser vivida quando Cathy decide se casar com o abastado Mr. Linton. Rejeitado, o jovem desaparece mundo afora, enquanto sua grande paixão vive anos com o novo marido. O retorno do agora rico Heathcliff, porém, vai bagunçar tudo e despertar os instintos mais obsessivos do amor que ali existiu.

"O Morro dos Ventos Uivantes" abre com a imagem de um enforcamento público ao som de gemidos e destaca, em close-up, um dado pitoresco do corpo da vítima. Essa sequência, acompanhada pelo orgasmo coletivo que toma conta do vilarejo, estabelece o tom a ser traçado por toda a projeção, e Emerald Fennellse mantém fiel a essa proposta lasciva de cinema, que já havia escandalizado em seu filme anterior, "Saltburn".

Apesar de profunda e verdadeira, a conexão entre Cathy e Heathcliff é atravessada por ódio, sentimento de abandono, frustração de classe e sede de poder. Sempre se tratou de um romance carregado de toxicidade, mas o que Fennell traz aqui é uma camada extra de fetiche e fluidos corporais. A diretora compreende que a base do amor em "O Morro dos Ventos Uivantes" já é apodrecida em violência e subjugação desde a infância dos protagonistas (fase em que são interpretados pelos excelentes Charlotte Mellington e Owen Cooper). E, ciente de que Margot e Jacob estão entre os astros mais cobiçados hoje, ela intensifica a sensualidade deles sem fugir da morbidez da história.

No auge da sua famigerada vocação pop, Fennell às vezes substitui a construção dramática sólida das situações por imagens com ares de videoclipe, especialmente nas passagens de tempo embaladas por canções originais de Charli XCX, o que dilui parte do impacto dos reencontros e da densidade do sofrimento. Ela não se aprofunda tanto quanto promete, inclusive, na esfera sadomasoquista latente da adaptação, mas enfatiza bem o desejo sexual como motor narrativo — levando os rumos da segunda metade, sobretudo, a caminhos drasticamente distintos.

A estética exuberante não poderia dialogar melhor com a loucura do casal. No lugar de provocar o maravilhamento, a artificialidade de conto de fadas da direção de arte sufoca os personagens em vermelhos-sangue e azuis escuros encardidos. É um amor doente, mas que encontrou neste "O Morro dos Ventos Uivantes" (as aspas são do próprio título original) uma cineasta que não faz pouco dele e, ao mesmo tempo, está disposta a expor e pulverizar a sua perversidade.

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