° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Horror grotesco e ousadia narrativa surpreendem em ‘Cara-de-Barro’, filme sobre origem de vilão do Batman

Em cartaz nos cinemas, novo filme do Universo DC é dirigido por James Watkins (de 'A Mulher de Preto) e escrito por Mike Flanagan (de 'A Maldição da Residência Hill')

Por André Guerra

Tom Rhys Harries interpreta ator que tem seu rosto desfigurado por mafioso e, no tratamento, adquire poderes aterrorizantes

Nem sempre menos é mais. No caso de adaptações de HQs, no entanto, sobretudo no universo da DC Comics, quase invariavelmente os resultados realmente satisfatórios vêm dos projetos autônomos, enxutos e econômicos. Após o investimento colossal em um título como “Supergirl” se provar um fiasco, é um alívio ver que a marca ainda aposta em produções menores. “Cara-de-Barro”, que estreia nesta quinta-feira (21), comprova a tese e vai até um pouco além.

Nesta primeira adaptação para o cinema do vilão do universo de Batman, a história acompanha o ator Matt Hagen (vivido por Tom Rhys Harries), que acaba de conquistar sua primeira indicação ao Oscar e se prepara para um novo momento de sua carreira. Tudo cai por terra quando ele cruza o caminho de um chefão mafioso, que se vinga desfigurando o seu rosto. Totalmente sem perspectiva de recuperar a antiga aparência e com seus contratos todos cancelados, ele busca a ajuda clandestina da cientista Caitlyn Corr (Naomi Ackie), que recorre a um perigoso tratamento com nanocélulas. O resultado, porém, não sai bem como ele espera.

Pela primeira vez em alguns anos, um filme baseado em quadrinhos lançado por um dos dois grandes estúdios dominantes consegue ser ao mesmo tempo clássico, enquanto história de origem, e genuinamente surpreendente. A imprevisibilidade dos efeitos colaterais do tratamento do protagonista gera pelo menos três ótimas viradas na trama e, mais importante, se desdobra em sequências de violência que prometem chocar até os fãs de horror mais calejados.

Com roteiro escrito por Mike Flanagan (de séries de sucesso como “A Maldição da Residência Hill” e “Missa da Meia-Noite”) e direção assinada por James Watkins (de “A Mulher de Preto” e do remake “Não Fale o Mal”), fica claro que a aptidão de “Cara-de-Barro” para o gênero tem nomes e sobrenomes. Não apenas o horror permite mais liberdade criativa; o custo de produção estimado em US$ 30 milhões — comparado aos valores megalomaníacos de “Superman” (US$ 225 milhões) e “Supergirl” (US$ 170 milhões) — deixa os realizadores muito mais à vontade para correr riscos, tanto no uso da violência gráfica quanto na estrutura narrativa.

O fato de Matt Hagen/Cara-de-Barro não fazer parte nem de longe do primeiro escalão de vilões do universo DC é outra imensa vantagem. A baixa expectativa da plateia diminui a pressão em torno do direcionamento do personagem e evita preocupações com conexões futuras da franquia, tornando o projeto conciso, objetivo e autossuficiente.

A concentração em poucos personagens é um trunfo à parte. Enquanto as adaptações de HQs de produção ambiciosa buscam a expansão e, frequentemente, caem na dispersão, “Cara-de-Barro” está mais interessado na dinâmica humana brutal entre Matt e Caitlyn. Tom Rhys empresta um olhar perturbador ao protagonista, e muito do horror corporal do filme depende de sua expressividade. Naomi Ackie, ótima presença no papel da cientista, tem bem mais a fazer no enredo do que orbitar uma jornada romântica.

Toda vez que os acontecimentos ameaçam caminhar na destruição grandiloquente tão comum em filmes de super-herói, o roteiro e a montagem se voltam para essas relações que movem o drama. Sobra pouco espaço para o humor, o que, nesse caso, é um respiro em uma lógica industrial tão pensada pelos alívios cômicos calculados. 

Ao lado do diretor de fotografia Rob Hardy, responsável por longas como “Ex Machina” e “Aniquilação”, James Watkins faz belíssimos jogos de luz e sombra nos cenários claustrofóbicos, mas brilha particularmente na orquestração de uma das mais bizarras sequências de luta de qualquer adaptação de quadrinhos. E, embora Gotham City não ganhe o mesmo destaque de filmes como “Coringa” e “Batman”, as cenas externas são perfeitamente evocativas de seu clima de destruição.

Definitivamente, não é “Cara-de-Barro” que vai alavancar o novo universo DC nos cinemas, agora sob o comando de James Gunn e Peter Safran. Mas é justamente a isenção dessa responsabilidade que o torna tão revigorante.