Luedji Luna traz ao Recife turnê que encerra ciclo de trilogia sobre amor, ancestralidade e desejo
Após um ano da primeira apresentação, Luedji Luna traz turnê com repertório amadurecido e chancelado pelo Grammy Latino para show único na Concha Acústica da UFPE
O Norte e o Nordeste são as casas definitivas onde deságua a trilogia marítima de Luedji Luna. O manifesto artístico — iniciado com “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água" (2021) e coroado com “Um Mar Pra Cada Um” e “Antes Que A Terra Acabe” (2025) — foi planejado desde o início para pulsar nesses territórios, traduzindo o desejo da cantora baiana de saudar suas raízes geográficas e afetivas.
A turnê, que tem apoio do Natura Musical, já passou por Fortaleza, São Luís e Belém e chega ao Recife neste sábado (16), às 22h, para uma apresentação única na Concha Acústica da UFPE. Os últimos ingressos estão disponíveis a partir de R$ 130, na plataforma Shotgun.
O desenho dessa rota exclusiva responde a um chamado antigo. Luedji é fruto da vivência em uma Salvador pulsante, sob a influência de pais militantes do movimento negro, o que sedimentou sua visão de arte como um território de afirmação política e identitária.
Posteriormente, seus primeiros passos na Escola Baiana de Canto Popular foram o prenúncio de uma carreira que nunca desatou o cordão umbilical com a cultura afro-nordestina, especialmente na forma como os ritmos do candomblé e do ijexá se fundem ao seu jazz contemporâneo. Uma alquimia musical que arrebatou o público pernambucano na mesma Concha Acústica no ano passado e deve elevar o sarrafo neste sábado.
A diferença crucial desse retorno após um ano está na maturidade que o projeto ganhou após rodar o país. Luedji Luna volta ao Recife em um momento de consagração internacional: “Um Mar Pra Cada Um”, chega chancelado pela recente conquista do Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira/Música Afro-Portuguesa Brasileira.
Muito além do prêmio, o trabalho se consolidou nos palcos como um manifesto nas nuances do desejo que corta caminhos para romper com os estereótipos historicamente associados às narrativas amorosas de mulheres negras.
No palco, a calmaria e a tempestade dos dois trabalhos se costuram em uma atmosfera envolvente. Conectar a narrativa de ambos, em um intervalo ousado de trinta dias, foi um movimento coerente para uma artista que nega caminhos fáceis, usando o neo soul, o hip-hop e o jazz para ressignificar a identidade da MPB.
Quando “Um Mar Pra Cada Um,” foi lançado, a vírgula no encerramento do título parecia apenas um detalhe estilístico, mas logo se revelou um sinal de continuidade com “Antes Que A Terra Acabe”, disponibilizado um mês depois. Em comum, as obras tratam de uma profunda reflexão introspectiva sobre o amor e da busca por afeto.
Dentro desse mergulho nas águas do desejo, “Um Mar Pra Cada Um,” se destaca por sua produção refinada e participações cirúrgicas. O trabalho de abertura abre caminhos para encontros vocais e instrumentais de peso, como na faixa “Abaque”, que conta com o saxofone da britânica Nubya Garcia e adiciona uma camada jazzística ao projeto.
Já em “O Amor É Uma Invenção”, a fusão de vozes potentes com Liniker transborda um R&B intimista e caloroso, enquanto o legado da historiadora e ativista Beatriz Nascimento coroa o conceito da faixa “Baby Te Amo”.
Através de uma reconstrução por inteligência artificial autorizada pela família, a voz da pensadora é recuperada para recitar o poema homônimo sobre memória, ancestralidade e resistência.
Por outro lado, “Antes Que A Terra Acabe” introduz o elemento terra com toda a aspereza e as realidades cruas encontradas na busca pela paixão verdadeira.
O repertório mergulha em contradições e imperfeições para, logo em seguida, desbancar na luz, na alegria e no prazer, abraçando o hedonismo e a sedução como partes integrantes da natureza humana.
O requinte de “Apocalipse” e o flerte com o profano em “Pavão” materializam o ápice desse trabalho, que não tem medo de dar espaço aos desejos mais íntimos e primitivos.
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