Visual claustrofóbico ajuda narrativa de 'Dentro da Baleia' a não naufragar no lugar comum
Protagonista do drama de sobrevivência, inspirado em best-seller homônimo, é engolido vivo por uma cachalote ao tentar encontrar restos mortais do pai no oceano
Há décadas o cinema explora diferentes situações de sobrevivência no oceano, mas "Dentro da Baleia", já em cartaz nos cinemas, se esforça para oferecer uma experiência sufocante única. Inspirado no livro homônimo de sucesso, escrito por Daniel Kraus e lançado em 2023, o filme leva o título a sério e tenta desdobrar a situação absurda que é seu ponto de partida do modo mais naturalista que consegue. O êxito é parcial.
Tanto na obra original quanto aqui, na adaptação cinematográfica, Jay (vivido por Austin Abrams, em seu segundo filme de sobrevivência em um único mês, após estrelar "Resident Evil") é um mergulhador que, na busca pelos restos mortais do pai (Josh Brolin) no litoral da Califórnia, acaba no interior de uma imensa baleia-cachalote. Com pouco menos de uma hora de oxigênio, ele começa uma luta desesperada entrecortada pelas lembranças dos ensinamentos paternos sobre o mar.
Já na descrição do enredo residem tanto a principal força quanto a maior fragilidade de "Dentro da Baleia". Embora o diretor Brian Duffield (do terror de alienígena "Ninguém Vai Te Salvar", de 2023) demonstre grande capacidade técnica para equilibrar a claustrofobia extrema com a clareza da encenação, ele depende muito dos flashbacks do protagonista para sustentar o ritmo da história.
Duffield adaptou o roteiro em parceria com o próprio autor do livro, e o excesso de respeito ao material-base pode ter enrijecido a estrutura do filme. Para cada uma das cenas mais agonizantes — e há várias eficientes, em particular a excelente sequência em que Jay acorda em pânico dentro do animal —, a montagem atravessa longas memórias para ilustrar a relação conturbada do protagonista com o pai.
O diretor filma essas cenas introdutórias com planos fechados quase sempre iguais. Conceitualmente, é possível defender que ele busca reproduzir a lógica de confinamento do interior da baleia em toda a existência de Jay anterior àquele dia. O problema desse núcleo "humano", porém, é que seu conflito parece um lugar-comum maior do que a cachalote. Como em quase todo survival thriller médio de estúdio, a situação toda serve de alegoria para uma barreira emocional que o herói precisa ultrapassar.
Em um suspense oceânico como "Águas Rasas" (2016), com o qual este possui similaridades, o aspecto clichê do drama familiar não compromete o resultado porque o apelo era realmente focado na ação prática e na estilização. Tente-se, novamente, entender as razões de Brian Duffield. Seu desafio para manter os olhos do espectador concentrados na experiência em um longa ambientado entre paredes viscosas de uma baleia é bem maior do que o de Jaume Collet-Serra naquele filme de tubarão com Blake Lively.
O curioso é que o cineasta, junto à equipe de efeitos visuais e sonoros, realmente se sai muito bem quando se concentra nos componentes práticos da produção. A iluminação azulada provoca uma tensão que reforça o pânico; a mudança para outra paleta de cores cria um contraste apropriadamente assustador quando o filme precisa; o uso da lente grande-angular em planos-detalhe valoriza a aproximação do público com as dores físicas.
Infelizmente, o texto grita por uma significação poética que insiste em se explicar. E, desse modo, a experiência domestica a plateia, oferecendo respiros que cortam um mergulho radical nas entranhas da criatura. Justiça seja feita, essa necessidade alegórica vem claramente sob certa demanda contemporânea e afeta diversos outros projetos que poderiam se valer de uma ação objetiva. O curioso de "Dentro da Baleia" é que ele vira um grande paradoxo: quanto mais propõe uma experiência inédita, mais naufraga na previsibilidade.