Em cartaz no Recife, ‘A Invenção do Nordeste’ ironiza clichês sobre a região para quebrar estereótipos
Montagem do Grupo Carmin discute como o preconceito regional moldou a imagem do Nordeste no imaginário nacional e defende a arte como ferramenta para desconstruir estereótipos
“O Brasil não conhece o Brasil.” A contradição exposta na letra de “Querelas do Brasil” (1978) — clássico de Aldir Blanc e Maurício Tapajós imortalizado por Elis Regina — resume a tese que o Grupo Carmin (RN) leva ao palco da CAIXA Cultural Recife com “A Invenção do Nordeste”.
O espetáculo investiga como o preconceito histórico rotulou a região e reduziu sua imensa diversidade cultural a velhos clichês como o sertanejo e o cangaço. A temporada começa nesta quinta-feira (15) e segue até 24 de outubro, com apresentações de quinta a sábado, sempre às 19h30. Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada). As vendas acontecem no site do espaço e serão reabertas nesta sexta-feira (16), ao meio-dia.
Misturando reflexão e humor para questionar os estereótipos associados à região, a trama acompanha dois atores nordestinos que participam de uma seleção para uma grande produção nacional e se deparam com as exigências esdrúxulas do mercado audiovisual, que lhes impõe o desafio absurdo de provar que são “os mais nordestinos possível”.
“Somos nove estados e, ainda assim, continuamos limitados a esse espaço”, lamenta a atriz e diretora Quitéria Kelly. Ao longo dos anos, o espetáculo foi sendo atualizado a partir das observações registradas em diferentes estados por onde passou desde a estreia, em 2017.
A partir dos estudos do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, da Universidade Federal de Pernambuco (UFRN), “A Invenção do Nordeste” também aborda como a literatura e o cinema ajudaram a construir e perpetuar clichês, a exemplo das representações do sertanejo em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.
“A arte alimenta esses estereótipos, mas só a arte também pode desfazê-los. É o que estamos tentando fazer com o espetáculo: criar novos imaginários para o Nordeste e para o povo nordestino”, explica Quitéria.
Na avaliação da diretora, o cinema pernambucano é um exemplo de como retratar a região para além dos estereótipos historicamente reforçados por produções do Sudeste. “Não fala apenas da nossa realidade, mas é uma produção conectada ao que acontece lá fora”, observa.
“Precisamos reeducar o país para que o Nordeste seja visto por uma perspectiva mais ampla, sem esse olhar de pena, como se ainda estivéssemos com triângulo, pandeiro e chapéu de couro na cabeça. Esses elementos também fazem parte da nossa cultura, mas não somos só isso”, conclui.
- Prêmio Jabuti tem Adélia Prado, Leandro Karnal e Milton Hatoum entre finalistas; veja lista
- The Strokes declaram apoio a Lula: banda posta arte política em rede social
- Exposição no Recife reúne produção inédita que atravessa Sertão e periferia
- Nova plataforma mapeia obras de arte públicas instaladas em todas as regiões de Pernambuco