Usina de Arte celebra 10 anos com instalação de Júlio Villani e livro que resgatam memória do lugar
Lançamento de livro de Bruno Albertim e nova exposição permanente de Júlio Villani marcam semana de celebração de uma década da criação do museu
Ao longo dos últimos dez anos, vem se tornando realidade o sonho de transformar um enorme espaço aberto em um ponto gratuito obrigatório de visitação para amantes das artes. O que era um antigo armazém de açúcar com mais de 600 metros quadrados se transformou na Usina de Arte, revelando vários artistas que contribuíram, nesse período, com o processo de educar por meio da sensibilidade artística.
Celebrando essa década de trabalho, o museu, que fica localizado no município de Água Preta (Mata Sul de Pernambuco), lança, nesta quinta-feira (15), às 17h30, o livro “Usina de Arte: A Construção de uma Utopia” (CEPE), no Recife ExpoCenter, durante a programação do ART.PE — Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco.
A publicação é assinada pelo jornalista Bruno Albertim, que reúne os nomes, artistas, obras, cronologia histórica, imagens do espaço e apanhado de impactos sociais que formaram a instituição, idealizada por Ricardo Pessôa de Queiroz e por sua esposa Bruna Pessôa de Queiroz. O autor estará presente na ocasião para uma noite de autógrafos.
Presidente do museu desde a fundação, que hoje possui mais de 40 associados, Bruna relembra, em entrevista ao Diario, a origem de todo o trabalho. “Nossa ideia primordial sempre foi levar prosperidade novamente para aquele espaço. Quando a usina foi fechada e as chaves foram entregues à Justiça, em 1994, toda aquela comunidade entrou em um grande limbo, então reabrimos a casa e passamos a frequentá-la. Foi aí que várias pessoas começaram a bater na nossa porta pedindo para reabrir as atividades da usina”, explica Bruna.
Professores e artistas foram convidados para rodas de conversa, e debates começaram a ser realizados para que o lugar fosse aproveitado da melhor forma. Em 2016, paralelamente à consolidação de um museu de instalações permanentes, um jardim botânico começou a se concretizar como uma moldura para obras de arte contemporânea. “A troca de olhares dos expositores com as pessoas da comunidade foi essencial para que, a partir dessa construção mútua de conhecimento, o trabalho fosse montado e ganhasse essa identidade tão especial”, salienta a presidente.
Desde então, Marina Abramovi, Juliana Notari, Paulo Bruscky, Alfredo Jaar, Regina Silveira, José Rufino, Flávio Cerqueira, Liliane Dardot, Carlos Garaicoa e outros grandes nomes da arte contemporânea mundial fizeram parte da consolidação do ambicioso projeto. Para marcar esta data comemorativa, a usina inaugurou, na última terça-feira, mais uma exposição permanente, desta vez de Júlio Villani. Nascido em Marília, no interior de SP, mas residente na França, o artista traz para o espaço a instalação “Museu da Memória”, resultado de uma residência artística realizada na própria paisagem da antiga Usina de Santa Therezinha.
As ferramentas que compõem máquinas, estruturas, arquivos e toda a história industrial que marcou a região são o manancial criativo de Villani. Ele reúne mais de 50 peças antigas do lugar e descreve seu trabalho como resultado do entendimento das cicatrizes que o espaço guarda. “São diversas dores que eu começo a discutir a partir das entrevistas que fiz com as pessoas da comunidade. Para elas, a falência da antiga usina traz uma série de lembranças, da perda de trabalho à evasão da juventude em busca de novas perspectivas”, relata o artista. “O projeto rapidamente tomou um outro rumo, porque eu não poderia abandonar esses dramas e, de certa forma, também as alegrias”.
A humanidade contida na proposta estética de Júlio Villani é destacada por Bruna Pessôa como base do projeto geral do museu. “Nós convidamos os artistas para conhecer o espaço e damos absoluta liberdade para eles. Júlio já tinha entendido que área queria ocupar e estava há quatro anos trabalhando nessa obra e que linha de trabalho queria seguir”, conta.
“O trabalho dele resgata a humanidade do lugar. Em uma de suas peças, há um painel com 900 nomes de antigos funcionários. Isso reforça como sua preocupação é bastante verdadeira e desperta sentimentos muito fortes nas pessoas que se sentem representadas nele”, destaca a presidente.
O Parque Artístico Botânico da Usina de Arte está aberto diariamente à visitação, das 5h30 às 18h, com acesso gratuito.