Amigos e familiares se despedem de Jomard Muniz de Britto, ícone do tropicalismo em Pernambuco
Poeta, filósofo e cineasta morreu aos 89 anos; velório acontece na capela do Cemitério de Santo Amaro, no Recife, e sepultamento está marcado para as 16h desta segunda-feira (12)
Amigos e familiares se despedem, nesta segunda-feira (12), do poeta, filósofo e cineasta Jomard Muniz de Britto, na capela do Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife. O artista faleceu nesta madrugada, aos 89 anos, após passar por um período de internação hospitalar.
"Ele era uma figura completamente extrovertida, a animação em pessoa. Como legado, além da obra, deixa sua luta em defesa pela democracia", destaca o advogado Rodrigo Galindo, sobrinho de Jomard.
Já o jornalista, produtor cultural e documentarista Anselmo Alves coloca o artista como uma de suas grandes referências estéticas.“O maior transgressor com conteúdo da minha geração. Ele saía pela rua com suas folhas de A4 e distribuía seus famosos atentados poéticos. Eram manifestos que tinham conteúdo", frisa.
Muitos dos "atentados" de Jomard chegaram às mãos do médico e poeta Abel Menezes, amigo do artista, que o descreve como um “performático ambulante”. Natural de Caruaru, no Agreste, Abel conheceu Jomard quando se mudou para o Recife, nos anos 1960, no contexto da Ditadura Militar.
"Ele já era uma referência para a gente. Já tinha trabalhado com nomes como Glauber Rocha e Paulo Freire", lembra.
Dentre as características do amigo, Abel ressalta a generosidade como a mais notável. "O apoio dele foi fundamental para que o lançasse meu primeiro livro, Delírica Dança, em 1988. A gente estava sempre junto nas sessões de cinema ou nos bares", comenta.
Por sua vez, a poeta Maria Alice Amorim, comenta a maneira como o artista costumava se relacionar com as pessoas nas ruas do Recife. "Jomard conversava com camelôs, comerciantes e trabalhadores, chamando-os pelo nome e sem estabelecer distinções de classe. Tinha muita sensibilidade e admiração pela classe trabalhadora", pontua.
Falecimento
De acordo com o sobrinho Rodrigo Galindo, Jomard foi levado para o Hospital Unimed da Rua José de Alencar, no Centro do Recife, neste sábado (10), após apresentar febre alta e mal-estar. De lá, o artista foi conduzido para a UTI da Unimed de Boa Viagem, na Zona Sul, onde faleceu por volta das 3h30 desta segunda-feira (12), após piora gradual de sua respiração. Jomard tinha início de Parkinson e um quadro de demência.
O sepultamento está marcado para as 16h, no Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife. O artista não deixa filhos.
Sobre Jomard Muniz de Britto
Nascido em 8 de abril de 1937, no bairro de São José, no Recife, Jomard Muniz de Britto construiu uma trajetória que reuniu filosofia, literatura, cinema e música. Formado em Filosofia pela então Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estudou estética com Ariano Suassuna e integrou a equipe do Serviço de Extensão da universidade a convite do educador Paulo Freire.
Durante a ditadura militar, foi preso em 1964 e levado ao Forte das Cinco Pontas, no Recife, onde dividiu cela com o político Gregório Bezerra. A perseguição política também afetou sua carreira acadêmica: a partir de 1969, ele foi impedido de lecionar na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Jomard é considerado um dos precursores do tropicalismo em Pernambuco. Em 1968, assinou, ao lado do músico Aristides Guimarães e do jornalista Celso Marconi, um manifesto ligado ao movimento, que propunha novas formas de expressão artística e questionava padrões culturais estabelecidos.
Nas décadas de 1970 e 1980, desenvolveu parte importante de sua produção cinematográfica em Super-8. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão O Palhaço Degolado (1976), em que aparece caracterizado como palhaço e provoca referências consagradas da cultura regional, e Inventário de um Feudalismo Cultural (1978).
Sua atuação também se estendeu à literatura e às intervenções poéticas nas ruas. Em 2017, sua trajetória foi registrada na biografia Jomard Muniz de Britto: Professor em transe, escrita pela jornalista Fabiana Moraes e pelo historiador Aristides Oliveira.
Em novembro de 2025, filmes do artista foram remasterizados e exibidos na 16ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife, contribuindo para a preservação e a circulação de sua obra.